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A comitiva partiu ao final da manhã do parque de estacionamento do Continente de Ovar, num ambiente que os organizadores classificaram como de “expectativa ansiosa”. Se é certo que o número de veículos ficou aquém das grandes manifestações de anos anteriores, a verdade é que os agricultores presentes não escondiam a preocupação com o que aí vem. O destino era o edifício da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, na Glória, onde uma delegação foi recebida para entregar um documento com oito pontos que consideram vitais para a sobrevivência do setor.
Carlos Alves, presidente da União de Agricultores e Baldios do Distrito de Aveiro (UABDA), foi claro ao explicar aos jornalistas que o movimento não é um mero exercício de estilo. “Andamos aqui há anos a avisar que o copo ia transbordar e parece que ninguém nos ouve. Agora, com esta história do Mercosul a sério, e com as indústrias a avisar que o leite vai baixar outra vez, receamos que seja a machadada final”, disse, visivelmente irritado com a conjuntura. Segundo dados da própria associação, só em 2022 encerraram 200 explorações no distrito, um número que os agricultores temem que venha a agravar-se drasticamente nos próximos meses.
A origem da discórdia é dupla, mas os dois problemas acabam por se cruzar no bolso do produtor. Por um lado, a anunciada descida do preço do leite pago à produção, prevista para maio, que volta a colocar muitos pecuários numa situação de aperto. Por outro, o temor generalizado em relação aos efeitos práticos do acordo comercial entre a União Europeia e os países do Mercosul, cujas regras mais flexíveis na produção de carne e aves são vistas como uma concorrência desleal. “Lá não há as mesmas regras ambientais nem fitossanitárias que temos cá. Chegam aqui com produtos mais baratos e nós, que cumprimos tudo, é que ficamos a arder”, desabafou um produtor de São João da Madeira, que preferiu não se identificar enquanto segurava um cartaz.
António Tavares, produtor de carne e leite, é um rosto bem conhecido na luta e não esconde o cansaço. A sua exploração, com 40 vacas leiteiras e um pequeno efetivo de carne, é, nas suas palavras, um exemplo do que está a acontecer no terreno. “Nós já vínhamos a aguentar com sacrifício, mas a coisa apertou. A receita já não chegava e começámos a acumular dívida. Se este ano não houver uma mudança radical, não sei como vamos fazer. Está a minha exploração e a de muitos outros”, confessou, enquanto se preparava para regressar a casa.
O documento entregue na CCDRC, e que seguiu depois para Lisboa, é extenso e detalhado. Os agricultores querem, acima de tudo, uma lei que proíba a venda a preço abaixo do custo de produção, especialmente no que toca ao leite, carne, fruta e hortícolas. Exigem também uma fiscalização mais apertada à grande distribuição e às importações, defendendo um controlo mais rigoroso nas fronteiras ao que dizem ser “uma enxurrada de carne, leite e galinhas” proveniente da América Latina. “Não somos contra o comércio, somos contra a concorrência desleal. Que fiscalizem e que nos protejam, já que o ministro diz que a agricultura é estratégica”, ironizou Carlos Alves.
Para além disso, a lista inclui medidas como o aumento do desconto no gasóleo agrícola, a aplicação definitiva do Estatuto da Agricultura Familiar e linhas de crédito bonificadas para quem precisa de reestruturar dívidas. Os prejuízos causados pelos incêndios de 2024 e 2025, bem como pelas recentes intempéries, também são lembrados, com os produtores a queixarem-se da lentidão nas respostas. “Que venham ao terreno, que vejam a nossa realidade e nos ajudem a legalizar e a manter o negócio. Isto não é só para nós, é para deixarmos aos nossos filhos”, rematou o dirigente associativo, antes de os tratores iniciarem a marcha de regresso a casa.
NR/HN/Lusa



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