Uma incógnita

Uma incógnita

Confesso que quando foi noticiado que Manuel Pizarro seria o próximo ministro da saúde, fiquei mais tranquilo quanto ao futuro do SNS. O novo governante tem experiência política e “conhece bem a casa” que irá governar. O mesmo quando foi dada à estampa que o novo CEO do SNS seria Fernando araújo. É também homem “da casa”, com experiência bem-sucedida na gestão de unidades de saúde de grande porte. No caso, o Centro hospitalar Universitário de S. João., no Porto. Quem o conhece e com ele trabalha não poupa nos elogios.

Até aqui tudo bem. Temos equipa, seria de pensar.

O problema é que o homem que criou o imposto do pecado ou ‘imposto Coca-Cola’, que levou a uma subida do preço das bebidas não alcoólicas açucaradas, dizem algumas vozes credíveis, ainda não aceitou o cargo. Fá-lo-á dizem, no final da semana, em encontro que irá ter com Manuel Pizarro, no qual irá discutir vários aspetos do desempenho do novo ofício que ainda não se encontram claramente definidos. Como o exercício da função em condições de autonomia, a equipa que o irá acompanhar, e mesmo a localização da nova estrutura que acolherá o novo órgão de gestão, que segundo muitos, Fernando Araújo quer que se seja o Porto.

Mas será que “são favas contadas”? Estava em crer que sim, até ter ouvido o Ministro afirmar ontem a um órgão de comunicação social que ainda não conhecia o decreto que cria a Direção executiva do SNS.

Se não conhece, pergunto eu, o que é que negociou com Fernando Araújo para o levar a aceitar o cargo?

E se o decreto não estiver ao gosto do candidato? Se o colocar numa situação em que o desejado Decreto não cumpre o que lhe foi prometido?

O próprio Presidente da República revelou que tinha algumas dúvidas relativamente à norma mas que as mesmas haviam sido sanadas pelo Governo. Que ainda permanecia uma, após esclarecimento prestados pelo executivo de António Costa. Que dúvidas eram essas? Ora, se nem o Ministro da Saúde conhecia a norma que certamente irá influenciar a sua governação, limitando-lhe poderes, tendo ainda assim aceitado o cargo, será que o mesmo acontecerá com Fernando Araújo?

Tenho dificuldade em acreditar, pelo muito que foi dito da personalidade do nascituro CEO do SNS, que este vá aceitar menos do que acordou ou deseja, que nada garante seja o mesmo que se encontra inscrito no Decreto que o irá reger.

E aí…. Temos bronca da grossa.

Espero estar enganado. Mas de ontem para hoje já ouvi tantas versões sobre a aceitação e o travão nesta por parte de Fernando Araújo, que não posso deixar de quedar-me em dúvida.

MMM

Dr. Nuno Jacinto: “Avaliação do risco mudou o paradigma da osteoporose”

Dr. Nuno Jacinto: “Avaliação do risco mudou o paradigma da osteoporose”

A avaliação do nível de risco individual “torna a abordagem da osteoporose menos dependente de um exame complementar de diagnóstico e facilita o trabalho dos médicos de família”, afirma Nuno Jacinto, presidente da Associação Portuguesa de Medicina Geral e Familiar.  

HealthNews (HN) – Pela sua prevalência no nosso país (cerca de 10% da população) considera que a osteoporose merecia outra abordagem e/ou deveria fazer parte dos indicadores de desempenho das unidades de saúde familiar?

Nuno Jacinto (NJ) –  Provavelmente a osteoporose, tal como aconteceu com outras doenças, sofreu um pouco com a questão da contratualização das USF e das UCSP e dos indicadores, muito focados em determinadas patologias. 

A introdução de indicadores da osteoporose ou de qualquer outra doença poderá ser benéfica desde que sejam balanceados com indicadores focados nos ganhos e nos resultados em saúde. Se tivermos apenas indicadores de processo, o seu cumprimento terá um impacto reduzido na vida real das  pessoas.

Calcular um determinado score para um determinado parâmetro no Sclínico poderá ser importante mas os indicadores terão de ser bem pensados. Não podem representar uma carga de trabalho adicional; terão de enquadrar-se na nossa atividade e voltar a trazer esta doença mais para o nosso dia-a-dia do que tem acontecido nos últimos anos, sem cair no exagero. 

HN – A partir de que idade faz sentido ter um olhar mais atento à osteoporose? 

NJ – As orientações dizem-nos que devemos pensar em todas as mulheres pós-menopáusicas e todos os homens com mais de 50 anos.

A questão é pensar na osteoporose e perceber qual é o nível de risco de cada pessoa. Isso representa uma grande mudança relativamente ao paradigma que existia há alguns anos atrás. Neste momento temos a possibilidade, até mesmo sem fazermos densiometria óssea, de calcular o risco de determinado indivíduo com base em parâmetros como o sexo, a idade, outros fatores de risco como a fratura prévia, o tabagismo ou o uso de corticoides. Esse nível de risco vai-nos permitir, com mais certezas, perceber se a situação deve ser reavaliada periodicamente, se devemos iniciar tratamento de imediato ou pedir uma densitometria óssea para esclarecer alguma dúvida que possa existir. 

Esta mudança de paradigma torna a abordagem da osteoporose menos dependente de um exame complementar de diagnóstico e facilita o trabalho dos médicos de família, que nem sempre têm um acesso facilitado à densiometria óssea.

HN – Em termos de abordagem, o que preconiza ao nível da prevenção, diagnóstico e tratamento?

NJ – As recomendações são, em geral, aquelas que preconizamos em termos de prevenção da doença e promoção da saúde: manter hábitos de vida saudáveis, praticar exercício físico adaptado a cada um, evitar o tabagismo, ter uma dieta rica e variada. Neste caso em particular, importa ter um aporte variado dos vários alimentos, incluindo lacticínios (pela importância do cálcio), e estar atento à exposição solar e à vitamina D, na medida em que existem provas de que esta vitamina desempenha um papel importante na prevenção, na evolução e no próprio tratamento da osteoporose. 

Em termos de diagnóstico, perante cada doente, deveremos calcular o nível de risco para perceber qual é o melhor caminho e a melhor atuação. 

Ao nível do tratamento dispomos de várias armas terapêuticas, sendo de salientar os bifosfonatos, que são os fármacos mais utilizados ao nível dos Cuidados de Saúde Primários com o objetivo de permitir aquilo que todos desejamos: a prevenção da fratura ou a redução das complicações pós-fratura. 

HN – Como analisa a interação dos Cuidados de Saúde Primários com os Cuidados de Saúde Secundários no acompanhamento e monitorização destes doentes após a ocorrência de uma fratura?

NJ – Em primeiro lugar, é importante que os utentes tenham médico de família atribuído para que possa haver esse seguimento no período pós-fratura. Quanto à articulação de cuidados, neste caso entre a Ortopedia e a Medicina Geral e Familiar, é bom que exista uma partilha bidirecional da informação, o que muitas vezes não acontece. Isto não é culpa nem de um lado nem de outro, apenas espelha o sistema que temos e as dificuldades de comunicação que existem entre nós. 

O ideal é estabelecermos, em conjunto, um plano de seguimento, que inclui o tratamento e o acompanhamento regular do doente. Este acompanhamento é essencial tanto num diabético como numa pessoa que sofre um enfarte ou faz uma fratura osteoporótica e que, quando sai do internamento, precisa de um acompanhamento ainda mais regular da sua evolução.  

HN – Depois de dois anos de pandemia, qual é a evolução previsível em termos de recuperação da atividade e acompanhamento regular dos doentes nos Cuidados de Saúde Primários?

NJ – Durante a pandemia, a Medicina Geral e Familiar teve a sua atividade desviada para muitas outras tarefas e muitas das coisas que não foram feitas, ou foram feitas de um modo menos regular, acabam por não ser recuperáveis.  No caso da osteoporose, por exemplo, não é depois de um doente ter feito a fratura que vamos instituir terapêutica de prevenção!… 

O importante agora é que as unidades de saúde familiar (USF) e as unidades de cuidados de saúde personalizados (UCSP) sejam capazes de retomar a atividade normal e tenham capacidade para dar assistência à doença aguda e crónica, aos grupos de risco e vulneráveis.

É verdade que estamos já numa fase de resolução ou de aparente acalmia da pandemia, mas as lacunas anteriores continuam a existir. Continuamos com falta de recursos humanos e materiais e é por isso que insistimos na necessidade de serem dadas condições aos médicos de família para continuarmos a apostar nos vários níveis de prevenção e também na parte curativa. 

 

O que se sabe sobre o vírus Monkeypox

O que se sabe sobre o vírus Monkeypox

O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) já garantiu que está a acompanhar a “situação de perto” e em contacto com os países da União Europeia e comprometeu-se a publicar no início da próxima semana uma primeira avaliação de risco sobre a doença.

O que é e como se transmite a doença?

Foi descoberta pela primeira vez em 1958, quando dois surtos de uma doença semelhante à varíola ocorreram em colónias de macacos utilizados para pesquisas – daí a associação aos macacos e o nome “Monkeypox”.

O primeiro caso humano foi registado em 1970 na República Democrática do Congo, durante um período de esforços intensos para eliminar a varíola.

Este vírus transmite-se através do contacto com um animal ou com uma pessoa infetada ou com material que esteja contaminado.

A transmissão entre humanos ocorre principalmente através de grandes gotículas respiratórias, sendo para isso necessário um contacto prolongado, mas também através de fluidos corporais.

O Monkeypox é considerado um vírus de transmissibilidade moderada entre humanos.

Quais os sintomas da infeção?

Os sintomas incluem febre, dor de cabeça, dores musculares e nas costas, nódulos linfáticos inchados, arrepios de frio e exaustão, desenvolvendo-se ainda uma erupção cutânea.

O período de incubação é tipicamente de seis a 16 dias, mas pode chegar aos 21. Quando a crosta cai, uma pessoa deixa de ser infecciosa.

Qual a gravidade da doença?

A sua manifestação clínica é geralmente leve, com a maioria das pessoas infetadas a recuperar em poucas semanas, mas o ECDC alerta que as pessoas imunocomprometidas estão especialmente em risco de ter doença grave provocada por este vírus.

Quando surgiu agora o primeiro caso na Europa?

Desde 2018, registaram-se sete casos de infeção no Reino Unido com histórico de viagens a países endémicos.

Nesta fase, o primeiro caso foi reportado pela autoridade de saúde do Reino Unidos em 07 de maio.

Esta é a primeira vez que as cadeias de transmissão são reportadas na Europa sem ligações epidemiológicas conhecidas à África Ocidental e Central.

O ECDC reconhece que a extensão da transmissão comunitária é ainda desconhecida.

Quais as recomendações imediatas do ECDC?

Para já, o centro europeu recomenda que quem apresente sintomas procure cuidados médicos e que as pessoas que se envolvem com múltiplos parceiros sexuais ou fazem sexo casual devem ser “particularmente vigilantes”.

Além disso, os casos suspeitos devem ser isolados e testados e deve ser feito o rastreamento dos contactos dos casos positivos.

O ECDC adianta ainda que, se as vacinas contra a varíola estiverem disponíveis no país, a vacinação de contactos próximos de alto risco deve ser considerada, após uma avaliação do risco-benefício.

Já para casos graves, o tratamento com um antiviral também pode ser considerado.

Quantos casos de infeção há em Portugal?

De acordo com os dados de quarta-feira da Direção-Geral da Saúde (DGS), Portugal totaliza 23 casos de infeção pelo vírus Monkeypox, que se mantêm em acompanhamento clínico, encontrando-se estáveis.

 Estão a ser desenvolvidos inquéritos epidemiológicos para identificar cadeias de transmissão e potenciais novos casos.

Esta é a primeira vez que é detetada em Portugal infeção pelo vírus Monkeypox.

LUSA/HN

O que tinha sido de nós sem os Médicos de Família?

O que tinha sido de nós sem os Médicos de Família?

Neste dia, em que se comemora, mundialmente, a figura do Médico de Família, quero render a minha homenagem aos colegas desta especialidade que, na minha opinião, são merecedores do reconhecimento e gratidão dos cidadãos e das Autoridades.

A pandemia COVID-19, de novo em crescendo, veio, durante estes últimos dois anos, demonstrar o papel insubstituível dos médicos de família nos Serviços e Sistemas de Saúde em Portugal e no Mundo.

Apesar da clara evidência acerca da importância fundamental dos Cuidados de Saúde Primários, parecem manter-se incompreensíveis hesitações, nos decisores políticos, sobre a necessidade de maior investimento – o que não significa mais dinheiro – e de uma adequada gestão de recursos humanos nesta área.

Mas, este período de incerteza e preocupação que temos vivido veio também, se dúvidas houvesse, comprovar o fantástico trabalho que os médicos de família, na sua globalidade, realizaram a todos os níveis: seguimento de doentes, monitorização de contactos, testagem, vacinação, etc.

A todas as exigências responderam com competência, humanismo e humildade, sem esquecerem, na medida do possível, os seus doentes, sobretudo aqueles que são portadores de doenças crónicas não transmissíveis.

Os médicos de família foram um dos principais esteios (não podendo esquecer as especialidades hospitalares mais implicadas na assistência aos doentes infetados mais graves) no suporte médico e social desta grave e continuada crise de Saúde Pública.

Importa recordar que o peso assistencial, enorme e sem precedentes, suportado pelo profissionalismo dos médicos de família, originou, em muitos deles, situações de burnout/esgotamento que devem ser alvo das maiores atenções.

Os princípios hipocráticos impõem-nos o autocuidado na manutenção da nossa própria saúde, que não pode, nem deve, ser esquecido por estes Colegas.

Só assim poderão manter a Saúde e a paz de espírito, necessárias para melhor poderem cuidar dos outros.