Novas guidelines para a diabetes tipo 2 apresentadas no Congresso de Endocrinologia

Novas guidelines para a diabetes tipo 2 apresentadas no Congresso de Endocrinologia

O Congresso Português de Endocrinologia, que representa a 74.ª reunião da SPEDM, concentrará, na edição deste ano, a apresentação de várias recomendações, nomeadamente as guidelines luso-brasileiras e das Associações Europeias e Americanas de Diabetes para o tratamento da diabetes mellitus tipo 2, a divulgação das Guidelines Europeias da Doença Nodular da Tiroide, a apresentação das diretrizes portuguesas sobre vitamina D e a posição de consenso sobre a cirurgia bariátrica e gravidez.

As mais de 200 comunicações sobre o largo espetro de doenças endócrinas serão apresentadas por especialistas de referência nacionais e internacionais, dando a conhecer não só as novidades científicas como todo o trabalho que está a ser realizado nos centros de endocrinologia nacionais, e debatendo as inúmeras áreas temáticas abrangidas pela endocrinologia: diabetes, obesidade, tiroide, supra-renal, hipófise, gonadas, gravidez, metabolismo fosfo-cálcico, tumores e neoplasias endócrinas.

Os temas e conferencistas de um evento que a organização, presidida pelo endocrinologista Jorge Dores, pretende ser diverso, abrangente, de qualidade e que contribua para a formação de profissionais de saúde (médicos endocrinologistas, de medicina geral e familiar, medicina interna, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos ou investigadores), podem ser conhecidos no programa, já disponível no site do congresso (www.spedm2023.pt).

“O congresso é o momento alto da partilha da endocrinologia em Portugal e, mais uma vez, a SPEDM prova ser o farol para o tratamento e a investigação das doenças endócrino-metabólicas no país”, considera o presidente da SPEDM, João Jácome de Castro, sublinhando a colaboração com outras sociedades científicas nacionais e a presença de sociedades científicas internacionais.

Pela primeira vez, estarão igualmente presentes as associações de doentes relacionadas com diabetes, obesidade e tiroide. “Um envolvimento muito importante e que permite criar laços, agregar, promover a partilha e a colaboração”, “que são objetivos que formam o ADN do Congresso Português de Endocrinologia e da própria SPEDM, que existe desde 1949”, refere João Jácome de Castro.

O congresso incluirá também palestras com outros temas. O professor universitário e ex-ministro da Saúde Adalberto Campos Fernandes falará sobre os “desafios do sistema de saúde” e o psiquiatra Júlio Machado Vaz sobre “sexualidades e culturas – uma viagem através do tempo”.

Na abertura do congresso, a 3 de fevereiro, estarão presentes Graça Freitas e Miguel Guimarães.

PR/HN/RA

NICE recomenda acesso a “pâncreas artificial” para gerir diabetes tipo 1

NICE recomenda acesso a “pâncreas artificial” para gerir diabetes tipo 1

A orientação publicada este mês surge na sequência de um estudo piloto que avaliou a utilização do sistema híbrido de circuito fechado em 35 centros de diabetes do Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido.

A Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) aplaude a recomendação e sublinha o avanço introduzido por esta tecnologia no tratamento e controlo da diabetes, informa o comunicado de imprensa.

“Como aponta o comité do NICE, existem claros benefícios no que diz respeito ao uso desta tecnologia, que, antes de chegar a possibilidade da cura, é a melhor forma de ajudar as pessoas com diabetes tipo 1 a controlar os níveis de glicose no sangue, ganhando uma melhor qualidade de vida”, afirma José Manuel Boavida, presidente da APDP, citado na nota.

Frisa ainda os benefícios a nível de custos, considerando o impacto na redução de complicações e internamentos e no aumento da esperança média de vida. “Este é o caminho a seguir. As pessoas que vivem com diabetes tipo 1 devem ter acesso ao melhor tratamento possível e o Serviço Nacional de Saúde deve conseguir garantir isso mesmo. Não há dúvidas de que a falta de aposta na inovação tecnológica apenas servirá para aumentar os custos que esta doença acarreta, tanto para as pessoas como para o sistema de saúde”, remata.

A proposta das recomendações do NICE, em discussão até ao final deste mês, exige agora que o NHS, em nome dos órgãos de saúde, concorde com um preço custo-efetivo para o dispositivo. Atualmente, o custo médio anual desta tecnologia é de cerca de 6.500 euros e mais de 100.000 pessoas são elegíveis para a receber.

Em Portugal, calcula-se que serão cerca de 30.000 as pessoas que vivem com diabetes tipo 1, sendo que este número tem vindo a aumentar consideravelmente nos últimos anos. Deste número, estima-se que um terço terá indicação clínica e escolherá utilizar um Sistema Híbrido de Perfusão Subcutânea Contínua de Insulina (PSCI).

A APDP explica ainda que este “pâncreas artificial” elimina por completo a necessidade de serem realizados testes de picada no dedo e pode prevenir ataques de hipoglicemia e hiperglicemia que coloquem a pessoa com diabetes tipo 1 em risco de vida. Os sistemas híbridos de circuito fechado usam um sensor de monitorização de glicose contínuo que é conectado ao corpo. Ao receber os dados, o sistema calcula a quantidade de insulina que precisa de ser administrada, eliminando a necessidade de introduzir os dados manualmente ou de recorrer a injeções de insulina.

PR/HN/RA

Doze instituições nacionais juntam-se para criar rede de museus para a inclusão na demência

Doze instituições nacionais juntam-se para criar rede de museus para a inclusão na demência

Portugal é um dos quatro países da OCDE com maior prevalência de demência. Atualmente, registam-se cerca de 200.000 casos de pessoas com demência, sendo que, de acordo com projeções da Alzheimer Europe, poderão ser cerca de 350.000 em 2050.

“A nível nacional, são escassas as ofertas dos museus concebidas especificamente para as Pessoas com Demência e seus Cuidadores, salientando-se a ação pioneira do programa EU no musEU, criado em 2011 pelo Museu Nacional de Machado de Castro, em parceria com a Alzheimer Portugal”, pode ler-se no comunicado enviado aos jornalistas.

“Neste sentido, entendeu-se ser fundamental criar uma rede nacional de museus para a inclusão na demência, no sentido de desenvolver e partilhar boas práticas, capacitar as equipas das instituições culturais e consciencializar a comunidade para o tema das demências, cada vez mais relevante do ponto de vista social e da saúde pública.”

São doze as entidades que constituem os membros fundadores da rede informal – Museus para a Inclusão na Demência (MID): Acesso Cultura, Alzheimer Portugal, Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Jardim Botânico da Universidade de Coimbra, MAAT – Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia, Museu Calouste Gulbenkian, Museu da Ciência da Universidade de Coimbra, Museu de Lisboa – EGEAC (Empresa de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural), Museu Municipal de Pombal, Museu Nacional Grão Vasco – DGPC (Direção-Geral do Património Cultural), Museu Nacional de Machado de Castro – DGPC e Museu Tesouro da Misericórdia de Viseu – SCMV (Santa Casa da Misericórdia de Viseu).

Esta rede tem como objetivos gerais: “contribuir para aumentar a autonomia, o bem-estar, a dignidade, a participação social e cultural, assim como a qualidade de vida das Pessoas com Demência e dos seus Cuidadores; consciencializar as equipas das instituições culturais para a necessidade de criar respostas específicas para as Pessoas com Demência e seus Cuidadores e capacitar as equipas como verdadeiros agentes de mudança, tendo em vista contribuir para uma sociedade mais inclusiva, diminuindo o estigma associado à demência”.

PR/HN/RA

Beber 2 ou mais chávenas de café diariamente pode duplicar o risco de morte cardíaca em pessoas com hipertensão arterial grave

Beber 2 ou mais chávenas de café diariamente pode duplicar o risco de morte cardíaca em pessoas com hipertensão arterial grave

Em contraste, o estudo descobriu que uma chávena de café e o consumo diário de chá verde não aumentava o risco de morte relacionado com doenças cardiovasculares em qualquer medição da tensão arterial, embora ambas as bebidas contenham cafeína. Segundo a FDA, uma chávena de 8 onças de chá verde ou preto tem 30-50 miligramas de cafeína, e uma chávena de café de 8 onças tem cerca de 80 a 100 miligramas.

Pesquisas anteriores descobriram que beber uma chávena de café por dia pode ajudar os sobreviventes de ataques cardíacos, diminuindo o risco de morte após um ataque cardíaco e pode prevenir ataques cardíacos ou acidentes vasculares cerebrais em indivíduos saudáveis. Além disso, estudos separados sugeriram que beber café regularmente pode reduzir o risco de desenvolver doenças crónicas, tais como diabetes tipo 2 e alguns cancros; pode ajudar a controlar o apetite; pode ajudar a diminuir o risco de depressão ou aumentar o estado de alerta, embora não seja claro se este efeito provém da cafeína ou de qualquer outro componente do café. Pelo contrário, demasiado café pode aumentar a pressão arterial e levar a ansiedade, palpitações cardíacas e dificuldade em dormir.

“O nosso estudo visava determinar se o conhecido efeito protetor do café também se aplica a indivíduos com diferentes graus de hipertensão; e também examinou os efeitos do chá verde na mesma população”, explicou o autor sénior do estudo Hiroyasu Iso, M.D., Ph.D., M.P.H., diretor do Instituto de Investigação de Políticas de Saúde Globais, do Gabinete de Cooperação Internacional de Saúde, parte do Centro Nacional de Saúde e Medicina Global em Tóquio, Japão, e professor emérito na Universidade de Osaka. “Tanto quanto sabemos, este é o primeiro estudo a encontrar uma associação entre beber 2 ou mais chávenas de café diariamente e a mortalidade por doenças cardiovasculares entre pessoas com hipertensão grave”.

A hipertensão arterial, também conhecida como hipertensão, ocorre quando a força do sangue empurrando contra as paredes dos vasos sanguíneos é consistentemente demasiado elevada, fazendo com que o coração trabalhe mais para bombear sangue. É medida em milímetros de mercúrio (mm Hg). As directrizes actuais da Associação Americana do Coração e do Colégio Americano de Cardiologia classificam a hipertensão arterial como uma leitura de pressão arterial 130/80mm Hgor mais elevada.

Os critérios de pressão arterial utilizados neste estudo são ligeiramente diferentes das diretrizes da ACC/AHA. Os investigadores classificaram a tensão arterial em cinco categorias: ótima e normal (inferior a 130/85 mm Hg); normal elevado (130-139/85-89 mm Hg); hipertensão de grau 1 (140-159/90-99 mm Hg); grau 2 (160-179/100-109 mm Hg); e grau 3 (superior a 180/110 mm Hg). As medidas de tensão arterial nos graus 2 e 3 foram consideradas hipertensão arterial grave neste estudo.

Os participantes no estudo incluíam mais de 6.570 homens e mais de 12.000 mulheres, com idades compreendidas entre os 40 e 79 anos no início da investigação. Foram selecionados do Japan Collaborative Cohort Study for Evaluation of Cancer Risk – um grande estudo prospetivo estabelecido entre 1988 e 1990 de adultos que viviam em 45 comunidades japonesas. Os participantes forneceram dados através de exames de saúde e questionários auto-administrados de avaliação do estilo de vida, dieta e história médica.

Durante quase 19 anos de seguimento (até 2009), foram documentadas 842 mortes relacionadas com a doença cardiovascular. 

A análise dos dados encontrados para todos os participantes:

  1. Beber duas ou mais chávenas de café por dia estava associado ao dobro do risco de morte por doença cardiovascular em pessoas cuja tensão arterial era de 160/100 mm Hg ou superior, em comparação com as que não bebiam café.
  2. Beber uma chávena de café por dia não estava associado ao aumento do risco de morte por doenças cardiovasculares em qualquer categoria de tensão arterial.
  3. O consumo de chá verde não estava associado a um risco acrescido de mortalidade por doenças cardiovasculares em qualquer categoria de tensão arterial.

“Estas descobertas podem apoiar a afirmação de que as pessoas com tensão arterial elevada severa devem evitar beber café em excesso”, disse Iso. “Porque as pessoas com hipertensão arterial grave são mais suscetíveis aos efeitos da cafeína, os efeitos nocivos da cafeína podem compensar os seus efeitos protetores e podem aumentar o risco de morte”.

O estudo concluiu que as pessoas com maior frequência de consumo de café eram mais jovens, fumadores atuais, consumidores atuais, comem menos vegetais, e têm níveis de colesterol total mais elevados e tensão arterial sistólica mais baixa (número máximo), independentemente da categoria da tensão arterial.

Os benefícios do chá verde podem ser explicados pela presença de polifenóis, que são micronutrientes com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias saudáveis encontrados nas plantas. Os investigadores observaram que os polifenóis podem ser parte da razão pela qual apenas o consumo de café foi associado a um risco acrescido de morte em pessoas com tensão arterial elevada, apesar de tanto o chá verde como o café conterem cafeína.

A investigação tem várias limitações: o consumo de café e chá foi auto-referido; a pressão arterial foi medida num único ponto, o que não levou a alterações ao longo do tempo; e a natureza observacional do estudo não conseguiu estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre o consumo de café e o risco de doenças cardiovasculares entre pessoas com tensão arterial elevada severa.

São necessários mais estudos para aprender mais sobre os efeitos do consumo de café e chá verde em pessoas com tensão arterial elevada e para confirmar os feitos do consumo de café e chá verde noutros países, disseram os investigadores.

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Miguel Castanho: “Temos a ilusão de que a pandemia está muito melhor controlada do que realmente está”

Miguel Castanho: “Temos a ilusão de que a pandemia está muito melhor controlada do que realmente está”

HealthNews (HN)- A China tem apresentado nas últimas semanas uma explosão de novos casos. Este cenário é algo que o preocupa?

Miguel Castanho (MC)- Para já preocupa-me moderadamente. Trata-se de subvariantes da Ómicron que não trazem um problema acrescido. A população europeia tem uma boa proteção imunológica conferida pelas vacinas e pela infeção direta da Ómicron.

HN- Mas os índices de imunidade da população chinesa não são iguais aos dos países europeus… As vacinas utilizadas na China provaram ser menos eficazes contra infeções graves do que as versões ocidentais de RNA mensageiro e, por outro lado, o número de doses de reforço no país é muito baixo

MC- É um erro pensar que a Europa sob o risco de acontecer algo semelhante ao que está a acontecer na China. O país adotou confinamentos muito violentos, restringindo muito a imunidade natural. Portanto, com o fim das restrições a população ficou exposta ao vírus. Isto não é algo que possa a vir a acontecer na Europa. No entanto, o verdadeiro risco para os países europeus é assistirmos ao aparecimento de novas subvariantes.

HN-Com isso quer dizer que a imunidade adquirida pelos países ocidentais poderá não ser capaz de fazer frente a possíveis mutações do vírus?

MC- Exatamente. Podem sempre a aparecer novas formas do vírus que escapem à imunidade conferida até agora. Sabemos que enquanto houver uma multiplicação muito grande da Covid-19 estamos em risco.

HN- Não lhe parece um pouco contraditório que estejam a ser impostas medidas de controlo de passageiros vindos da China, tendo em conta que a nível europeu, e mesmo em Portugal, a testagem e vigilância da doença nos países europeus tem vindo a diminuir de forma significativa?

MC-Entendo que se adotem medidas que visem mitigar a propagação do vírus e de novas variantes. O que nunca entendi foi o porquê de termos abdicado da testagem e da utilização das máscaras nos transportes públicos. Isso sim é incoerente. O inverno é a altura de maior risco. 

HN- Portanto, deveríamos ter mantido estas medidas de proteção…

MC-Exatamente. Estas medidas não deveriam ter sido abandonadas. Estamos a falar de medidas ligeiras que deveriam ter sido mantidas no inverno – altura em que é mais propício assistirmos ao aparecimento de subvariantes. 

HN- Olhando para a forma como a Europa está a encarar o surto de Covid-19 na China, considera que as lições destes quase três anos de pandemia foram verdadeiramente aprendidas?

MC- Tenho algumas dúvidas. Espero que ainda aprendamos. É importante frisar que as doenças infeciosas ainda não acabaram e que os microrganismos são uma ameaça real para a Saúde Pública. 

Outra lição importante, mas que parece que não aprendemos, está relacionada com a politização da corrida às vacinas.

HN- Agora que fala sobre a politização da pandemia…  Com as atenções viradas para o surto na China não poderemos estar a negligenciar uma outra subvariante que está a propagar-se nos Estados Unidos (XBB.1.5)?

MC- Infelizmente já não estamos tão alertas para a atividade da Covid-19 como antigamente. Temos a ilusão de que a pandemia está muito melhor controlada do que aquilo que realmente está. E isto tem a ver com o facto de termos muito menos informação disponível sobre o vírus. O sistema de testagem e divulgação de informação já não é o mesmo. Isto tudo criou uma ilusão e uma ideia de que a pandemia estaria muito próximo do fim.

Relacionamos a Covid-19 com a China, mas a doença não acabou noutros territórios. Temos agora uma nova subvariante nos Estados Unidos.

HN- A OMS disse que se tratava de uma variante com uma transmissão nunca antes vista…

MC- A XBB.1.5 aparenta ter uma transmissibilidade significativamente mais elevada quando comparada com as subvariantes da Ómicron. Do ponto de vista científico é surpreendente assistir à capacidade que a Covid-19 tem de formar novas variantes e subvariantes cada vez mais transmissíveis.

HN- Esta subvariante preocupa-o mais do que aquelas que circulam na China?

MC- Sim. A subvariante que circula nos Estados Unidos tem uma transmissibilidade maior.

Entrevista de Vaishaly Camões