Xavier Barreto vence eleições da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares

Xavier Barreto vence eleições da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares

O ato eleitoral realizado para a eleição dos órgãos sociais da Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares para o próximo triénio (2022-2025).

 “A Lista A liderada por Xavier Barreto garantiu a maioria dos votos, assegurando 164 votos expressos (64,3%). A lista derrotada liderada por Diana Breparda obteve 90 votos (35,5%). Contabilizou-se ainda um voto nulO”, adianta a APAH numa nota de imprensa enviada à agência Lusa.

A Lista vencedora assumiu-se como uma lista de continuidade face ao trabalho desenvolvido nos últimos anos, assumindo a revisão da carreira de administração hospitalar como fundamental para a qualificação da gestão do Serviço Nacional de Saúde.

Xavier Barreto integrou, nos últimos três anos, a atual direção da APAH, tendo decidido avançar com uma candidatura ao mandato 2022-2025 com uma lista que reuniu administradores hospitalares de todo o país e contou com o apoio do presidente cessante, Alexandre Lourenço.

O administrador hospitalar do Centro Hospitalar Universitário de São João, no Porto, pretende durante o seu mandato implementar um programa de formação dos administradores hospitalares, reforçando a sua capacitação para liderarem a transformação que está em curso no  sistema de saúde.

“Saúde digital, ciência de dados e inteligência artificial, contratação pública, gestão de projetos, gestão de investigação e inovação, gestão da qualidade, criação de valor em saúde e desenho e melhoria de processos, são algumas das áreas sobre as quais incidirá este programa de formação, que será destinado a todos os associados da APAH”, refere o Xavier Barreto no seu programa.

Para manter a APAH como estrutura independente e democrática, ao serviço exclusivo dos interesses dos seus associados, Xavier Barreto assumiu o compromisso de não aceitar qualquer nomeação para órgãos de administração, por considerar que tal não é compatível com o exercício do cargo.

“A defesa dos interesses da APAH e dos seus associados obriga necessariamente a uma total autonomia das suas posições e propostas, particularmente no que respeita à revisão da carreira”, defende.

Xavier Barreto é pós-graduado em Administração Hospitalar pela Escola Nacional de Saúde Pública da Universidade Nova de Lisboa e em Gestão e Direção de Serviços de Saúde pela Porto Business School – Universidade do Porto.

É ainda diplomado em Estudos Avançados em Investigação em Ciências da Saúde, pela Faculdade de Medicina da Universidade de Barcelona e Especialista em Lean Manufacturing pela Escola de Engenharia da Universidade do Minho.

Foi Membro do Grupo Técnico para a Reforma Hospitalar e desempenhou funções de administração em unidades hospitalares públicas e privada e foi vogal da Direção da APAH e membro do Comité executivo da European Association of Health Managers (EAHM). Atualmente, é diretor do Centro de Ambulatório do Centro Hospitalar de S. João EPE e docente convidado da Universidade do Porto.

A Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares (APAH) é a organização com maior representatividade dos profissionais com funções de administração e gestão na área da saúde em Portugal.

LUSA/HN

Fausto Pinto quer “consolidar o prestígio da classe médica através de uma Ordem de rigor e exigência”

Fausto Pinto quer “consolidar o prestígio da classe médica através de uma Ordem de rigor e exigência”

“É com o maior sentido de responsabilidade e humildade que venho formalmente manifestar a minha total disponibilidade para me candidatar a ser o próximo bastonário da nossa Ordem dos Médicos. Faço-o com o sentido de dever e a missão de defender e representar todos os médicos. Sinto igualmente a força e perseverança para melhorar a saúde de todos os portugueses.

Podeis perguntar como… Investindo na qualidade e motivação dos médicos, elemento essencial e central em qualquer sistema de saúde, e garante da mesma”, disse o candidato.

A candidatura do diretor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL) “visa muito concretamente o reforço do prestígio da classe médica, ao serviço da população portuguesa, num momento muito difícil para o país e o mundo”. “Não há saúde sem médicos, e não há saúde de qualidade sem médicos fortes, pelo que lutarei ‘Por uma Ordem forte, para uma saúde forte’”, garantiu o candidato.

Para o cardiologista, “estamos (…) no momento ideal de introduzir as modificações necessárias no nosso sistema de saúde, para o tornar mais competitivo, mais atrativo, mais equitativo, mais inovador, porque resiliente já ele é, e quem nele trabalha, também”. “Nunca foi tão preciso unirmos esforços e saberes, independentemente das cores políticas ou outras, para implementarmos um verdadeiro sistema nacional de saúde à altura do que Portugal tanto precisa”: um sistema “que garanta o acesso dos portugueses à saúde que merecem” e “em que os médicos tenham o papel central”.

Com “o envolvimento de todos os médicos” e o intuito de ser seu “veículo” junto da comunidade e dos decisores, e tendo “a imparcialidade e independência como referências”, o candidato assumiu o compromisso de: “contribuir para a concretização de um sistema de saúde inclusivo nos seus vários componentes (público, privado e social), que deverá ser o garante da saúde de todos os portugueses; promover uma Ordem dos Médicos desburocratizada, voltada para fora, ao serviço dos cidadãos; impulsionar uma maior interação e ligação da Ordem dos Médicos às universidades/academias, reforçando a intervenção da Ordem dos Médicos na formação médica, desde o ensino pré ao pós-graduado; [e] criar as condições necessárias para garantir maior equidade na saúde, nas suas mais variadas vertentes, incluindo uma maior participação dos jovens médicos”.

Fausto Pinto pretende ainda “criar um Gabinete dos Jovens Médicos (internos e recém-especialistas), diretamente ligado ao bastonário, para dar uma maior resposta aos naturais anseios dos médicos do futuro, garantes do bem-estar da nossa população”, e “um Gabinete de Apoio aos Médicos Aposentados, o outro extremo da pirâmide etária, tantas vezes esquecido, numa demonstração de que a Ordem dos Médicos é para todos, dos mais novos aos mais velhos”.

Outra das preocupações do candidato é o acesso atempado à inovação terapêutica e tecnológica – “um dos problemas que enfrentamos em Portugal e no mundo”. “Compete a uma Ordem dos Médicos respeitada alertar para estas situações e, em conjunto com os decisores, ser agente de catalisação da inovação, ao serviço dos portugueses”, acrescentou.

Maria do Céu Machado, ex-presidente do Infarmed, é a mandatária da candidatura de Fausto Pinto. A pediatra disse ao HealthNews que esta “é uma candidatura diferente”, “e a diferença começa logo porque ele quer ouvir os médicos”. “Quer primeiro ouvir, e depois construir.”

“Obviamente que o diagnóstico está feito em relação a uma série de situações que dizem respeito aos próprios médicos, sejam jovens, sejam mais velhos, e que dizem respeito ao sistema de saúde, ao Serviço Nacional de Saúde, à Medicina Geral e Familiar, mas há problemas mais específicos. Ele quer ouvir todos, sejam do público ou do privado, sejam jovens, sejam mais velhos, e construir o futuro”, disse-nos Maria do Céu Machado.

Esta tarde, perante apoiantes e ao lado do seu candidato, a médica disse que Fausto Pinto tem “a perceção e a sensibilidade das pessoas certas para o lugar certo” e “é assertivo no sentido puro; ou seja, tem opinião, mas sabe ouvir”.

“É o médico que a Ordem dos Médicos precisa, é o médico que os médicos precisam, é o médico que, conhecendo a realidade portuguesa, os cidadãos precisam”, afirmou Maria do Céu Machado.

“A Ordem dos Médicos já é parceira da tutela na formação, mas pode e deve ser parceira na resolução de problemas, restruturação do sistema de saúde português, num Serviço Nacional de Saúde forte, nos cuidados primários adequados, eficazes para todos os portugueses, na coordenação entre público e privado. Michael Porter, economista em saúde, diz que a criação de valor em saúde requer uma visão e um investimento a longo prazo. É essa a visão de Fausto Pinto: ouvir para o futuro”, rematou a mandatária.

Fausto Pinto é diretor da FMUL, diretor do Serviço de Cardiologia e do Departamento de Coração e Vasos do Centro Hospitalar Universitário Lisboa Norte e presidente da World Heart Federation.

HN/Rita Antunes

Dra. Ana Rosa Costa: O futuro na osteoporose passa por tratamentos sequenciais

Dra. Ana Rosa Costa: O futuro na osteoporose passa por tratamentos sequenciais

Na osteoporose, a duração da terapêutica «deve ser ajustada em função da idade da mulher, tipo de tratamento e risco de fratura». Na perspetiva da ginecologista Ana Rosa Costa, do Centro Hospitalar Universitário de S. João, «o futuro passa por tratamentos “sequenciais” para manter o tratamento a longo prazo».  

HealthNews (HN) – A prevalência da osteoporose é muito superior nas mulheres. Quais são as razões que estão na base desta evidência amplamente comprovada?

Ana Rosa Costa (ARS) – A razão para a maior prevalência de osteoporose nas mulheres é a menopausa com consequente hipoestrogenismo. Os estrogénios são importantes para o metabolismo ósseo e com a sua diminuição após a menopausa aumenta a reabsorção óssea. A prevalência de osteoporose aumenta com a idade e particularmente nos primeiros anos após a menopausa há uma perda acelerada de massa óssea.

HN – Na sua perspetiva, todas as mulheres pós-menopáusicas devem ser avaliadas nesta fase da sua vida?

ARS – Sim, é importante rastrear e tratar as mulheres com risco de fratura. A osteoporose e fraturas acarretam custos elevados para a sociedade e têm impacto negativo na qualidade de vida das mulheres e das suas famílias, pela morbilidade com declínio funcional e dependência de terceiros, dor crónica e mortalidade aumentada com consequências graves a longo prazo, constituindo uma grande preocupação de saúde pública.

HN Qual é o papel dos ginecologistas na prevenção desta patologia tão prevalente?

ARS – O ginecologista é frequentemente o médico a que a mulher recorre na peri-menopausa e esta constitui uma ótima oportunidade para rastreio, diagnóstico e instituição de terapêutica para prevenção da osteoporose e fraturas. A osteoporose é assintomática e as mulheres afetadas desconhecem a doença até sofrerem uma fratura por fragilidade. A capacidade de avaliar o risco de fratura é crucial para identificar as mulheres que terão indicação para intervenções terapêuticas e a consulta de ginecologia constitui também uma oportunidade para a educação/aconselhamento sobre estilos de vida estimulando a atividade física.

HNQuais são os passos que o ginecologista deve seguir em termos de avaliação de um eventual risco de desenvolvimento de osteoporose em mulheres pós-menopáusicas?

ARS – Foram identificados muitos fatores de risco nas últimas duas décadas que contribuem para o risco de fratura, pelo menos parcialmente, independentemente da DMO. Estes incluem idade, uma fratura anterior, história familiar de fratura e fatores de risco de estilo de vida, como sedentarismo e tabagismo.

A histórica clínica deve ser direcionada no sentido de identificar esses fatores de risco familiares (fraturas de fragilidade) e pessoais (diabetes, insuficiência renal crónica, falência ovárica prematura ou menopausa precoce…), avaliação do estilo de vida, risco de quedas, hábitos alimentares e consumo de álcool e tabaco, peso e IMC da mulher. O algoritmo FRAX validado para a população portuguesa inclui alguns destes fatores e ajuda-nos a calcular o risco de fratura major a 10 anos

HNAtravés do algoritmo FRAX é possível avaliar o risco de uma mulher desenvolver osteoporose num espaço de 10 anos e se necessita de tratamento farmacológico?

ARS – Sim, a introdução do algoritmo FRAX (atualmente disponível em 73 países e cobrindo cerca de 80% da população mundial) facilitou a avaliação inicial do risco de fratura osteoporótica major (anca, vertebral, rádio ou úmero …), integrando a influência de oito fatores de risco bem validados: fratura por fragilidade anterior, fratura do fémur dos pais, tabagismo, corticoterapia sistémica, ingestão excessiva de álcool, IMC, artrite reumatóide e outras causas de osteoporose secundária. Estes, além da idade e sexo, contribuem para uma estimativa de risco de fratura aos10 anos independentemente da DMO (a DMO do colo do fémur é opcional).

HNContudo, o FRAX também tem algumas limitações. Na sua perspetiva, quais são as mais relevantes?

ARS – Os fatores de risco incluídos no FRAX foram escolhidos cuidadosamente para diminuir a complexidade, facilitar o preenchimento e incluir apenas contribuintes independentes e bem estabelecidos para o risco de fratura. Além disso, era importante que os fatores utilizados identificassem um risco passível de intervenção mas não tem em consideração, por exemplo, o tempo de exposição a corticoides (risco de fratura aumenta com o tempo mas o FRAX apenas permite uma resposta sim/não). Também o número de fraturas anteriores e o nivel  consumo de álcool são importantes. Outro elemento em falta é a DMO da coluna lombar (que é frequentemente recomendada nas guidelines de tratamento) e a ausência de propriedades estruturais do osso. A razão pela qual estes fatores não foram considerados relaciona-se com a falta de dados internacionais que permitiriam a validação da sua inclusão, incluindo a sua interação com outros fatores de risco do FRAX. Foram propostos ajustes aritméticos para tentar colmatar algumas dessas limitações, e que incluem ajuste para exposição alta, moderada e baixa aos corticoides, dados simultâneos sobre DMO da coluna lombar, informações sobre o score ósseo trabecular, comprimento do fémur, história de quedas, diabetes tipo 2, existência de fratura anterior recente.

HNEm que situações está indicada a realização de Densiometria Óssea (DEXA)?

ARS – Geralmente, não é recomendado a realização de DEXA para avaliação da DMO basal em todas as mulheres com menopausa recente, mas o uso de uma das ferramentas de triagem sensíveis como o FRAX, permitem identificar melhor as candidatas para DEXA. Não há necessidade de realizar DEXA com valores inferiores a 7% para fraturas major e a 2% para a fratura da anca (medidas preventivas gerais), nem para valores superiores a 11% para fraturas major ou 3% para fratura da anca (deve ser instituído tratamento farmacológico).

No caso de valores intermédios, a realização de DEXA está indicada para seleção de doentes que necessitam de tratamento e também após instituição de terapêutica para avaliar a resposta ao tratamento (DMO por DEXA na coluna e no fémur  recomendada a cada 1 a 3 anos e com desonumab após 5 a 10 anos).

A principal dificuldade para a avaliação do risco de fratura com T score <2,5 da DEXA é que, embora esse limiar tenha alta especificidade, tem baixa sensibilidade, de modo que a maioria das fraturas por fragilidade ocorre em indivíduos com valores de DMO acima do limiar de osteoporose.

HNEm relação às terapêuticas, na sua opinião quais foram os desenvolvimentos mais importantes?

ARS – Existem várias terapêuticas disponíveis para prevenção e tratamento da osteoporose pós-menopausa. Para além dos fármacos anti-reabsortivos como a terapêutica hormonal e os bifosfonatos (posologia semanal, mensal ou anual), temos atualmente disponível um anticorpo monoclonal inibidor do RANKL bianual (denosumab) e mais recentemente agentes anabólicos indicados em mulheres com risco de fratura muito alto que devem ser consideradas para tratamento sequencial, ou seja, um tratamento iniciado com um agente anabólico, seguido de um agente antirreabsortivo.

O mais importante para mim foi o desenvolvimento de orientações baseadas em algoritmos como o FRAX, com ou sem DEXA, que veio ajudar na escolha dos tratamentos mais adequados a cada caso individual com possibilidade de tratamento de forma sequencial. Assim, com a identificação adequada de mulheres de alto ou muito alto risco e com intervenção farmacológica adequada, uma proporção substancial de fraturas por fragilidade poderá ser evitada.

HN A duração da terapêutica deve ser ajustada em função de que parâmetros?

ARS – A duração da terapêutica deve ser ajustada em função da idade da mulher, tipo de tratamento e risco de fratura. O futuro passa por tratamentos “sequenciais” para manter o tratamento a longo prazo.

Em relação à terapêutica hormonal (TH) da menopausa, esta pode ser iniciada para a prevenção primária e tratamento da osteoporose em mulheres saudáveis pós-menopausa com sintomas vasomotores com idade inferior a 60 anos e menos de 10 anos após a menopausa, devendo ser usada a dose eficaz mais baixa. A determinação da duração do tratamento depende da idade da menopausa, e avaliação periódica do risco, não havendo evidência para recomendar um tempo limite para descontinuação se não houver nenhuma contraindicação de novo. O facto de o efeito protetor ósseo da TH diminuir após a sua descontinuação reforça a necessidade da continuação terapêutica. Medicamentos anti- reabsortivos alternativos (bifosfonatos) devem ser considerados após a interrupção da TH para manter a massa e a qualidade óssea. Estes pelos possíveis efeitos adversos com tratamentos de longa duração têm indicação para suspensão ao fim de três (ev) ou cinco anos (oral).

Nas mulheres com osteoporose em tratamento com denosumab, reavaliar o risco de fratura após cinco a 10. Após a reavaliação, as mulheres que ainda são de alto risco devem continuar o tratamento com denosumab ou tratamentos alternativos.

O tratamento com teriparatida deve ser usado nos casos de osteoporose com fraturas vertebrais graves ou fraturas múltiplas até dois anos.

Raloxifeno ou bazedoxifeno devem ser usados para reduzir o risco de fraturas vertebrais em mulheres com baixo risco de trombose venosa profunda e para as quais os bifosfonatos ou denosumab não são recomendados e também em mulheres de alto risco para cancro de mama, sem limite de uso.

HNRegra geral e relativamente aos bifosfonatos, em que circunstâncias deve ocorrer a pausa terapêutica e durante quanto tempo?

ARS – O conceito de pausa terapêutica apenas se aplica aos bisfosfonatos, que embora sejam seguros e bem tolerados, poderão ter efeitos secundários com os tratamentos de longa duração estando recomendada uma pausa ao fim de cinco anos de terapêutica oral e, ao fim de três anos de terapêutica endovenosa desde que tenham cumprido a medicação durante o período de tempo estabelecido;apresentem um T-score >-2,5;e não terem apresentado fraturas. Doentes que não tenham cumprido com estes critérios, podem continuar com a terapêutica por mais tempo, mesmo que ultrapassem os 5 anos recomendados. Há que avaliar sempre o risco/benefício para o doente.
Se cumprirem com os critérios apresentados acima, podem e devem fazer a pausa terapêutica/’drug holyday’ por um período de 2/3 anos.

HN– Quando deve ser reiniciado o tratamento?ARS – Deve ser feita uma avaliação periódica, com FRAX/DEXA ao fim de  dois a três anos após parar o tratamento com bifosfonatos para avaliar a necessidade de reiniciar. No caso de ocorrência de fratura, obriga de imediato a retomar a terapêutica com estes ou outros fármacos.

João Eurico Cabral da Fonseca: Novos biológicos e inibidores da sinalização intracelular poderão tratar mais doentes com artrite reumatoide

João Eurico Cabral da Fonseca: Novos biológicos e inibidores da sinalização intracelular poderão tratar mais doentes com artrite reumatoide

HealthNews (HN)- Comecemos pelo atual quadro da artrite reumatoide em Portugal.

João Eurico Cabral da Fonseca (JECF)- A artrite reumatoide é uma doença inflamatória crónica que afeta as articulações, e pode afetar outras partes do corpo. Quando não tratada apropriadamente, esta doença causa destruição das articulações e incapacidade. As pessoas ficam incapazes de trabalhar, incapazes de fazer normalmente a sua vida.

A doença é, neste momento, tratável. É preciso, no entanto, que todo o procedimento necessário para avaliar as características da doença seja feito adequadamente e, depois, que um tratamento apropriado para as características específicas do doente seja iniciado.

Cerca de 70 mil portugueses sofrem desta doença, e uma parte significativa mantém atividade da doença apesar da medicação. Ou seja, apesar de existirem medicamentos em grande quantidade e diversidade, continuamos a ter muitos doentes difíceis de tratar, que não respondem aos tratamentos vários que oferecemos. Por isso, continua a ser um problema a gestão da terapêutica adequada dos doentes com artrite reumatoide.

HN- Quais as principais dificuldades que estes doentes enfrentam?

JECF- Por um lado, o facto de existir um conjunto de doentes que continuam com atividade da doença e a progredir apesar dos medicamentos disponíveis. O outro problema que os doentes com artrite reumatoide enfrentam é o enquadramento social da doença. Estamos a falar de uma doença crónica, que acompanha o doente a vida toda, acabando por causar limitações várias na capacidade que o doente tem de trabalhar, nem que seja pelas consultas que tem de fazer, pelos exames, pelos períodos em que tem de estar exposto a terapêuticas hospitalares. Tudo isso tem repercussões na forma como a vida profissional se desenvolve, mas claro que, quando a doença corre menos bem, as repercussões tornam-se muito mais complexas: as pessoas não são capazes de trabalhar, não conseguem estar nos seus locais de trabalho o mesmo tempo que as outras, nem conseguem ter a mesma rentabilidade, e isso repercute-se no sucesso profissional e na remuneração. Tem de se ter mais cuidado com ao enquadramento social destes doentes crónicos.

HN- Várias terapêuticas têm vindo a melhorar o controlo da doença e a qualidade de vida dos doentes. Que inovações destacaria?

JECF- Começo por destacar, no final dos anos 90, a introdução dos medicamentos biológicos. Os biológicos revolucionaram completamente o tratamento dos doentes com artrite reumatoide, libertaram um conjunto de doentes que estavam muito mal, muito condicionados no seu dia a dia, e que melhoraram maravilhosamente. Mas, infelizmente, há doentes que não respondem aos biológicos.

A segunda revolução de inovação aconteceu no final da última década, com a introdução dos inibidores da sinalização intracelular. A classe terapêutica disponível é a dos inibidores da JAK. Esta classe permitiu um novo paradigma, porque, primeiro, foi capaz de tratar doentes que não estavam a responder bem à classe terapêutica dos biológicos, por exemplo por problemas de alergia, e permitiu, também, oferecer a possibilidade de terapêutica oral, facilitando muito a via de administração. Portanto, a introdução dos inibidores da JAK teve um ótimo impacto.

Apesar disso, continuamos a ter doentes que escapam a todas as terapêuticas disponíveis, pelo que continuamos a precisar de inovar. Mas a verdade é que estes pulos de conhecimento, que levaram a duas grandes revoluções – no final dos anos 90, a introdução dos medicamentos biológicos, e no final da primeira década deste milénio, a introdução dos inibidores da JAK –, são, de facto, momentos históricos.

HN- O que é que espera que seja desenvolvido nos próximos anos?

JECF- Vamos ter novidades de ambos os tipos de medicamentos. Vão aparecer novos biológicos, inibindo outras vias de inflamação que são relevantes na artrite reumatoide, nomeadamente relacionados com um tipo celular que são os macrófagos. Depois, vão aparecer outras vias de sinalização intracelular que também são relevantes nos mecanismos desta doença. Estas vão provavelmente apanhar doentes que não estavam a responder às terapêuticas existentes.

Essas são as expectativas principais: novos biológicos e novos inibidores da sinalização intracelular. Alguns inibidores serão também desta via JAK, outros serão de outras vias.

Entrevista de Rita Antunes

Rui Tato Marinho fala sobre hepatite aguda: “Está tudo sob controlo”

Rui Tato Marinho fala sobre hepatite aguda: “Está tudo sob controlo”

HealthNews (HN)- O último balanço da Direção-Geral da Saúde dá conta de oito casos suspeitos de hepatite aguda de etiologia desconhecida em crianças. Qual a leitura que faz do atual cenário?

Rui Tato Marinho (RTM)- O cenário atual ainda não é alarmante. Fomos confrontados com uma hepatite nova, de causa desconhecida, o que preocupa sempre os especialistas. Havia quem pensasse que o número de casos viria a aumentar muito, à semelhança do covid, mas a verdade é que não tem chegado sequer a um caso por dia. Portanto, o atual cenário dá-nos alguma confiança de que está tudo sob controlo e que as crianças recuperam bem.

HN- Consegue identificar algum paralelismo entre a forma como se está a encarar esta hepatite atípica e os primeiros casos de Covid-19?

RTM- É muito diferente, não tem nada a ver… É claro que com as notícias que são divulgadas e o aparecimento de casos, que vai aumentando, poder-se-ia pensar que iria existir um cenário parecido com o da Covid-19. Neste momento podemos afirmar que não tem nada a ver. Sabemos que os casos são muito poucos… Estamos a falar de 300 casos a nível mundial. No Reino Unido, o número de casos até está a diminuir e em Portugal apenas temos oito casos suspeitos e nenhuma criança faleceu. Nos primeiros meses da pandemia, sim, morreram muitas pessoas.

HN- Sendo ainda um número baixo, a verdade é que o número de casos suspeitos tem vindo a aumentar. A situação não o preocupa?

RTM- Penso que ainda não é uma situação de alarme. A task force está muito atenta à evolução do número de casos e tem partilhado informação com as autoridades internacionais. 

HN-A task force criada para acompanhar a situação começou desde o início desta semana a monitorizar diariamente a evolução da doença. O que poderemos esperar que aconteça nas próximas semanas?

RTM- Atendendo à situação atual, talvez seja esperado um aumento de casos suspeitos, mas não muito pronunciado. Não nos parece que esteja a haver uma explosão de casos, mesmo em países, como o Reino Unido, que foram os primeiros a relatar crianças com hepatite aguda de origem desconhecida.

A própria Organização Mundial da Saúde e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças (ECDC) garantem que não tão grave quanto se pensa.

HN- Os médicos estão a procurar evidências da doença em casos que remontam até outubro do ano passado. O que é que acha ser plausível encontrar?

RTM- Acho que se vão encontrar alguns casos que na altura passaram como uma simples hepatite aguda, mas que neste momento, visto com outros olhos, se pode chegar à conclusão que se tratava de uma hepatite de causa desconhecida. A ciência precisa de mais dados neste momento. 

É claro que as pessoas quando olham para os números começam a ficar assustadas, mas podemos afirmar que estamos perante uma doença rara. Segundo os critérios internacionais, os números relatados correspondem a uma patologia rara. 

HN- A média de idades dos doentes com este tipo de hepatite atípica é de três anos. O que está em causa?

RTM- As hepatites agudas de uma maneira geral não deixam sequelas. Há alguns casos em que esta doença evolui para crónica, mas este não parece ser o caso. Estas crianças têm recuperado ao fim de alguns dias, portanto não há razão para estarmos assustados.

HN- Gostaria de deixar alguma nota final?

RTM- Gostaria apenas de reforçar o papel da task force. É um grupo composto 13 especialistas de diversas áreas que tentam manter a situação sob controlo. 

Entrevista de Vaishaly Camões

Falta de recursos humanos é o grande desafio da Saúde em Portugal

Falta de recursos humanos é o grande desafio da Saúde em Portugal

“Um dos grandes desafios que identificámos tem a ver com os recursos humanos. A pandemia mostrou-nos os limites e até que ponto foram testados no país. Isto passa-se em todos os níveis do sistema, em todos os setores, nem se limita ao setor da saúde”, afirmou aos jornalistas Stella Chungong, diretora do departamento de Preparação Sanitária daquela agência das Nações Unidas, na sede do Infarmed, em Lisboa.

A responsável da OMS liderou uma equipa que esteve durante a semana a avaliar a preparação do sistema de saúde português para enfrentar situações de emergência como a covid-19 e defendeu que é preciso incentivos para manter os profissionais de saúde no Serviço Nacional de Saúde.

Pela Direção-Geral da Saúde, a diretora do Centro de Emergências em Saúde Pública, Paula Vasconcelos, afirmou que a análise “de olho externo” da OMS ilustrou como “as pessoas se dobraram para fazer o seu trabalho” durante a pandemia e “até que ponto cabe a Portugal repensar como reestruturar os seus serviços de saúde e recursos humanos”:

“A OMS apontou claramente que há que investir nos processos, nas tecnologias que os ajudam a ser mais rápidos e na melhoria da capacitação dos recursos humanos” para agir melhor em casos de futuras emergências, usando “os circuitos que Portugal tão bem improvisa durante as crises” e incorporando-os na forma de trabalhar.

“Estamos a pedir um diálogo interministerial que envolva a Saúde e a Educação para que se diga como melhorar os profissionais, mas também como convencê-los a ficar. Se não virem incentivos claros para que permaneçam, façam o seu trabalho e se sintam felizes, irão para outros sítios”, referiu Stella Chungong.

Stella Chungong disse que durante a pandemia, sobretudo as fases mais agudas, “as pessoas tiveram que fazer o seu trabalho normal, tiveram que fazer tarefas relacionadas com a covid-19, ir para casa e tratar de familiares doentes e voltar aos hospitais para enfrentar pessoas que estavam a morrer, isso foi muito ‘stressante'”.

“É importante incentivar o pessoal de saúde a ficar, mas também aumentar o número de profissionais”, reforçou, começando na formação que recebem nas universidades e outros níveis da educação a equipá-los com meios que os tornem “resilientes ao lidar com assuntos tão sérios como a pandemia, que testou a Humanidade, as famílias e a sociedade”, salientou.

Destacou como pontos fortes do sistema de saúde português “a universalidade” dos cuidados de saúde, que cumprem “políticas e obrigações internacionais” como o regulamento internacional de saúde.

Apontou também a “confiança das comunidades” na vacinação, que afirmou ter sido encorajada por se terem juntado “Governo, especialistas e cientistas para discutir publicamente” o estado da pandemia.

“Os meios de comunicação estavam lá, a fazer as perguntas certas, a pedir contas a todos e isso ajudou a construir confiança e levou as pessoas a irem vacinar-se”, referiu.

Stella Chungong saudou ainda o facto de imigrantes sem documentos e refugiados em Portugal poderem ter tido acesso aos cuidados de saúde de todos os portugueses durante a pandemia.

Observadores de França, São Tomé e Príncipe e Geórgia acompanharam a delegação da OMS que passou esta semana em Portugal e que irá fazer um relatório nacional da revisão da OMS que será apresentado na próxima Assembleia Mundial de Saúde, em Genebra, que se realiza entre 24 e 29 de maio.

LUSA/HN