Vítor Tedim Cruz: “Precisamos de um ‘exército’ bem organizado na luta diária contra o AVC”

Vítor Tedim Cruz: “Precisamos de um ‘exército’ bem organizado na luta diária contra o AVC”

HealthNews (HN)- O AVC é a principal causa de morte e incapacidade em Portugal. O que é que está a falhar no nosso país?

Vítor Tedim Cruz (VTC)- A redução da incidência de AVC na população é um dos objetivos mais difíceis de atingir. Os principais fatores de risco vascular modificáveis são muito frequentes e dependentes de estilos de vida – e.g.: hipertensão arterial (HTA), colesterol elevado, diabetes, tabagismo, obesidade, sedentarismo –, sendo que metade dos indivíduos, quando atingem os 50 anos de idade, já apresenta pelo menos três destes fatores.

Rever o controlo destes fatores, anualmente, com o médico de família, é um passo crucial. Um outro aspeto importante é garantir o acesso a prevenção secundária a todos os doentes identificados como de elevado risco vascular, muitas vezes depois de um evento como um AIT, AVC ou EAM, que motiva uma avaliação vascular mais extensa. Todas as oportunidades para reduzir o risco individual e coletivo são cruciais nesta luta permanente contra o AVC.

Relativamente ao tratamento agudo, importa garantir o acesso a estes cuidados de forma homogénea em todo o país. Existem grandes áreas do país onde os serviços estão bem organizados e onde existem bons indicadores de qualidade de acesso a tratamento de fase aguda. No entanto, é importante replicar os bons resultados de organização e qualidade em todo o território, nomeadamente nas regiões interiores, sul e ilhas.

No âmbito da reabilitação, o problema é de uma dimensão maior e mais complexa, pois é necessário garantir e manter serviços de qualidade por longos períodos de tempo após um AVC. Esta área carece de maior atenção, recursos e, eventualmente, reorganização dos recursos disponíveis. O nosso objetivo é devolver as pessoas íntegras à sociedade.

Assim, e em resumo, garantir o acesso da população a prevenção primária e secundária e a qualidade do tratamento agudo são o caminho a seguir para reduzir a incidência e aumentar a sobrevivência sem sequelas.

HN- Quais são os grandes desafios a resolver a curto/médio prazo nos quais a Sociedade Portuguesa do Acidente Vascular Cerebral poderá intervir?

VTC- Continuar a apostar na sensibilização da população ao longo de todo o ano, com a promoção de atividades locais, nacionais e mesmo internacionais, no sentido de repetir as mensagens fundamentais para a deteção e ação rápida (e acertada) perante um AVC. Qualquer pessoa deveria conhecer os sinais de alerta do AVC, os 3 F – alteração na fala, alteração na face (os doentes identificam uma boca ao lado) e perda de força num dos membros do corpo –, e saber que, na presença de um destes sinais, deve ligar-se de imediato para o 112 para ativar a Via Verde do AVC. Esta é uma ‘autoestrada’ para que, no meio da confusão que são os serviços de emergência, as pessoas possam rapidamente ter acesso ao tratamento. O cérebro é um órgão muito delicado e, ao contrário de outros, não aguenta muito tempo sem circulação. As primeiras horas são determinantes. É por isso que a SPAVC insiste na mensagem de que “tempo é cérebro”.

Estas ações de sensibilização constituem atividades presenciais, como palestras, rastreios, sessões de atividade física, entre outras, habitualmente organizadas a propósito de datas ligadas à patologia: Dia Nacional do Doente com AVC (31 de março) e Dia Mundial do AVC (29 de outubro); mas também ações digitais em permanência, quer através das redes sociais da SPAVC, quer na associação a campanhas com componente online (como é o caso da campanha global “Fast Heroes”, dirigida às crianças e jovens).

Neste ponto, a comunicação social cumpre um papel fundamental e insubstituível de fazer chegar à população (espetadores, leitores, ouvintes) mensagens de prevenção e tratamento atempado.

Paralelamente, a SPAVC pretende intervir também, a curto/médio prazo, na área da investigação, promovendo estudos (já em curso, através de grupos de trabalhos constituídos) para conhecer melhor a realidade dos hospitais que tratam AVC em Portugal, bem como caracterizar os doentes, para, assim, poder agir em conformidade com os resultados e principais desafios identificados.

Estes dados permitirão, também, que a SPAVC possa ter um papel mais ativo junto da tutela, com planos delineados a partir dos achados à escala nacional.

HN- Desde 2005, quais foram as maiores conquistas da SPAVC?

VTC- As principais conquistas não são da SPAVC, são da população portuguesa. É para a população que trabalhamos.

Nos dias de hoje e face a 2005, o AVC é menos negligenciado, quer pela população, quer pelos profissionais, instituições de saúde e SNS.

Salientaria dois aspetos essenciais: todos os hospitais que realizam trombólise têm uma Unidade de AVC ou estão muito próximo disso e sabem como se articular para garantir o acesso a tratamento endovascular na fase aguda do AVC, disponível nos centros de maior dimensão nacional; o INEM tem o AVC como prioridade e desempenha um papel crucial no pré-hospitalar para garantir que o doente com AVC chega ao local certo, na hora certa e com a informação certa.

Salientaria duas áreas de atenção máxima para onde devemos dirigir recursos: prevenção primária e secundária; reabilitação da fase aguda e das sequelas.

Nestas duas áreas, temos profissionais da melhor qualidade, mas é necessária maior atenção para garantir as devidas condições e meios de trabalho, de modo a conseguir responder à população em tempo útil e com qualidade.

HN- O que nos pode dizer sobre o 17.º Congresso Português do AVC?

VTC- O 17.º Congresso Português do AVC acontece entre os dias 2 a 4 de fevereiro de 2023, no Hotel Sheraton Porto. Este congresso representa o retomar do formato presencial, após dois anos em modelo 100% virtual, devido à pandemia Covid-19. No entanto, mantendo a internacionalização e facilidade de acesso que as edições anteriores, em formato 100% virtual, vieram acrescentar, a SPAVC mantém a opção de participação virtual para todos os não-residentes em Portugal Continental, com especial enfoque no Brasil e nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), que têm demonstrado grande interesse em acompanhar os nossos congressos e não queremos que fiquem de fora.

O evento anual da Sociedade Portuguesa do AVC conta novamente com a participação de especialistas de referência em diversas áreas de interesse, quer do panorama nacional, quer além-fronteiras, incluindo 11 palestrantes estrangeiros já confirmados. A aposta da SPAVC em integrar convidados internacionais no seu congresso anual tem-se mantido uma constante, por considerarmos que a troca de experiências multiculturais e a partilha de exemplos muito distintos podem ajudar a reinventar a realidade nacional.

A variedade de temas incluídos este ano, na tentativa de percorrer as áreas da prevenção primária e secundária, do tratamento agudo e da reabilitação, mas também outros temas de reflexão e de grande atualidade, como a sustentabilidade na saúde ou a saúde mental, tornam este congresso verdadeiramente multidisciplinar e aberto a todos os que querem aprender e deixar o seu contributo.

A SPAVC disponibiliza ainda seis cursos formativos pré e pós-congresso, com públicos-alvo diferentes, em temáticas específicas como “Enfermagem Neurovascular”, “Técnicas ultrassonográficas para guiar decisões terapêuticas na Unidade de AVC”, “Como comunicar no pós-AVC com o doente que não consegue falar”, “Genética e AVC”, “A Via Verde do AVC em 9 perguntas” e “Metodologias MIND”. Este é o primeiro ano em que o congresso acolhe este número tão expressivo de cursos, despoletados por necessidades identificadas em anos anteriores, “o que demonstra o interesse dos profissionais de saúde em formação cada vez mais especializada como complemento ou aprofundamento das suas valências e/ou áreas de intervenção”.

Todas as informações sobre o programa, os intervenientes, os cursos, entre outras, podem ser consultadas no website da SPAVC.

HN- Para terminar, que mensagem gostaria de deixar aos sócios e aos nossos profissionais de saúde?

VTC- Precisamos de todos os profissionais de saúde neste combate ao AVC. A abordagem desta doença é verdadeiramente multidisciplinar: a Medicina Geral e Familiar é absolutamente fulcral na prevenção primária; na fase aguda, necessitamos da Neurologia, Medicina Interna, Neurorradiologia de Intervenção, Enfermagem, Cardiologia; na reabilitação, que começa na fase aguda, necessitamos de equipas de reabilitação completas e articuladas, incluindo a Fisiatria e também todas as intervenções como fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional, nutrição, psicologia, entre muitos outros.

A formação é muito importante e a aproximação entre pares cumpre um papel importante nesta interdisciplinaridade exigida.

Juntem-se a nós neste debate. Precisamos de um “exército” bem organizado na luta diária contra o AVC.

Entrevista de Rita Antunes

UNICEF: “Ainda não fizemos o suficiente pelas crianças” com VIH

UNICEF: “Ainda não fizemos o suficiente pelas crianças” com VIH

HealthNews (HN)- “Ano após ano (…), a mesma história de crianças e adolescentes deixados para trás na resposta global ao VIH”, constata o relatório global da UNICEF, divulgado em novembro de 2022. Catherine Russell, diretora executiva, comentou que “estamos a falhar a próxima geração”. Mas o relatório não ignora o progresso e também mostra que há esperança. Devemos ver o copo meio cheio ou meio vazio?

Shaffiq Essajee (SE)- Eu sou pediatra e vi a mudança acontecer diante dos meus olhos; por isso, não posso negar que fizemos progressos. Quando comecei a trabalhar no VIH, em Nova Iorque, há muitos anos, estávamos a perder meia dúzia de crianças por mês para o VIH. As suas mortes eram dolorosas e na UCI.

As coisas mudaram drasticamente desde então. Temos a medicação disponível, em formulações cada vez melhores, mais opções para crianças, melhores formas de identificar as crianças do que nunca e, para mim, uma das conquistas mais notáveis da saúde pública em geral nas últimas décadas é a maneira como conseguimos prevenir a transmissão do VIH de mães para filhos. A redução do número de novas infeções nas crianças é incrível e não teria sido possível imaginar tal futuro há 20 anos. Portanto, houve definitivamente progresso.

O que eu acho que nos preocupa é que as pessoas pensam que o trabalho está concluído. Não se ouve falar muito sobre a SIDA em África, sobre a SIDA em geral. Acho que, em toda a parte, há uma espécie de aceitação de que é um problema de outra década, de que nesta década temos outras pandemias com que lidar, temos problemas maiores, há uma crise global, há fome e as crianças estão desnutridas e a morrer por desnutrição e doença evitável.

É nesse contexto que, às vezes, embora o copo possa estar meio cheio, não sei como iremos enchê-lo até ao topo. Temos motivos para celebrar, mas, ao mesmo tempo, preocupa-me muito que cheguemos ao final de 2030, fim dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, onde assumimos um compromisso global para acabar com a SIDA, e não estejamos lá para as crianças. Essa é a nossa verdadeira preocupação.

HN- Porque é que as crianças e os adolescentes estão a ser deixados para trás?

SE- Acho que parte do motivo é a história. Sempre foi mais difícil diagnosticar crianças, mais complicado tratá-las, havia menos dados sobre como os medicamentos funcionariam em crianças e se teriam maior toxicidade. Penso que, nos primeiros anos da epidemia, não entendíamos o suficiente sobre crianças, estávamos a sobremedicar e a ver muitos efeitos colaterais inaceitáveis. Podemos prevenir a infeção facilmente tratando as mães grávidas e garantindo que estas continuam em tratamento enquanto amamentam, para que o possam fazer em segurança. Mas a realidade é que continuámos hesitantes em tratar as crianças.

Bem, isso mudou. Se formos aos países mais afetados na África Subsaariana e África Austral, vemos que as crianças estão a ser diagnosticadas, estão a ser tratadas e que as suas taxas de cobertura são quase tão boas quanto as dos adultos. Mas não é o caso em muitas outras partes do mundo. Se olharmos para a África Central e Ocidental, por exemplo, vemos que as crianças, definitivamente, estão numa situação difícil. Aquelas crianças continuam a morrer com taxas inaceitavelmente altas, ainda não estão a aceder ao tratamento que deveriam ter. Por isso, para mim, o principal problema não é não sabermos o que fazer enquanto comunidade global, mas sim que não tenhamos assumido o compromisso, em todas as partes do mundo, de realmente enfrentar o desafio de tratar as crianças, apesar das dificuldades para usar estas novas ferramentas que temos disponíveis, e fazer a diferença na vida delas.

Acho que ainda existe esta ideia de que as crianças não infetam outras pessoas. Elas não podem transmitir o vírus aos outros porque, se o contraírem durante a infância, na idade adulta, provavelmente não estarão vivas. Num mundo que está agora muito focado em controlar a epidemia e prevenir novas infeções entre adultos, isso coloca as crianças numa categoria de prioridade inferior. Quer-se tratar os adultos que podem infetar outros adultos por meio da atividade sexual, de forma a evitar o próximo ciclo de infeções. Mas, para as crianças, elas não vão transmitir; então, os benefícios de tratá-las são realmente proteger a sua própria saúde e bem-estar.

As mulheres dizerem: “Obrigada, eu tenho tratamento agora, mas e o meu filho? É extremamente doloroso para mim ver o meu filho sofrer sem acesso a tratamento, quando eu tomo os remédios que me podem manter saudável”, essa voz tem faltado em muitas partes do mundo. Por causa disso, ainda não vimos o ímpeto político necessário para garantir que os casos pediátricos são priorizados no tratamento.

Portanto, costumava ser porque não tínhamos os medicamentos ou porque não podíamos testá-los bem. Agora temos todas essas coisas e o principal problema que sinto é a vontade política, uma determinação do governo nacional para dizer: “não, isto é inaceitável, temos que providenciar aos nossos médicos e enfermeiros as ferramentas de que precisam, temos que garantir que eles percebem o quão crítico isso é como prioridade”. Esse passo está a faltar em muitas partes do mundo. É por isso que continuamos a ver mais de cem mil crianças e adolescentes a morrer de SIDA todos os anos e mais de 300.000 novas infeções.

HN- O relatório afirma que “temos as ferramentas e abordagens de que precisamos para igualar os resultados do VIH para crianças e adolescentes e acabar com a SIDA nessa população de uma vez por todas”. Qual é a maior ferramenta da UNICEF? E qual a maior barreira?

SE- Em primeiro lugar, não são ferramentas da UNICEF. No início da epidemia, eram as organizações ocidentais como a ACT UP que lutavam pelo acesso ao tratamento, por medicamentos melhores. Pressionavam as autoridades reguladoras e os governos para garantir que esses medicamentos estavam disponíveis, gratuitamente, independentemente da capacidade de um cliente pagar por eles. Essa defesa foi absolutamente crítica e não poderia ter acontecido sem um movimento global. São sucessos partilhados, não apenas da UNICEF. Nós celebramos o trabalho dessa comunidade global.

Agora, temos medicamentos melhores do que nunca. Os medicamentos que temos hoje são mais seguros, são melhor tolerados, são uma vez ao dia. Anteriormente, as crianças precisavam de tomar medicamentos várias vezes ao dia, em horários diferentes – alguns medicamentos seriam duas vezes, outros seriam três vezes ao dia. Toda essa complexidade desapareceu. Agora, podemos dar à criança um comprimido, uma vez ao dia, numa formulação que é muito fácil para uma criança usar, para uma mãe dar ao filho. E é realmente mais eficaz, mais barato e melhor tolerado do que qualquer outro dos medicamentos que costumávamos ter.

O diagnóstico também é mais fácil. A COVID ensinou-nos que podemos testar-nos a nós mesmos e usar essa informação para tomar decisões sobre a nossa saúde e a nossa família. É, de certo modo, uma maneira revolucionária de pensar, mas nós temos essas ferramentas no VIH há muitos anos. Os testes rápidos de VIH têm sido capazes de diagnosticar a infeção com um grau de sensibilidade muito alto, em quinze minutos, e, embora tenha sido realizado em unidades de saúde, nos últimos anos vimos o mesmo teste ser fornecido aos próprios indivíduos, dizendo-lhes: “Façam o teste em casa, aqui está a embalagem, podem seguir as instruções e obter o resultado em casa”.

As crianças sempre foram muito mais difíceis de diagnosticar, especialmente as mais pequenas, porque qualquer criança nascida de uma mãe com VIH terá os anticorpos no seu sangue. Isso não significa que elas tenham o vírus, elas apenas têm os anticorpos. E o teste que usamos deteta os anticorpos. Então, todas as crianças nascidas de uma mãe com VIH terão anticorpos, vão testar positivo para o VIH, mas isso não quer dizer que realmente tenham a infeção. Detetar o próprio vírus costumava ser um teste muito complicado. Não estava amplamente disponível, especialmente em África, onde a necessidade era maior. Mas agora temos o que chamamos de point of care tests. São testes capazes de detetar a presença do vírus de forma muito confiável e simples. O equipamento não precisa de laboratório. Faz-se o teste e em 14 minutos obtém-se o resultado, se há vírus naquela amostra ou não. São inovações notáveis.

Também temos ferramentas de prevenção incríveis. Temos medicamentos que, se tomados diariamente, têm uma eficácia muito alta na prevenção da infeção pelo VIH – agora até disponíveis como injeção mensal. Pode-se receber uma injeção todos os meses que irá praticamente garantir que, independentemente da vida sexual, não se contrairá o VIH.

E os sistemas de saúde também são mais fortes. Os sistemas mudaram, os medicamentos são melhores, os testes são melhores, as tecnologias de prevenção estão amplamente aprimoradas, e estes ganhos foram alcançados por meio de um tremendo trabalho conjunto como comunidade global. Também temos isso. Temos o poder de uma comunidade global a trabalhar no VIH, a trabalhar para prevenir o VIH, de mãos dadas com as pessoas que vivem com VIH, com comunidades a viver com VIH. Estas são algumas das ferramentas. Ferramentas é uma palavra estranha, mas são realmente algumas das mudanças notáveis que tornaram o tratamento, a prevenção, o diagnóstico e os cuidados de que as pessoas precisam para levar uma vida saudável com VIH muito mais fáceis.

E qual é o nosso maior desafio? Eu já falei da vontade política, mas acho que também é um desafio monetário. Os medicamentos, embora sejam muito mais baratos do que já foram, continuam caros. Se pensarmos no orçamento nacional disponível para gastar em saúde per capita, na maioria dos países, esse orçamento está na faixa dos 5 a 10 dólares por indivíduo por ano – é o que eles têm para gastar em saúde pública por pessoa. Um medicamento para o VIH, por um ano, custa entre 50 e 70 dólares, dependendo do tipo de medicamento e de quanto se precisa. Portanto, há uma grande diferença entre o que os países podem pagar e o custo real para aquele indivíduo que precisa de tratamento. Tem sido possível durante todos estes anos porque doadores de grandes organizações multilaterais, doadores de organizações bilaterais e o Governo dos EUA financiam programas de VIH todos os anos.

O Fundo Global, que se reabastece anualmente com contribuições dos países, este ano [2022] conseguiu angariar mais 15 mil milhões de dólares para a resposta global à SIDA, TB (tuberculose) e malária. Estas instituições têm sido fundamentais no apoio à resposta global. Tem sido cada vez mais difícil para o Fundo Global reabastecer os seus recursos, e o Governo dos EUA, embora continue a dar apoio que vem dando… o valor gasto anualmente não mudou nos últimos cinco anos. Portanto, numa situação em que o dinheiro é limitado, os países estão a focar-se nas coisas que lhes darão mais valor: prevenir o VIH; assegurar que os adultos sexualmente ativos são tratados para garantir que não transmitem o VIH a outras pessoas.

Eu diria que o nosso maior desafio continua a ser o compromisso político de dizer que as crianças são igualmente importantes. Precisamos de garantir que direcionamos alguns fundos para os problemas das crianças.

HN- Quais são os problemas mais urgentes?

SE- Como pediatra, olho para a proporção de crianças com VIH em tratamento e é pouco mais de 50%. Isso significa que estimamos que existam 800.000 crianças com VIH e 400.000 adolescentes com VIH que não estão em tratamento. Então, para mim, é prioritário, em primeiro lugar, encontrar essas crianças, encontrar esses adolescentes e fornecer-lhes o melhor tratamento disponível. Porque nós sabemos que sem esse tratamento eles vão morrer.

O VIH é muito mais agressivo em crianças do que em adultos. Nem sempre é o caso e há diferenças consoante o tipo de vírus que se pode apanhar, que pode torná-lo mais agressivo num indivíduo, mas as crianças têm um sistema imunológico em crescimento, não são tão boas a defender-se contra o VIH, especialmente se o contraírem durante a gravidez ou na altura do parto. Se se apanhar VIH cedo, a probabilidade de morte sem tratamento é de 50% no segundo ano de vida. Quando se chega aos cinco anos, é de 80%. Se não se identificar essas crianças, elas morrem, e morrem de coisas comuns na infância. Elas podem apanhar tuberculose e morrer de tuberculose, podem apanhar uma infeção bacteriana grave, meningite, sepse… Podem estar gravemente desnutridas porque estão a usar toda a energia dos alimentos para combater o VIH e não têm a oportunidade de crescer e de se desenvolverem como deveriam; então morrem de desnutrição.

Muitas vezes, essas mortes nem são contadas como mortes por VIH – são ocultadas. A epidemia de VIH está escondida nessa mortalidade causada por outras condições. Acho que essa é provavelmente a maior prioridade: temos que descobrir novas maneiras de identificar essas crianças; temos que colocar essas crianças em tratamento o mais rapidamente possível. Mas o desafio não é apenas uma questão médica. Se fores a muitas partes da África Subsaariana, ainda encontras taxas muito altas de estigma e discriminação. As mães podem ter VIH e estar em tratamento, mas terem medo de levar os filhos a fazer o teste, ainda que estejam preocupadas. Elas temem que, uma vez conhecido o diagnóstico da criança, toda a família descubra, elas mesmas terão que revelar a sua identidade e o seu diagnóstico a outros membros da família, como é que essa criança apanhou VIH. As famílias têm tanto medo do estigma que, na verdade, isso impede-as de procurar cuidados para si e para os seus filhos. Acho que, além de fazer todo o trabalho médico, temos que enfrentar estes problemas de estigma e discriminação. Não são barreiras médicas, são barreiras sociais estruturais, de certa forma muito mais difíceis de enfrentar.

Podes desenvolver novos medicamentos, podes descobrir novas tecnologias para testes, mas não podes mudar o coração e a mente das pessoas com um comprimido ou com um teste. Isso requer um movimento social, requer governos que se levantem e digam que a lei proíbe qualquer tipo de discriminação. Exige que a sociedade civil diga que não podes expulsar uma mulher de casa porque ela te diz que tem VIH, que isso é crime. E acho que algumas dessas barreiras legais, estruturais e sociais são de certa forma as mais urgentes. Não temos pensado o suficiente nisso e focamo-nos nas coisas mais fáceis. Mas, se não abordarmos algumas dessas questões estruturais subjacentes, acho que não faremos o melhor uso das ferramentas que temos disponíveis.

HN- Para este Dia Mundial da SIDA, porquê “Equalize” como tema principal?

SE- O tema foi definido pela UNAIDS, o programa conjunto da ONU. De certa forma, só precisas de igualar algo se tiver havido progresso para um grupo ou numa área do mundo e falta de progresso para outro grupo e noutra área do mundo. É porque fomos bem-sucedidos que vemos essa desigualdade. É porque 76% dos adultos estão a receber tratamento que 52% em crianças parece incrivelmente baixo. Então, acho que o que equalize nos diz é que nós conseguimos, nós fizemo-lo para os adultos.

No Botswana, 95% dos adultos com VIH têm conhecimento do seu diagnóstico, 95% daqueles que foram diagnosticados estão em tratamento e 95% daqueles que estão em tratamento têm o vírus completamente suprimido e indetetável. Tem das taxas mais altas do mundo (20%/30% da população vive com VIH). Eles foram capazes de fazer isso para as suas populações adultas. Acho que o que queremos dizer com isto é que vimos essas concretizações notáveis, que antes eram inimagináveis, a acontecer em alguns dos países mais pobres do mundo, mas há pessoas que estão a ser deixadas para trás nessa resposta e precisamos de igualar a resposta para elas.

HN- Que mais pode a UNICEF fazer?

SE- Há coisas que a UNICEF faz bem e que devemos fazer continuamente. Em primeiro lugar está a defesa. Deveríamos ter mais entrevistas como esta, deveríamos estar em plataformas globais a falar sobre este assunto – e nós fazemos isso. Alertamos constantemente. É por isso que o comentário sobre o copo meio cheio vs meio vazio me fez sorrir, porque eu sinto que se nós enquanto UNICEF dissermos que estamos a ir muito bem, estamos a fazer um desserviço a essas crianças. Temos que continuar a alertar, temos que continuar a relembrar que existem 8,2 milhões de crianças e adolescentes não diagnosticados e não tratados que vão morrer de VIH se não os encontrarmos e tratarmos.

Temos que continuar a pressionar os governos, temos que continuar a pressionar os doadores, porque sem esse investimento estas crianças vão morrer. Com esse investimento, vimos crianças a ter uma vida saudável, a crescer na adolescência e, na idade adulta, a ter as suas próprias famílias.

O que antes era um diagnóstico mortal pode agora ser transformado numa vida normal, podendo-se ambicionar criar a própria família, ter um emprego seguro, receber educação e ter uma vida normal, que exigirá sempre tratamento para controlar o VIH.

Acho que a maior coisa que podemos fazer enquanto UNICEF é defender e garantir que as pessoas não esquecem que, apesar do sucesso, ainda não fizemos o suficiente pelas crianças.

Entrevista de Rita Antunes, dezembro de 2022

Daniela Macedo: “A dificuldade no acesso aos cuidados de saúde cria ansiedade e medo nos doentes oncológicos”

Daniela Macedo: “A dificuldade no acesso aos cuidados de saúde cria ansiedade e medo nos doentes oncológicos”

HealthNews (HN)- Quais os cancros mais prevalentes a nível nacional?

Daniela Macedo (DM)- Em termos de padrão de incidência o cancro da mama, o cancro da próstata, o cancro do pulmão, o cancro colorretal e os tumores gástricos são os mais comuns a nível nacional. 

HN- Como se vivem estas doenças em Portugal? Como é ser um doente oncológico em Portugal?

DM- Em Portugal todos os doentes têm acesso àquilo que de melhor se faz no tratamento da doença. Apesar de apresentarmos algumas vicissitudes, em termos de demora dos circuitos inerentes à realização de exames de diagnóstico, a verdade é que estamos perfeitamente alinhados com o resto do mundo. Em Portugal, seguimos todas as recomendações das autoridades de saúde europeias e americanas. 

HN- Atualmente assistimos a uma crise nos cuidados de saúde primários, com falta de médicos de família. Que impacto é que isto tem nos doentes oncológicos?

DM- Infelizmente o nosso sistema de saúde apresenta algumas falhas a nível de acesso aos cuidados de saúde primários. Isto limita desde logo o diagnóstico precoce da doença oncológica… Quando os doentes não têm médico de família estes acabam por atrasar os seus check-ups regulados, subcarregando os serviços de urgência hospitalar. Muitos doentes quando se dirigem aos hospitais é quando já estão em desespero e quando não toleram mais os sintomas. Nestes casos, a doença já está numa fase mais avançada. 

HN- Estes constrangimentos criam, portanto, alguma ansiedade nos doentes…

DM- Sim. A dificuldade no acesso aos cuidados de saúde cria ansiedade e medos nos doentes oncológicos. Imaginemos uma pessoa que saiba que a ecografia que fez ao fígado aponta para nódulos suspeitos de serem metástases e que tem de esperar para fazer uma série de exames (endoscopia, colonoscopia, TAC, biopsia) para confirmar o diagnóstico… Tudo isto cria muita ansiedade. Os doentes querem conhecer a sua situação clínica e serem rapidamente tratados. 

HN- Há humanização no tratamento da doença oncológica? 

DM- Eu acredito que sim. Falo por mim, mas também pelos meus colegas de oncologia… Nós temos sempre algum cuidado na forma como abordamos e comunicamos com os nossos doentes. Vejo essa preocupação até nos próprios internos. Os colegas mais novos tentam ter uma relação próxima com os pacientes.

HN- Precisamente sobre a comunicação médico-doente…Há assuntos que ainda são pouco abordados nas consultas, nomeadamente o impacto da doença na sexualidade. Porquê?

DM- Penso que se trata de uma questão cultural. Não é um assunto que o doente oncológico costume abordar com o médico. Apesar de ter havido uma evolução na relação médico-doente – todo o procedimento de tratamento é muito mais discutido – há temas que mesmo assim continuam a ser um tabu. 

Eu própria nas minhas consultas, quando abordo a questão da fertilidade e questiono os meus doentes sobre se pretendem ser pais ou fazer algum tipo de preservação de gametas, verifico que muitas vezes os próprios ainda nem refletiram sobre o tema. Portanto, penso que estas questões não devem partir unicamente do profissional de saúde, mas também do próprio doente.

HN- Mas admite que a sexualidade deveria ser um assunto mais abordado nas consultas…

DM- Sim até porque as próprias terapêuticas têm implicações na fertilidade, na própria ejaculação e no atingir do orgasmo. Portanto, deve ser um assunto falado de forma habitual entre o médico e o doente. 

Penso que também faria sentido haver colegas da área da ginecologia e da urologia a colaborar connosco de maneira a melhorar a vida íntima dos doentes.

HN- A ciência diz-nos que 25% da população portuguesa corre o risco de ter cancro até aos 75 anos e 10% desses casos devem ser fatais. Que medidas devem ser adotadas para travar a incidência deste tipo de doenças?

DM- Garantir um estilo de vida e uma alimentação saudável é fundamental. As pessoas devem praticar exercício físico e evitar o sedentarismo, assim como os hábitos tabágicos e alcoólicos. São medidas que podemos melhorar e que representam fatores de risco para alguns tipos de tumores. 

Por outro lado, é importante que as pessoas sejam vigilantes da sua saúde e sigam as indicações das autoridades de saúde. Por exemplo, no caso das senhoras estas devem fazer o rastreio do cancro da mama e do colo do útero.

HN- Portugal gasta pouco nos cuidados oncológicos. Considera que há falta de vontade política no que toca à prevenção da doença?

DM- Acho que o problema é mais de fundo… A saúde em Portugal tem alguns défices. Até agora não houve uma atualização do sistema nacional de saúde. Acho que ainda está tudo a funcionar à moda do início. É preciso ter em conta que hoje em dia os doentes têm múltiplas doenças. Isto aumenta a complexidade do tratamento e implica um gasto maior dos recursos de saúde. Se há ou não falta de vontade política? Não sei. Penso que talvez no passado não se tenha aplicado da melhor maneira os recursos e agora estamos a pagar as consequências. Portanto, não considero que seja só falta de vontade política. Penso que houve uma série de fatores que, ao longo dos anos, levaram a que os recursos fossem aplicados noutros setores. 

Acredito que os nossos decisores políticos querem continuar a ter um bom sistema de saúde. É muito importante que assim seja porque temos uma população muito envelhecida e não podemos ignorar que o cancro é a segunda causa de morte.

HN- O risco aumenta na população mais idosa. Pode-se dizer que o cancro é uma doença associada ao envelhecimento?

DM- Sim. A idade acaba por ser um dos fatores de risco para o desenvolvimento do cancro.

HN- Que mensagem gostaria de deixar no âmbito do Dia Mundial da Luta Contra o Cancro?

DM- As doenças oncológicas são patologias graves, mas graças à ciência tem havido uma forte evolução em termos de tratamentos. Felizmente em Portugal temos conseguido acompanhar as inovações que são feitas, mas é preciso um maior esforço no diagnóstico precoce. Por outro lado, considero que os serviços de oncologia deveriam trabalhar mais em equipa com outras especialidades para dar um maior apoio aos doentes a nível da sexualidade, nutrição, psicologia e fisioterapia. 

Entrevista de Vaishaly Camões

André Biscaia: “A solução para as urgências passa por cobrir todo o país com USF modelo B”

André Biscaia: “A solução para as urgências passa por cobrir todo o país com USF modelo B”

HealthNews (HN) – Como explica esta “antecipação”?

André Biscaia (AB) – Penso que é porque ainda não estamos no dia 31 de janeiro. Acho que estão a aguardar para posteriormente anunciar o tipo de modelo.

HN – Mais 28 Modelos B. É o bastante?

AB – A principal crítica que vejo a esta reforma que se iniciou em 2005 é o tempo que levou a conseguir generalizar o modelo B. Se não se tivesse imposto quotas penso que já teríamos 90% da população coberta por USF. 

HN – Significa que com mais unidades modelo B seria possível alargar o número de utentes com médico de família?

AB – Sim. Trata-se de um objetivo fazível. E fazível até ao final deste ano. É claro que o grande problema que se coloca aqui são as instalações. Tirando isso, este objetivo é perfeitamente tangível. Temos médicos de família, enfermeiros e secretários clínicos suficientes no mercado. 

Temos que criar um esquema de incentivos de atração e retenção que não carreguem problemas em si próprios. Por exemplo, o facto de se ter associado incentivos de fixação às UCSP leva a que recém-especialistas não queiram evoluir para uma USF porque perdem um incentivo importante. Portanto, os incentivos têm que ser pensados conforme os objetivos de funcionamento do sistema de saúde. 

HN – Mas se se tratasse de uma passagem para modelo B isso deixaria de ser um problema. Ou não? Não faltariam interessados, mesmo que perdendo os tais incentivos de fixação.

AB – Sim. Aquilo que nos propomos, e penso que está previsto, é que se passe diretamente de UCSP para USF modelo B. 

HN – Como é que isso é possível? A lei diz expressamente que têm que cumprir as regras do decreto de lei, designadamente: “O processo específico de avaliação tem de se encontrar completo e as unidades têm de cumprir os requisitos estabelecidos no Despacho n.º 24101/2007, de 8 de outubro, publicado no Diário da República, 2.ª série”.

AB – É possível e foi o que aconteceu no início. No princípio da reforma houve algumas passagens, depois houve um momento de maturação mas, por exemplo, as unidades que estavam em Regime Remuneratório Experimental entraram logo. Não me lembro exatamente de como se processou a questão da retribuição, mas esta foi rapidamente para modelo B. Portanto, é algo que é possível e penso que é o que está planeado. Em suma, passava-se diretamente de UCSP para USF modelo B. Até poderia ser feito num período experimental de três anos. 

HN – Por que três anos?

AB – Porque há indicadores que são a três anos. Portanto, se se conseguisse provar resultados positivos, estas unidades mantinham-se, caso contrário poderiam regredir para o modelo A. 

Um salário em regime remuneratório de modelo B já permite, em regiões como Lisboa e Vale do Tejo e o Algarve, pagar o arrendamento de uma casa ou mesmo um crédito à habitação. Portanto, era um incentivo que, de certa maneira, potenciava aquilo que se pretende do sistema – que é cobrir o país de Unidades de Saúde Familiar. 

HN – Existe alguma ideia do que é que se pretende alterar no modelo B?

AB – A USF-AN ainda não foi recebida pelo atual ministro da Saúde. Já fomos recebidos pela Direção-Executiva do SNS para apresentar projetos e ideias, mas ainda não se discutiu em concreto as alterações ao modelo B. De qualquer maneira, a USF-AN fez as suas propostas. Algumas delas têm vindo a ser acatadas, como foi o caso da passagem de UCSP para USF modelo B. É uma medida que poderá fazer sentido nesta fase e que poderá ser capaz de atrair de forma imediata os profissionais. 

HN – O problema é que a passagem de modelo A para B pode levar muitos anos… 

AB – A média é mais ou menos de oito ou nove anos, sendo que há unidades que chegam a esperar 14 anos. Isto faz com que muitos desistam, ao mesmo tempo que dá a ideia de que nem vale sequer a pena candidatar-se. 

Aquilo que vimos no ano passado foi que quando se passaram ao modelo B aquelas que aguardavam, houve uma avalanche de candidaturas. Neste momento há mais de uma centena de candidaturas entre A e B. 

HN – Não considera que a diferença de salário entre o modelo B e os outros modelos é excessivo, tendo em conta que um médico que esteja no topo da carreira com 35 horas de exclusividade, em modelo B, recebe por mês 7.278,49 euros. É mais do que aquilo que o Presidente da República ganha.

AB – Esse valor é o teto máximo. 

HN – Mas é um ordenado que se tudo for cumprido é possível alcançar…

AB – Sim, mas 40% deste valor está dependente da carga de trabalho e do atingimento de objetivos de qualidade que podem não ser atingidos. 

HN – Tampouco deixaram de ser pagos por não serem atingidos objetivos.

AB – Aquilo que nunca se diz é que estes profissionais de saúde podem ganhar menos. Ou seja, se falhar tudo ganha-se menos do que as pessoas que estão em USF modelo A. Quando realizamos o estudo “O Momento Atual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal” verificamos que 7% das USF modelo A não querem avançar para modelo B exatamente por causa disso. 

HN – Voltando à tabela remuneratória modelo B, o ordenado pode chegar aos 8.806,18 euros para o assistente sénior 3. 

AB – Mas para isso é preciso muita coisa, formar internos, ter funções de coordenador e estar no topo da carreira, que é algo quase impossível. Não abrem concursos. Eu, por exemplo, poderia já estar no topo da carreira há dez anos. 

O problema não deveria ser se os médicos ganham mais ou não. Há uma série de profissões que ganham muito pouco… Este ordenado o que tem do bom é que é concorrencial com o setor privado e até com o estrangeiro. Lembro que, ainda assim, há países que pagam o dobro ou o triplo deste valor.

HN – Mas Portugal não tem as mesmas capacidades económicas e financeiras que têm países como o Reino Unido ou os Países Baixos.

AB – Sim, mas continuamos a precisar de médicos de família. De qualquer forma, este ordenado tem a ver com o valor que é dado às funções desempenhadas, a responsabilidade e a carga de trabalho. Na verdade, esta carga de trabalho é superior nas USF modelo B, o que é algo de que também não se fala. O nosso trabalho não se limita apenas à vertente clínica, nós fazemos o trabalho administrativo e de gestão que deveria ser feito por outras pessoas. Toda a vertente organizacional é tida em conta na remuneração. 

HN – Como é que vai ser possível criar USF em sítios onde há excesso de utentes sem médico de família?

AB – Pois… Existe um limite. Portanto, a única solução passa por criar mais USF e mais instalações nesses sítios. É preciso que o poder local atue neste sentido e posteriormente se criem mecanismos de atração. Sabemos que o modelo B é muito atrativo. 

HN – Em relação ao geral é muitíssimo atrativo

AB – Sim. Foi por isso que se conseguiu que aumentasse o número de médicos a escolherem a especialidade de Medicina Geral e Familiar e a ficarem no SNS durante muitos anos. Quando é que isto começou a parar? Quando começou a haver quotas para o modelo B e com as pessoas a esperarem em média nove anos para passarem de modelo A para B. Não é razoável. Aquilo que a USF-AN quer é que as pessoas consigam entrar diretamente no modelo B. 

HN – Como é que uma UCSP com lista de utentes sem médicos de família se consegue transformar numa USF modelo B?

AB – Tem que ter mais equipas de saúde familiar. 

HN – Mas não há médicos…

AB – Nós fizemos o nosso trabalho, formámos 450 médicos de família, sendo que 75% foram formados em USF. Se tivéssemos conseguido absorver, nos últimos três anos, estes profissionais, não teríamos hoje este problema.

HN – Atualmente estão em condição de se reformarem em 2023 até 500 médicos de Medicina Geral e Familiar…

AB – Por isso mesmo não deveríamos ter perdido o número de médicos que perdemos nos últimos tempos. E não os retivemos porquê? Porque não lhes foram dadas condições de trabalho.

Nós fizemos o nosso trabalho, aumentámos a formação até ao número que era necessário (os 450). Se os tivéssemos conseguido manter no SNS não estaríamos a assistir a todos estes problemas. Este é o resultado das escolhas políticas adotadas nos últimos anos.

HN – No seu entender estes 450 médicos teriam ficado no SNS se tivéssemos mais unidades modelo B?

AB – Sim. Já vimos que com UCSP e USF modelo A não se está a conseguir reter os médicos. Não vale a pena insistir num modelo que não funciona e é por isso que sugerimos que todas as USF passem para o modelo B. 

HN – Há uma outra questão que suscita alguma divisão de opiniões e que tem a ver com o facto de os médicos das UCSP terem uma carga horária maior do que aquela que têm os médicos das USF modelo B. Qual a sua resposta a estas críticas? 

AB – A carga horária depende das UC… Nas USF modelo B vai havendo aumentos… Chegando por vezes a mais de 1900 utentes por lista.

HN – Mas há um limite.

AB – Sim, mas nunca mandamos ninguém para trás. Na USF Marginal nunca aconteceu. 

HN – Nesta pode não ter acontecido, mas o HealthNews sabe que existem utentes a serem expulsos das suas USF. Há uns dias ouvimos o relato de uma família que foi “posta na rua” após a aposentação do seu médico de família…

AB – Isso é outra questão. Trata-se da aposentação de um médico e a equipa nem sempre consegue continuar a absorver. 

Um dos problemas que temos é o atual sistema de intersubstituição. A lei diz que nos casos de ausência por gravidez ou parentalidade temos que substituir os profissionais sem que venha ninguém de fora. São períodos de ausência que podem chegar até um ano e isso dá cabo de qualquer equipa. Trabalhamos com listas de utentes muito grandes. Eu tenho mais de 1.900 pessoas na minha lista. Este é o limite para as condições que me são dadas – um sistema informático que não é o melhor, ausência de psicólogos e dentistas. E se a isto se adicionar a intersubstituição fica tudo mais difícil senão mesmo impossível. 

HN – Mas há constatações que suscitam alguma perplexidade. As unidades modelo B garantem consultas em quinze dias úteis quando este período deveria ser no máximo de cinco dias. Como se explica esta diferença?

AB – Há alturas do ano em que as capacidades de atendimento do médico são excedidas. No final do ano tivemos um pico de procura que impediu garantir o tempo estimado para a realização de consultas. De qualquer forma, as USF têm esquemas que funcionam como “tampão”. Temos quatro horas de intersubstituição todos os dias no final dia, em que dois médicos dão seguimento a tudo aquilo que ficou pendente e que deve ter uma resposta naquele dia. Funcionamos assim desde o início. Nunca mandamos ninguém para trás. 

HN – Sobre o sistema informático, concorda que haja apenas um único sistema para todo o universo ou poderiam aceitar-se, desde que compatíveis, outros programas? A maioria dos médicos queixa-se que o SClínico é pouco funcional. 

AB – É verdade. Em algumas USF chegou a haver mais de cinquenta falhas num ano. Embora atualmente esteja mais estabilizado, este problema torna a atividade clínica quase impossível. Achamos que o sistema tem que exigir um referencial de base. A nossa interface pode ser providenciada por outros desde que consiga fazer a sua ligação com tudo o resto e respeite os parâmetros. Portanto, não vemos como vantagem existir apenas um sistema. 

O “Medicine One”, que era o que usávamos, tinha uma série de funcionalidades que não conseguimos ter neste (SClinico). Por exemplo, a questão das agendas, que é fundamental, no SClinico ainda está a um nível “pré-histórico”. Isto cria imensos problemas. No estudo “O Momento Atual da Reforma dos Cuidados de Saúde Primários em Portugal” abordamos esta questão da interoperabilidade. Os médicos são obrigados a trabalhar em dois, três ou quatro programas para poder fazer o seu trabalho. Apesar disso, o nosso sistema é muito melhor quando comparado com o de países como a Inglaterra. 

A USF-AN tem mantido reuniões com os técnicos dos Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS) para ir resolvendo problemas com o sistema informático. Há algoritmos que estão desatualizados e que estamos a tentar atualizar. Por outro lado, temos trabalhado a parte da segurança, estando previsto alertas em caso de alergias e de interações medicamentosas. 

HN – O ministro da Saúde assumiu a possibilidade de virem a ser criadas USF modelo C. Por que razão esta questão não levanta consenso? 

AB – Deve-se à experiência dos outros países. Há estudos que relacionam a privatização a um aumento da mortalidade. Também sabemos que quando se abre a porta da privatização começa a haver desvio de recursos. 

HN – Não considera que seria uma forma de captar médicos que estão a querer sair do SNS ou mesmo os que já estão fora? 

AB – Consegue-se fazer isso com as USF modelo B. Quando tínhamos este modelo a funcionar em pleno no início da reforma e quando não havia quotas conseguíamos atrair o número necessário de médicos. Portanto, se olharmos para aquilo que realmente tem funcionado em Portugal verificamos que quando se aumenta o número de USF modelo B, ou quando se dá sinais nesse sentido, há maior capacidade de atração. 

A criação de USF modelo C seria dar um tiro no escuro. Não há dados ou evidência que demonstrem os benefícios. 

HN – Quando as primeiras USF foram criadas também não havia dados…

AB – Isso não é verdade. O processo de criação das USF foi conduzido com muito planeamento. Houve uma série de experiências preparatórias, como os modelos Alfa e os RRE e só depois é que se avançou com as USF. 

HN – Portanto, a USF-AN não vê qualquer utilidade na implementação de unidades modelo C…

AB – Não vejo qualquer tipo de utilidade e o Parlamento foi claro na rejeição dessas propostas. Até porque a população não votou para que houvesse uma privatização dos cuidados essenciais. Estes devem estar disponíveis sem qualquer constrangimento para toda a população. Se olharmos para estudos da OCDE vemos que Portugal tem dos melhores índices de mortalidade evitável. 

HN – E a entrada das USF modelo C poderia colocar estes índices em causa?

AB – Se temos um modelo que funciona por que razão haveríamos de dar um tiro no escuro? É um risco. Quando se decidiu a privatização dos hospitais o que é que houve? O marasmo dos hospitais públicos. 

Quando se fala nesta crise nos serviços de urgência hospitalares é dito que os cuidados de saúde primários não estão a funcionar mas, eventualmente, aquilo que não está a funcionar são os serviços hospitalares. Há provas da OCDE que indicam que os cuidados de saúde primários estão a funcionar e muito bem. Portanto, tem que se começar a pensar de outra maneira. Os cuidados hospitalares têm que ser pensados. Como os hospitais não estão organizados para dar resposta a problemas agudos, os doentes crónicos divergem todos para os serviços de urgência. 

HN – O presidente da APMGF disse que o alargamento dos horários dos centros de saúde não estava a ter impacto no alívio da pressão das urgências.

AB – Tampouco funcionou no passado. Basta olhar para o passado. 

HN – Porquê?

AB – O problema das urgências é uma questão muito complexa. Por exemplo, os utentes não estão habituados a consultar sites como o Portal do SNS, para se informarem sobre acessibilidade. São questões culturais. 

Por outro lado, se formos ver as pessoas que fazem as urgências hospitalares verificamos que são médicos indiferenciados. Isso faz a diferença. A maior parte dos doentes que são considerados “não urgentes” sai do hospital com um hemograma e análises feitas. Ou seja, se realmente era um doente “não urgente” porque fizeram os exames? Há muitas incongruências. 

A única maneira de resolver isto é com uma cobertura da população por equipas de saúde familiar e listas que sejam compatíveis com os recursos que são disponibilizados a essas equipas. Portanto, a solução para as urgências passa por cobrir todo o país com USF modelo B com equipas a trabalhar em condições otimizadas – um bom sistema informático, equipas alargadas compostas por psicólogos, dentistas e fisioterapeutas. Por outro lado, é preciso que haja hospitais que funcionem; em que os doentes não estejam dois ou três anos à espera de uma consulta hospitalar e que tratem da agudização dos seus doentes crónicos. O que o sistema precisa é que os hospitais funcionem. Os cuidados de saúde primários funcionam bem e poderiam funcionar melhor se não fossem algumas escolhas políticas. A questão das quotas fez uma travagem àquilo que poderia ter sido uma cobertura total de utentes por USF. 

HN – A Direção Executiva do Serviço Nacional de Saúde está a elaborar os planos de negócio para quatro novas Unidades Locais de Saúde (ULS), passando o SNS a dispor de 12 unidades. Qual a sua opinião?

AB – Trata-se de um outro problema. É uma decisão que não está baseada em evidência. Não há provas que demonstrem que as ULS funcionem. Não há nenhum estudo que indique que esta integração vertical da gestão permite atingir os objetivos programados. E se não se conseguiu provar nestes 22 anos, é porque possivelmente não conseguem. 

A Entidade Reguladora da Saúde comparou o bloco de serviços de ULS com o bloco de serviços que estão fora das ULS e concluiu que não havia vantagens. 

Há, sim, imensos estudos qualitativos de opinião que dizem que o modelo é bom, mas quando se chega à parte quantitativa não se verificaram benefícios. Sabemos que houve um estudo da ULS de Matosinhos, mas que ninguém conhece. A USF-AN quer ter acesso a esses estudos e ser convencida de que funcionam. Estamos abertos a isso. O sistema de comando e controlo não funciona. Temos 607 USF que funcionam de forma oposta ao sistema de comando e controlo. 

Achamos muito perigoso que se avance sem haver uma justificação baseada na evidência. 

Entrevista de Miguel Múrias Mauritti

Aceda a mais conteúdos exclusivos da nossa revista Aqui.

António Branco: transformar todas as unidades dos CSP em USF modelo B até ao final do ano… “só com trafulhice”

António Branco: transformar todas as unidades dos CSP em USF modelo B até ao final do ano… “só com trafulhice”

Healthnews (HN) Como olha para esta renovada “tendência” de organização dos cuidados em Unidades Locais de Saúde (ULS)? 

António Branco (AB) Foi uma moda. Algumas funcionam bem… Já outras funcionam exatamente como funcionavam antes. No caso da ULS de Matosinhos, foram criados centros de saúde e construído um hospital novo. Isto tudo no tempo de Correia de Campos. Os resultados que vinham sendo obtidos eram melhores comparativamente a Viana do Castelo, mas a diferença é que em Matosinhos tudo tinha sido feito de raiz… Não foi pelo modelo. 

Em Lisboa houve sempre uma oposição à criação de ULS. Foi propagandeado que os conselhos de administração dos hospitais passavam a “comandar” também os centros de saúde e que no caso de surgirem problemas de falta de médicos nas urgências… iam-se buscar aos centros de saúde.

HN – Precisamente os centros de saúde que iriam integrar a então nova ULS de Matosinhos chegaram a considerar que essa questão poderia constituir um potencial perigo, mas a verdade é que esses receios nunca se vieram a concretizar?

 AB – A ULS de Matosinhos não é um bom exemplo… Nesta região foi tudo feito de raiz. Foi o único sítio onde isto aconteceu. Se se fizesse o mesmo noutras regiões (novos centros de saúde, hospitais e profissionais de saúde) o sistema iria funcionar bem. Portanto, Matosinhos foi utilizado como modelo para demonstrar que as ULS eram algo “bom”, mas não é verdade. 

Daquilo que tenho lido, os resultados obtidos devem-se ao facto de em Matosinhos terem sido contratados novos profissionais de saúde e construídas novas infraestruturas. Se não fosse uma ULS, aquilo funcionaria bem à mesma. 

HN – Em entrevista ao nosso jornal, o Presidente da USF-AN afirma ser possível ter quase 90% da população coberta por USF até ao final de 2023, sendo que a passagem para modelo B seria alargada às UCSP. Isso é possível?

 AB – É, mas com trafulhice… A lei dita que para que possa ser feita essa passagem é preciso que sejam cumpridos certos parâmetros de desempenho. 

HN – No início de janeiro, o Ministério da Saúde anunciou que até 30 de junho deste ano transitam para Unidades de Saúde Familiar (USF) modelo B um total de 28 unidades. Qual a leitura que faz desta decisão?

 AB – Antigamente não era feito assim, mas de há uns anos a esta parte é-o, por causa do Orçamento de Estado.  

HN – O despacho diz que até 31 de janeiro vai ser fixado o número total de USF, mas não faz referência ao modelo B…

 AB – Em princípio o despacho deveria indicar o número de USF modelo B. 

HN – Mas não foi o caso

 AB – Não. Fala apenas nas USF. 

HN – Considera que as USF modelo A são uma versão “mitigada” ou existem apenas porque não há dinheiro para promover a passagem para modelo B?

 AB – Há um problema nas USF. Estas formam-se apenas se existirem pessoas para as fazer. Portanto, termos despachos a anunciarem que vai haver vinte ou trinta novas USF não vale nada porque se não houver determinado número de médicos e enfermeiros não é possível haver novas unidades de saúde. 

HN – Segundo aquilo que foi dito pelo Ministro um número alargado de USF modelo A vai passar de forma automática para o modelo B

 AB – Mas isso nunca aconteceu. E porquê? Porque é uma medida com elevado impacto orçamental. Ter mais USF modelo B significa uma despesa maior.

Podia-se ter feito um estudo para que o impacto orçamental não fosse tão violento. Isso não foi feito. Não houve um estudo que avaliasse que correções se deveriam introduzir para que esta medida fosse viável. 

HN – Relativamente às condições remuneratórias, o despacho indica que irá ser feita uma reavaliação 

 AB – Se o caminho passar pelo controlo das horas de trabalho das equipas então mais vale não reavaliar nada. 

HN – Do seu ponto de vista, a que nível é que deveriam haver alterações no decreto de lei?

 AB – É preciso definir os critérios mínimos de resultados para uma USF poder ser classificada modelo B. Quando se produziu o primeiro decreto sobre a criação destas unidades, na altura do Correia de Campos, foi tudo feito à pressa. Foi uma ideia geral e nunca mais ninguém mexeu naquilo. As poucas coisas em que se mexeu foi para “abandalhar”.

Se soubesse o que sei hoje teria defendido ainda mais escalões de USF e não só as As e as Bs – a melhores desempenhos corresponderiam melhores remunerações. Infelizmente, na altura, isso era muito mal visto politicamente. 

HN – Como se explica que ainda se mantenham USF modelo B que não cumprem os critérios básicos?

 AB – Por inércia. A fragilidade das avaliações continua a ser tal maneira grande que dá nisso. 

HN – Daquilo que se depreende da lei é que quando as regras definidas no modelo B não são cumpridas estas desparecem, voltando os médicos para o modelo A

 AB – A única maneira de extinguir uma USF é por falta de um coordenador. O que é que isto criou? Que um centro de saúde que ainda não está em USF seja considerado uma UCSP. 

HN – Mas as UCSP têm uma carga de trabalho maior do que as USF modelo B

 AB – Sim e têm listas de utentes enormes, mas até agora ninguém fez nada para alterar isso. 

HN – Passados mais de 15 anos desde o início da reforma, acredita que ainda é possível fazer alterações sem que haja uma revolta de algumas equipas?

 AB – É possível. Nos últimos quinze anos houve várias tentativas para melhorar o funcionamento das unidades de saúde. 

HN – Recentemente foi alargado o horário de funcionamento das unidades de cuidados de saúde primários para evitar o recurso aos serviços de urgência hospitalar, tendo o presidente da APMGF dito que esta medida estava a ter pouco impacto naquele que seria o objetivo do Governo. 

 AB – Claro que não tem impacto. Ao longo dos anos foi criada esta ideia de que as urgências hospitalares estão sob pressão devido à falta de resposta dos centros de saúde. É verdade que é difícil que os hospitais respondam bem aos doentes se os cuidados primários responderem mal, mas é igual se for ao contrário. 

Penso que esta ideia foi criada para arranjar explicações que não fossem penalizadoras. Há hospitais a funcionar de uma forma totalmente desorganizada. 

Por outro lado, a expansão da rede hospitalizar privada precisa das carências da rede pública, que é fagocitada, para solidificar os progressos que tem tido.

HN – Estima-se que este ano saiam cerca de 500 médicos de família se aposentem. Trata-se de um cataclismo?

 AB – Em 1982 entraram menos de 200 novos alunos nas escolas médicas com 500 médicos a aposentarem-se . Só mais tarde é que este número começou a aumentar. De facto, o pessoal médico na casa dos 50-60 anos praticamente não existe. Temos profissionais mais novos ou mais velhos. 

HN – E como é que esta situação vai ser resolvida? É com o tempo?

 AB – Sim. À medida que o tempo vai passando este fosso vai diminuindo. Mas foi um erro de planeamento. Entre entrar para o curso e sair para o mercado de trabalho são precisos muitos anos. 

Trata-se de um problema geracional. Apesar de ter aumentado a idade da reforma, há muitos médicos com idade avançada. 

HN – Atualmente temos um Diretor-Executivo do SNS. Considera que este novo órgão irá resolver os problemas que o sistema enfrenta?

A ideia está bem concebida e é positiva, mas se não tem autoridade a nível financeiro e de recursos humanos corremos o risco de ser só folclore. Tenho dúvidas de que funcione bem. 

HN – Ainda ninguém sabe o que vai acontecer às ARS…

AB – Se o Diretor-Executivo do SNS conseguir realmente fazer melhor, as Administrações Regionais de Saúde desaparecem. Se isso não acontecer então as ARS vão continuar a tapar os buracos que ninguém consegue tapar. 

Entrevista de Miguel Múrias Mauritti

Aceda a mais conteúdos exclusivos da nossa revista Aqui.

Projeto São Martinho de Lima sem verbas: Há 62 doentes de SIDA em risco

Projeto São Martinho de Lima sem verbas: Há 62 doentes de SIDA em risco

HealthNews (HN) – Como surgiu o Projeto São Martinho de Lima, anteriormente denominado Associação de Apoio a Doentes de SIDA?

Amílcar Soares (AS) – O Projeto São Martinho de Lima foi criado pelo Padre Elias com o apoio da Segurança Social, com o objetivo de ajudar no pagamento de medicamentos das comorbilidades das pessoas portadoras de SIDA e também na alimentação, através da criação de um Banco Alimentar. 

HN – Como se processou a transferência da gestão do Projeto São Martinho de Lima para a Associação Positivo?

AS – Como as pessoas que faziam parte da direção do Projeto São Martinho de Lima já tinham alguma idade e os dominicanos, a quem o Padre Elias estava ligado, não estavam interessados na sua gestão, quando o Padre Elias ficou doente, em 2013, o Instituto da Segurança Social propôs-nos continuar com o projeto. Aceitámos, estando prevista a realização de um protocolo sobre essa transferência de responsabilidade. 

Na altura, a Associação Positivo funcionava no Cais de Sodré mas as condições daquele espaço não eram as melhores. Durante o confinamento, a Associação Positivo mudou-se para novas instalações na Rua David de Sousa e conseguimos um pequeno espaço no número 9 do Largo Machado de Assis, destinado ao Projeto São Martinho de Lima, atualmente coordenado pelo André Santos.

Os utentes ficaram muito surpreendidos e satisfeitos porque, apesar de ser pequeno, o novo espaço é moderno e muito agradável. Aqui, podem estar à vontade e receber um atendimento de qualidade.

HN – Portanto, desde 2013 que a Associação Positivo está a gerir o projeto iniciado pelo Padre Elias com fundos da Segurança Social?

AS – Esses fundos eram entregues ao Projeto São Martinho de Lima. A ligação com a Associação Positivo era realizada pelo assistente social da Associação, o Dr. Paulo Renato, que nos entregava o dinheiro em mão. 

Com a pandemia de Covid-19, o número de pessoas apoiadas pelo Projeto São Martinho de Lima aumentou. No início eram cerca de 40 e agora são 62. 

Trabalhamos em duas frentes: pessoas portadoras de SIDA e más condições económicas. Por vezes, recebem reformas de duzentos euros, o que não dá para nada. 

André Santos, coordenador do projeto São Martinho de Lima, junto às instalações do mesmo, em Lisboa.

HN – Até quando a Associação Positivo recebeu essas verbas?

AS – Até setembro do ano passado embora, nesse mês, somente tenhamos recebido parte da verba. 

HN – Como é que conseguiram manter o apoio aos utentes desde setembro de 2022 até agora?

AS – Com uma gestão muito fina do budget de que dispúnhamos, como fazemos em nossa casa. Dessa forma, conseguimos melhorar a qualidade do cabaz alimentar, com a incorporação de mais proteína, fruta e vegetais e, simultaneamente, dispor de um pequeno plafond para fazer face a alguma aflição, como a que vivemos desde setembro. Não há milagres: é uma questão de gestão. 

Muitas das pessoas apoiadas pelo Projeto São Martinho de Lima têm família. Sabendo isso, tentamos dar-lhes sempre um pouco mais. Claro que não alimentamos a casa toda. É um apêndice àquilo que já têm no seu dia-a-dia, mas faz muita diferença. 

Vêm buscar o Banco Alimentar uma vez por mês e o “Cabaz Saudável”, à base de legumes e fruta, cada quinze dias. Por sua vez, os medicamentos são entregues na sede da Associação Positivo.

HN- Entretanto, o que é que aconteceu ao Dr. Paulo Renato?

AS – Sabemos que adoeceu e, depois disso, nunca mais o conseguimos contactar. Nem através de telefone, nem do e-mail. Não voltámos a saber nada dele.

HN – Neste momento, quem é que tem nas mãos o poder para continuar a assegurar a continuidade do trabalho desenvolvido pelo Projeto São Martinho de Lima?

AS – O Instituto da Segurança Social. Aquilo que nos dizem é que, como não conseguiram contactar ninguém do Projeto São Martinho de Lima e, por outro lado, nunca ninguém lhes deu resposta em todos estes anos, nem lhes prestou contas, deixaram de lhes fazer a transferência de verbas. 

HN Contudo, foi a Segurança Social que pediu à Positivo para tomar conta do Projeto São Martinho de Lima…

AS – Sim, quando mudámos para as novas instalações, esteve cá uma funcionária da Segurança Social que programou tudo para que o Projeto São Martinho de Lima seja integrado nas verbas que vêm para a Associação Positivo. Contudo, a informação que recebemos ultimamente é que o assunto ainda está a ser objeto de discussão pela Administração do Instituto da Segurança Social.

HN – E a Associação Positivo só tem dinheiro para apoiar os utentes do Projeto São Martinho de Lima até janeiro?

AS – Sim, em fevereiro já não vamos conseguir. Precisamos de uma decisão rápida do Instituto da Segurança Social. Não nos interessa saber se o problema é quem paga o quê, ou seja, se os medicamentos devem ser pagos pelo Ministério da Saúde e os alimentos pela Segurança Social… O que queremos é manter o projeto e continuar a apoiar as pessoas. Da nossa parte, estamos inteiramente disponíveis para prestar contas porque temos as faturas de tudo o que adquirimos. 

Temos falado com as pessoas que cá estiveram quando a Associação Positivo e o Projeto São Martinho de Lima mudaram para as novas instalações, ou seja, pessoas do terreno. Mas continua sem haver uma decisão por parte da Administração. 

HN – Já avisaram as pessoas que, em fevereiro, provavelmente vão deixar de receber este apoio?

AS – Sim. Entretanto, não baixámos os braços e estamos a tentar encontrar alguma solução mas as probabilidades que existem, sem a verba da Segurança Social, são muito reduzidas. Entre não dar medicamentos ou não dar comida, “venha o diabo e escolha”, como se costuma dizer.

Entrevista de Adelaide Oliveira

Aceda a mais conteúdos exclusivos da nossa revista Aqui.