Ação climática ‘poderia evitar 6.000 mortes de crianças por ano’

Ação climática ‘poderia evitar 6.000 mortes de crianças por ano’

O estudo publicado na Environmental Research Letters  prevê que manter o aumento da temperatura em 1,5 graus Celsius até 2050, conforme previsto no Acordo de Paris sobre mudanças climáticas, poderia evitar cerca de 6.000 mortes de crianças relacionadas ao calor na África.

Os investigadores analisaram dados populacionais de menores de cinco anos do WorldPop e da Rede Internacional de Informações sobre Ciências da Terra e dados nacionais sobre as taxas de mortalidade de crianças menores de cinco anos do UNICEF para os anos de 1995 a 2020. Usando diferentes cenários de mudanças climáticas, conseguiram estimar o número de mortes de crianças até 2050.

A mortalidade infantil relacionada ao calor na África aumentou para 11.000 mortes anualmente entre 1995 e 2004, das quais 5.000 estavam ligadas aos impactos negativos das mudanças climáticas, mostrou o estudo. Na década de 2011-2020, as mortes relacionadas com o calor aumentaram de 8.000 para 19.000 por ano, revelou o estudo.

Os investigadores dizem que o aumento pode ter prejudicado os ganhos obtidos em outras áreas da saúde infantil e prejudicado o progresso do desenvolvimento global. Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU buscam acabar com as mortes evitáveis ​​de crianças menores de cinco anos e reduzir a mortalidade de menores de cinco anos para “pelo menos 25 mortes por 1.000 nascidos vivos” até 2030.

“Nossos resultados sugerem que, se a mudança climática não for mantida em 1,5 graus Celsius de aquecimento, o aumento das temperaturas tornaria cada vez mais difícil cumprir a meta dos ODS”, diz o estudo.

John Marsham, coautor do estudo e professor de ciências atmosféricas na Universidade de Leeds, no norte da Inglaterra, disse ao SciDev.Net que os impactos das mudanças climáticas, causados ​​por atividades humanas e crescimento populacional, superam os resultados obtidos com a melhoria das medidas de saúde e saneamento.

“Nossos resultados destacam a necessidade urgente de que a política de saúde se concentre na mortalidade infantil relacionada com o calor, pois nossos resultados mostram que é uma questão séria nos dias de hoje, que só se tornará mais urgente à medida que o clima aquecer”, diz Marsham.

Ele acrescenta que as estimativas de mortalidade futura relacionada ao calor incluem a suposição de um crescimento populacional significativo projetado para a África e declínios na mortalidade infantil geral devido a melhorias na saúde.

A saída

Bernard Onyango, diretor de população, meio ambiente e desenvolvimento do projeto BUILD no Instituto Africano de Políticas de Desenvolvimento no Quênia, diz que as evidências desta investigação “trazem à tona os impactos das mudanças climáticas na saúde”.

Sem ação para retardar o aumento da temperatura global como resultado das mudanças climáticas, milhares de vidas de crianças africanas serão perdidas anualmente por mortes relacionadas com o calor, acrescenta.

Onyango pede esforços urgentes nos níveis nacional, regional e global para evitar essas mortes.

“Os países africanos têm que priorizar a saúde nos seus planos de ação contra as mudanças climáticas, o que não é o caso no momento”, diz ele à SciDev.Net. “Os formuladores de políticas precisam de se preocupar com o estudo por causa do custo para a saúde humana e criar estratégias para evitar a perda de vidas humanas como resultado das mudanças climáticas”.

Teo Namata, gerente interino do programa de água, saneamento e higiene da Amref Health Africa em Uganda, acrescenta que o continente precisa de políticas fortes contra práticas de resiliência não climáticas, como corte de árvores e queima de arbustos, e invasão de áreas húmidas e florestais, com fortes penalidades contra os infratores.

Mas Namata pede mais investigação para explorar como o calor extremo afeta a saúde das crianças e identificar intervenções que possam efetivamente controlar e mitigar os impactos do calor em populações vulneráveis.

NR/HN/Alphagalileo

ONU alerta que Seca, alterações climáticas e desflorestação têm efeitos graves na América Latina

ONU alerta que Seca, alterações climáticas e desflorestação têm efeitos graves na América Latina

O alerta foi dado ontem em Genebra, durante a apresentação do relatório o “O Estado do Clima na América Latina e Caraíbas 2021”, que chama a atenção para “os profundos impactos nos ecossistemas, na segurança alimentar e hídrica, na saúde humana e na luta (local) contra a pobreza”.

“As taxas de desflorestação foram as mais elevadas desde 2009, prejudicando o ambiente e dificultando os esforços de mitigação das alterações climáticas. Os glaciares andinos perderam mais de 30% da sua superfície em menos de 50 anos. E a mega-seca no centro do Chile é a mais persistente do último milénio”, explica.

Segundo o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas, “os riscos hidrometeorológicos como secas, ondas de calor e frio, ciclones tropicais e inundações, causaram a perda de centenas de vidas, graves danos na produção agrícola e nas infraestruturas, e o deslocamento da população”.

“Se prevê que o aumento do nível do mar e o contínuo aquecimento dos oceanos continuem a afetar a subsistência, o turismo, a saúde, a alimentação, a energia e a segurança hídrica (…) Para muitas cidades andinas, o derretimento dos glaciares representa a perda de uma importante fonte de água doce que é agora utilizada para uso doméstico, irrigação e geração de energia hidroelétrica”, explicou.

Segundo Taalas “a contínua degradação da floresta tropical amazónica continua a ser uma grande preocupação para a região e para o clima global, dado o papel desta floresta no ciclo do carbono”.

Mário Cimoli, da Comissão Económica para a América Latina e Caraíbas (CEPAL) alertou que as alterações climáticas e “os efeitos combinados da pandemia da covid-19” afetaram “a biodiversidade da região”, fazendo “estagnar décadas de progresso contra a pobreza, a insegurança alimentar e a redução das desigualdades”.

Segundo o relatório a taxa média de aumento da temperatura foi de 0,2 °C por década entre 1991 e 2021, em comparação com 0,1 °C entre 1961 e 1990.

Os glaciares dos Andes tropicais perderam pelo menos 30% da sua superfície desde os anos 80 e alguns glaciares do Peru chegaram a perder mais de 50%. O recuo dos glaciares e a perda de massa de gelo agravaram o risco de escassez de água para a população andina e os ecossistemas.

O nível do mar subiu a um ritmo mais rápido do que à escala mundial, especialmente na costa atlântica da América do Sul, a sul do equador (3,52 ± 0,0 mm por ano de 1993 a 2021), no Atlântico Norte subtropical e no Golfo do México (3,48 ± 0,1 mm por ano de 1993 a 1991), ameaçando a população das zonas costeiras, contaminando os aquíferos de água doce, desgastando as costas, inundando as zonas baixas e aumentando o risco de tempestades.

A megasseca no Chile continuou por 13.º ano, tornando-se a mais longa no último milénio. Além disso, uma seca de vários anos na bacia Paraná-Plata, a pior desde 1944, afetou o Brasil e partes do Paraguai e da Bolívia.

Na bacia do Paraná-Plata, os danos à agricultura reduziram as colheitas de soja e milho, afetando os mercados agrícolas globais e, na América do Sul em geral, a seca causou um declínio de 2,6% na colheita de cereais em 2020/2021 em comparação com a época anterior.

2021 registou a terceira temporada de furação mais ativa do Atlântico e as chuvas extremas causaram inundações e deslizamentos de terras, ocasionando perdas significativas, centenas de mortos, dezenas de milhares de casas destruídas ou danificadas e centenas de milhares de pessoas deslocadas.

A desflorestação na floresta amazónica brasileira duplicou e atingiu o nível mais alto desde 2009. Em 2021, perdeu-se mais 22% de área florestal do que em 2020, explica o relatório.

Por outro lado, 7,7 milhões de pessoas na Guatemala, El Salvador e Nicarágua registaram níveis elevados de insegurança alimentar em 2021.

Segundo o relatório afirma é preciso reforçar os sistemas de alerta de perigos e os dois oceanos locais (Pacífico e Atlântico) estão a aquecer e a acidificar como resultado do dióxido de carbono.

 NR/HN/LUSA

Pescadores do Norte garantem sardinha “abundante e de qualidade” para o S. João

Pescadores do Norte garantem sardinha “abundante e de qualidade” para o S. João

“Tem havido sardinha de qualidade, e com sinais claros de abundância. O tamanho nesta altura do ano ainda não é o ideal, mas já tem muito sabor e gordura suficiente para ‘pingar’ no pão. Ainda hoje as comi e estavam ótimas”, garantiu à agência Lusa Agostinho Mata, presidente da Propeixe.

O líder desta cooperativa de produtores de peixe do Norte, que engloba dezenas de embarcações na região, prometeu “sardinha suficiente para umas grandes festas de S. João à boa maneira do norte” e notou uma maior procura por este pescado em comparação com os últimos anos, marcados pela pandemia de covid-19.

“Tem havido mais procura, não só para o consumo normal como para as conserveiras. Isso tem pressionado o mercado o que é bom para nós. As lotas têm estado bem movimentadas e o preço pago tem sido justo em relação à qualidade do peixe”, partilhou.

Ainda assim, e reconhecendo que as vendas “têm sido melhores que anos anteriores com a covid-19”, Agostinho Mata lembra as dificuldades por que passa o setor devido ao aumento do preço dos combustíveis.

“Tem sido horrível para nós, e com um impacto enorme nas nossas contas. Estamos a vender o produto ao preço normal, que não cobre a despesa extra com o aumento do gasóleo”, lamentou.

O líder da Propeixe espera que a situação dos aumentos do combustível “não se mantenha por muito mais tempo”, vincando que está a “ser muito prejudicial para pesca”, e deixando um apelo aos governantes.

“Se não disponibilizarem mais ajuda, vai ser muito complicado manter a atividade rentável. Têm de ter mais atenção para este setor primário, que é base de tudo”, alertou Agostinho Mata.

O embalo das vendas para as festas dos santos populares e a perspetiva de um verão com mais consumo têm ajudado a minimizar o aumento dos custos de produção, que, ainda assim, se continuarem, podem tornar a situação “rapidamente insustentável”.

NR/HN/LUSA

Cruz Vermelha internacional lança apelo para enfrentar crise alimentar no Sri Lanka

Cruz Vermelha internacional lança apelo para enfrentar crise alimentar no Sri Lanka

A organização pediu 28 milhões de francos suíços (27 milhões de euros) para ajudar cerca de 500.000 pessoas no país, mas avisou que a população necessitada é maior e mostrou-se “gravemente preocupada pelas comunidades mais vulneráveis”.

“Cerca de 2,4 milhões de pessoas vivem já abaixo do limiar da pobreza e são as mais afetadas pela perda de meios de subsistência, a escassez de alimentos e o aumento vertiginoso do custo dos bens essenciais”, disse em comunicado o chefe do gabinete da FICV para o sul da Ásia, Udaya Regmi.

O secretário-geral da Cruz Vermelha no Sri Lanka, Mahesh Gunasekara, explicou que o impacto da pandemia na ilha foi muito duro e que a situação é mais grave “nas famílias monoparentais, nas que não têm trabalho fixo e nos que sofreram perdas de rendimentos”.

A escassez de alimentos no Sri Lanka obrigou grande parte da população a reduzir o número de refeições diárias, conta a agência Efe.

Devido à quebra nas reservas de moeda estrangeira, a ilha tem falta de produtos de primeira necessidade, enfrenta uma severa escassez de combustíveis, gás para cozinhar e medicamentos desde o final de dezembro.

O país registou também uma subida da inflação de 33,8% em abril, um número recorde nesta nação insular, que atravessa a pior crise económica desde que alcançou a independência do Reino Unido em 1948, segundo números do Governo.

O primeiro-ministro, Ranil Wickremesinghe, anunciou na terça-feira que as Nações Unidas também lançarão um pedido de financiamento para proporcionar 48 milhões de dólares (45 milhões de euros) durante quatro meses ao país para alimentos, agricultura e saúde.

Mostrando-se consciente de que a população enfrenta “graves dificuldades e escassez” de alimentos, o governante assegurou estar a trabalhar para garantir três refeições diárias.

Segundo o seu gabinete, Wickremesinghe convidou a diretora do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, a visitar o Sri Lanka “o mais cedo possível” para tentar aceder a um resgate monetário urgente.

LUSA/HN

António Guterres: Guerra é uma “tempestade perfeita” para África

António Guterres: Guerra é uma “tempestade perfeita” para África

“A guerra na Ucrânia está a criar uma tempestade perfeita para os países em desenvolvimento, especialmente em África; esta crise está a resultar num aumento exponencial de custos para os alimentos, energia e fertilizantes, como consequências devastadoras para os sistemas alimentares e de nutrição, ao mesmo tempo que torna mais difícil para o continente mobilizar os recursos financeiros necessários para investir no seu povo”, escreveu Guterres.

Numa mensagem alusiva ao Dia de África, que hoje assinala, o antigo primeiro-ministro português salientou que “as perspetivas no horizonte são brilhantes, desde a crescente e vibrante população jovem, a iniciativas como a zona de livre comércio continental” e outras, mas alertou que os desafios são múltiplos.

“África é um lar de esperança”, mas, continuou Guterres, enfrenta “múltiplos desafios” que a impedem de “atingir o seu pleno potencial, incluindo a pandemia de covid-19 e o seu impacto devastador nas economias africanas, a mudança climática, os conflitos por resolver e uma severa crise alimentar”.

Para Guterres, o mundo tem de se “juntar em solidariedade com todos os africanos para fortalecer a segurança alimentar, e colocar a nutrição ao alcance de todas as pessoas”, além de “terminar a pandemia, reforçar o sistema financeiro global, para a mudança climática e silenciar as armas em todos os conflitos”.

A Rússia lançou em 24 de fevereiro uma ofensiva militar na Ucrânia que já causou a fuga de mais de 14 milhões de pessoas de suas casas – cerca de oito milhões de deslocados internos e mais de 6,3 milhões para os países vizinhos -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Também segundo as Nações Unidas, cerca de 15 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na Ucrânia.

A invasão russa foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que respondeu com o envio de armamento para a Ucrânia e o reforço de sanções económicas e políticas a Moscovo.

NR/HN/LUSA

Ucrânia: Von der Leyen alerta para “sinais óbvios” de crise alimentar e pede ação urgente

Ucrânia: Von der Leyen alerta para “sinais óbvios” de crise alimentar e pede ação urgente

“Os sinais de uma crise alimentar crescente são óbvios. Temos de agir com urgência”, declarou a líder do executivo comunitário, discursando no Fórum Económico Mundial de Davos, na Suíça.

Numa altura de confronto armado na Ucrânia, Ursula von der Leyen condenou que “a artilharia russa esteja a bombardear deliberadamente armazéns de cereais em toda a Ucrânia”, que é um dos países mais férteis do mundo, e que esteja também a “bloquear navios ucranianos cheios de trigo e sementes de girassol”.

“As consequências destes atos vergonhosos estão à vista de todos. Os preços globais do trigo estão a subir em flecha e são os países frágeis e as populações vulneráveis que mais sofrem […] e, ainda por cima, a Rússia está agora a acumular as suas próprias exportações de alimentos como forma de chantagem, retendo os fornecimentos para aumentar os preços globais, ou negociando trigo em troca de apoio político”, lamentou a responsável.

E criticou: “Isto é usar a fome e os cereais para exercer o poder”.

Precisando que existem cerca de 20 milhões de toneladas de trigo retidas na Ucrânia – sendo que a exportação habitual era de cinco milhões de toneladas de trigo por mês – Von der Leyen defendeu a criação de “vias de solidariedade, ligando as fronteiras da Ucrânia aos portos” europeus, estando Bruxelas a “financiar diferentes modos de transporte para que os cereais da Ucrânia possam chegar aos países mais vulneráveis do mundo”.

“E estamos a trabalhar com o Programa Alimentar Mundial para que os ‘stocks’ disponíveis e produtos adicionais possam chegar aos países mais vulneráveis a preços acessíveis, [sendo que] a cooperação global é o antídoto para a chantagem da Rússia”, adiantou a presidente da Comissão Europeia.

Ursula von der Leyen defendeu, ainda, que “a Ucrânia tem de ganhar esta guerra e a agressão de Putin deve ser um fracasso estratégico”.

A posição surge numa altura de aceso confronto armado na Ucrânia devido à invasão russa, tensões geopolíticas que estão a afetar cadeias de abastecimento, causando receios de rutura de ‘stocks’ e de crise alimentar.

Tanto a Ucrânia como a Rússia são importantes fornecedores dos mercados mundiais, especialmente de cereais e óleos vegetais, como trigo, cevada e milho, sendo que Kiev é também responsável por mais de 50% do comércio mundial de óleo de girassol e um importante fornecedor de ração para a UE.

Segundo a Comissão Europeia, não existe uma ameaça imediata à segurança alimentar no espaço comunitário, uma vez que a UE é um grande produtor e um exportador líquido de cereais.

Ainda assim, Bruxelas reconhece o impacto imediato relacionado com o aumento dos custos ao longo de toda a cadeia de abastecimento alimentar, pela rutura dos fluxos comerciais de e para a Ucrânia e Rússia, bem como as consequências na segurança alimentar global.

Para a vizinhança da UE, no Norte de África e no Médio Oriente, tanto a disponibilidade como a acessibilidade de preços estão em risco no que toca ao trigo, o alimento básico, o que também acontece na Ásia e na África subsaariana.

O Norte de África e o Médio Oriente importam mais de 50% das suas necessidades de cereais da Ucrânia e da Rússia.

NR/HN/LUSA