Cuidados de saúde nos serviços de urgência, a necessidade de maximizar a segurança

Cuidados de saúde nos serviços de urgência, a necessidade de maximizar a segurança

Com o aumento da complexidade verificada ao nível da prestação de cuidados de saúde, novos desafios se colocam aos serviços e aos seus profissionais para conseguirem garantir a segurança e a qualidade dos cuidados prestados (Mansoa et al., 2011). Nos últimos anos, esta tem sido, aliás, uma preocupação e uma das prioridades para as grandes entidades de referência na área da saúde.

A Organização Mundial da Saúde (2020, p.13) define cuidados de alta qualidade como “cuidados que são seguros, eficazes, centrados nas pessoas, oportunos, eficientes, equitativos e integrados”. Através desta definição, é possível compreender a importância que a segurança assume para a qualidade, uma vez que são considerados dois elos indissociáveis. Também a nível interno, o Ministério da Saúde, através do Despacho n.º 5613/2015 (p.13551), reforça esta premissa ao considerar que “a qualidade, intimamente ligada à segurança dos cuidados, é uma garantia de sustentabilidade do Serviço Nacional de Saúde e do sistema de saúde Português”.

No entanto, e apesar de todos os esforços encetados, da publicação de normativas e de planos de referência para esta área em questão, continuamos, todos nós, a identificar graves lacunas e fragilidades quando transferimos o que está emanado na teoria para a prática.

Enquanto enfermeiro, e na qualidade de mestrando de um curso na área de especialização à pessoa em situação crítica, tive a oportunidade de estagiar, recentemente, num serviço de urgência da área de Lisboa. Como bem sabemos, estes serviços são frequentemente alvo de notícia e de escrutínio público, principalmente nesta altura do ano, onde são expostos muitos dos seus problemas devido à sua sobrelotação.

Perante o confronto com a realidade existente num serviço de urgência, saliento a existência do caos e a capacidade que a equipa de enfermagem tem para se organizar e trabalhar num ambiente que não é o ideal em termos de espaço físico e de recursos materiais e humanos, com o sentido de dar resposta às necessidades de centenas de pessoas que, diariamente, procuram acesso a este tipo de cuidados de saúde. No entanto, e apesar da sua bravura, existe sempre espaço para melhorar.

Face à necessidade crescente de recursos humanos no Serviço Nacional de Saúde, nos últimos anos, temos assistido à contratação de profissionais recém-licenciados para trabalhar no departamento de urgência e emergência. Não querendo logicamente minimizar ninguém, estes profissionais vêm, muitas vezes, desprovidos de conhecimento e de competências necessárias para exercer a sua atividade nesta área onde, frequentemente, têm de dar resposta à complexidade de cuidados que se encontra inerente à condição de saúde da pessoa em situação crítica. Conforme nos refere Benner (2001), um enfermeiro com pouco tempo de experiência profissional estará menos capacitado para dar uma resposta adequada neste tipo de contexto, não revelando a prontidão e a antecipação necessárias por forma a atuar no sentido de minimizar potenciais danos para o doente, uma vez que as aprendizagens adquiridas em contexto académico não são suficientes para o efeito, sendo necessária também a aquisição de experiência através da vivência de situações reais.

Ainda neste âmbito, no que concerne à constituição das equipas em contexto de serviço de urgência, a Ordem dos Enfermeiros (2019), através da publicação do Regulamento n.º 743/2019, recomenda que pelo menos metade dos enfermeiros sejam, preferencialmente, enfermeiros especialistas em enfermagem médico-cirúrgica, na vertente da pessoa em situação crítica. A carência de profissionais diferenciados ou dotados para assumir a prestação de cuidados pode constituir um fator de risco para a segurança da pessoa, ameaçando a qualidade dos cuidados de saúde.

Uma estratégia para mitigar esta fragilidade seria o devido acompanhamento por parte dos elementos diferenciados do serviço de urgência aos colegas mais novos, por forma a dar-lhes mais segurança e a auxiliá-los no processo de crescimento pessoal e profissional. No entanto, para que este acompanhamento possa ser proveitoso deverá ser complementado com um incentivo à formação profissional, havendo por isso necessidade de proatividade e empenho por parte desses profissionais. O Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2021-2026 reforça esta condição, alertando para a importância da promoção da cultura de segurança através da formação profissional numa perspetiva de melhoria contínua da qualidade (Ministério da Saúde, 2021).

Para além da complexidade dos cuidados que se prestam em contexto de urgência, os profissionais encontram-se, frequentemente, sobrecarregados com o aumento dos rácios estipulados. Este aumento, causado não só pela elevada procura de cuidados, mas também, por as equipas se encontrarem desfalcadas e pela frequente inexistência de vagas noutros serviços que permitam transferir as pessoas que necessitam de cuidados especializados, obriga a que um enfermeiro tenha à sua responsabilidade, o dobro ou o triplo dos doentes que seria desejável, muitas vezes, com a agravante de se tratar de doentes que exigem uma elevada complexidade de cuidados.

Cabe-nos a nós por isso, tentar mudar o rumo dos acontecimentos e a visão que se encontra enraizada no atual contexto da saúde em Portugal, que quer queiramos quer não, tem vindo a evoluir e a modernizar-se, com consequente aumento da complexidade de trabalho para os profissionais que exercem a profissão. No entanto, não conseguiremos fazê-lo sozinhos, sendo necessário encetar esforços, que muitas vezes, terão de partir de instâncias superiores, exigindo mudanças a nível organizacional e institucional.

REFERÊNCIAS

Benner, P. (2001). De Iniciado a Perito: Excelência e Poder na Prática Clínica de Enfermagem. Coimbra: Quarteto Editora.

Despacho n.º 5613/2015 (2015). Aprova a Estratégia Nacional para a Qualidade na Saúde 2015- 2020, que consta do anexo ao presente despacho. Ministério da Saúde – Gabinete do Secretário de Estado Adjunto do Ministro da Saúde. Diário da República, II Série (N.º 102 de 27- 05.2015), 13550-13553. Acessível em: https://files.dre.pt/2s/2015/05/102000000/1355013553.pdf

Despacho n.º 9390/2021 (2021). Aprova o Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2021- 2026. Ministério da Saúde – Gabinete do Secretário de Estado Adjunto e da Saúde. Diário da República, II Série (N.º 187 de 24-09-2021), 96 – 103. Acedido em: https://files.dre.pt/2s/2021/09/187000000/0009600103.pdf

Mansoa, A; Vieira, C. P.; Ferrinho, P.; Nogueira, P. & Varandas, L. (2011). Eventos adversos na prestação de cuidados hospitalares em Portugal no ano de 2008. Revista Portuguesa de Saúde Pública, 29 (2), 116-122. DOI: 10.1016/S0870-9025(11)70015-3

Organização Mundial da Saúde (2020). Manual de políticas e estratégias para a qualidade dos cuidados de saúde: uma abordagem prática para formular políticas e estratégias destinadas a melhorar a qualidade dos cuidados de saúde. Genebra: Organização Mundial da Saúde.

Regulamento n.º 743/2019 (2019). Regulamento da Norma para Cálculo de Dotações Seguras dos Cuidados de Enfermagem, Diário da República, II Série (N.º 184 de 25-09-2019), 128- 155. Acedido em: https://files.dre.pt/2s/2019/09/184000000/0012800155.pdf

A Escola Superior de Enfermagem de Lisboa na avaliação do Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2015-2020

A Escola Superior de Enfermagem de Lisboa na avaliação do Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2015-2020

Na sequência de protocolo entre a Escola Superior de Enfermagem de Lisboa (ESEL) e a Direção Geral da Saúde (DGS) para a avaliação do Plano Nacional de Segurança do Doente (PNSD 2015-2020), desenvolveu-se projeto de acordo com as publicações em vigor (Despacho nº 1400-A/2015, DR II série, de 10/02/2015) abrangendo várias temáticas no âmbito da Estratégia Nacional para a Qualidade da Saúde (Despacho nº 5613/2015, DR II série, de 27/05/2015).

Este acompanhamento teve, tal como definido pelo Departamento da Qualidade na Saúde da DGS, a finalidade de garantir a qualidade e segurança dos cuidados de saúde, perspetivando-se a evolução de um novo PNSD, que se encontra atualmente em vigor como Plano Nacional para a Segurança dos Doentes 2021-2026 (PNSD 2021-2026), cuja Comissão de Acompanhamento e Monitorização do PNSD 2021-2026 conta com a participação da ESEL.

A realização do projeto contou com um conjunto de investigadores do Centro de Investigação, Inovação e Desenvolvimento em Enfermagem de Lisboa (CIDNUR) da ESEL e de estudantes de mestrado em Enfermagem – Especialização de Gestão em Enfermagem. Foram avaliados 8 dos 9 objetivos estratégicos na componente dos Objetivos Estratégicos do PNSD 2015-2020. Estes objetivos estratégicos foram: OE nº 2 – Aumentar a Segurança da Comunicação; OE nº 3 – Aumentar a segurança cirúrgica; OE nº 4 – Aumentar a segurança na utilização da medicação; OE nº 5 – Assegurar a identificação inequívoca dos doentes; OE nº 6 – Prevenir a ocorrência de quedas; OE nº 7 – Prevenir a ocorrência de úlceras de pressão; OE nº 8 – Assegurar a prática sistemática de notificação, análise e prevenção de incidentes; OE nº 9 – Prevenir e controlar as infeções e as resistências aos antimicrobianos.

Os resultados do estudo e as conclusões foram apresentadas à DGS, bem como na conferência do dia Mundial da Segurança do Doente (17-9-2021) junto do setor da saúde e respetiva tutela, tendo ainda sido produzido e publicado um Documento Técnico para a Implementação do PNSD 2021-2026 (DGS – Qualidade e Segurança) que incluiu a avaliação do PNSD 2015-2020.

Este estudo permitiu o envolvimento dos investigadores na análise, discussão e reflexão em torno da Segurança do doente, que é um imperativo da intervenção dos enfermeiros junto das populações e utentes que cuidam, tendo dado importantes contributos para o plano atualmente em vigor (PNSD 2021-26).

Pedro Lucas

Filomena Gaspar

Demissão Silenciosa nos cuidados de saúde, Mais do que um problema social, um problema no cuidar!

Demissão Silenciosa nos cuidados de saúde, Mais do que um problema social, um problema no cuidar!

demissão silenciosa (quiet quitting), tem ganho mais expressão e visibilidade social no pós-pandemia como uma estratégia pessoal na prevenção do burnout e na preservação da vida pessoal, sendo muito utilizada pelos Millennials (nascidos entre 1981 e 96), mas sobretudo pela Geração Z (nascidos entre 1997 e 2012).

O principal objetivo dos profissionais que optam por uma demissão silenciosa não é, necessariamente, a procura da demissão, mas sim evitar longos períodos de trabalho (nomeadamente pelo trabalho extraordinário), prevenindo a exaustão e otimizando a sua qualidade de vida.

Nos períodos do pico da pandemia, se houve profissões que se virão inundadas pela sobrecarga de trabalho, elas foram as da área da saúde.

Apelidados de heróis, de uma forma geral, nenhum profissional quis vestir a capa de super-herói, reivindicando, contudo que, em momento próprio, fosse reconhecida essa dedicação e esse “heroísmo”, não necessariamente em valor monetário, mas por compensação “em género”, nomeadamente em melhores condições de trabalho, melhores dotações (sem necessidade de recurso a horas extraordinárias), e outras condições adequadas ao seu estatuto de “heróis” (ex.: diminuição da idade da reforma, maior número de dias de férias) .

Todavia, isso não aconteceu de uma maneira geral no mundo, e muito menos em Portugal. Bem pelo contrário.

Período pós-pandemia – momento de oportunidades

Aproveitando o cansaço que os profissionais na área da saúde tinham, nomeadamente no sector público, várias foram as entidades privadas que optaram por apresentar propostas de contrato com uma melhoria salarial, levando à saída de muitos profissionais, com vários anos de experiência, para este sector.

Também a exposição a um mundo global, nomeadamente sem fronteiras (como o espaço Schengen), levou a que muitos destes profissionais saíssem do país em busca de melhores condições de trabalho (contribuindo ainda mais, para o êxodo, nomeadamente das instituições públicas).

Excluindo assim os que se demitiram (que se poderão também incluir no fenómeno da grande demissão – great resignation), muitos dos que ficaram vêem-se a braços com uma ainda maior sobrecarga de trabalho, com necessidade por parte dos hospitais EPE de maior produtividade, na procura de satisfazer uma população carente em cuidados de saúde, com tradição histórica de atraso em consultas e cirurgias.

Enfermagem – uma profissão skill-mixed exausta e subaproveitada

À Enfermagem, no período de pandemia, foi solicitado um investimento não só ao nível do controlo da doença, mas também na instituição de um programa de vacinação amplamente reconhecido e aplaudido internacionalmente.

De longa data vem o reconhecimento internacional da profissão e da sua formação, de que o investimento em Enfermeiros e em cuidados de Enfermagem, tem um claro impacto direto na melhoria da qualidade de vida das populações, e uma melhoria da eficácia dos planos de saúde nos vários níveis dos cuidados de saúde (primários – ex.: centros de saúde; secundários – ex.: hospitalares; terciários – ex.: cuidados integrados).

No nosso país, pouco tem sido este investimento que se tem centrado sobretudo nos cuidados médicos, sendo estes (ainda na sua maioria), aqueles que são contabilizados para o financiamento das EPE, não se valorizando os atos ou consultas de Enfermagem, de uma forma geral.

Também os profissionais de Enfermagem, nos seus diferentes graus de diferenciação, não têm sido aproveitados no seu máximo potencial, como até foi possível constatar na carreira que vigorou entre 2010 e 2018, e na qual o Enfermeiro Especialista desapareceu, contrariando toda a evidência clínica internacional.

Ora, cerca de duas décadas de desmotivação e desvalorização profissional, culminaram com um período pós-pandémico de sobrecarga de trabalho, exaustão emocional e sofrimento ético, que em muito tem contribuído para empurrar os Enfermeiros para a demissão da profissão, nem que seja silenciosa.

Demissão silenciosa na Enfermagem – quando a exaustão diminui a empatia

A Enfermagem constitui-se como mais do que uma profissão, como uma disciplina centrada no cuidar ao Outro. É uma profissão exigente ao nível do conhecimento técnico-científico (pela sua necessária e constante atualização), mas particularmente exigente, porque procura corresponder aquelas que são as necessidades do Outro, tendo em conta as suas dimensões bio-psico-social.

Sendo que a principal característica da demissão silenciosa é o re-centramento do profissional em si e não no Outro, aquilo que se constata é uma consequente diminuição de empatia sobre a situação do Outro, ferramenta fundamental para a prática da Enfermagem.

Por outro lado, os profissionais centram-se no seu próprio crescimento pessoal, desprezando o seu crescimento em equipa, minando assim aquele que tem sido o principal método de trabalho, não estando também, nalguns casos, disponíveis para assumir e desempenhar funções de formação de pares, ou ocupar lugares de liderança, uma vez que estes não são comumente remunerados ou ressarcidos, e representam trabalho acrescido.

Intervenção urgente – uma emergência

Não existe solução milagrosa e claramente que vivemos uma questão geracional cujos impactos reais ainda estamos longe de ver, mas que nos deve preocupar a todos no futuro.

É certo, porém, que não existe saúde sem cuidado e não existe cuidado sem Enfermagem, e se por um lado a falta de Enfermeiros é vista como problemática, por outro lado, várias têm sido as pressões para esvaziar a profissão do seu conteúdo funcional (pelo menos em parte), e assim limitar a sua necessidade.

Da mesma maneira, é hoje, mais do que nunca necessário, que os Enfermeiros se consciencializem que o foco da sua ação é o outro e as suas necessidades, e que a sua profissão é exigente dentro e fora do horário de trabalho. Contudo, as instituições necessitam de reconhecer também que os limites às horas trabalhadas são fundamentais e devem ser cumpridas, não só por uma questão de segurança nos cuidados, mas também para poderem obter uma maior e melhor produtividade dos seus profissionais.

Por último, são necessárias políticas sérias que otimizem o papel das diferentes profissões na área da saúde, reconhecendo áreas de skill-mix entre elas, contrariando a pressão dos lobbies, mas promovendo aquilo que as pessoas precisam: mais e melhores cuidados de saúde aos diferentes níveis de atuação.

Acidente Vascular Cerebral: ligue 112 para salvar vidas

Acidente Vascular Cerebral: ligue 112 para salvar vidas

O AVC agudo é uma emergência médica, sendo todos os minutos fundamentais para o seu tratamento. Perante sinais e sintomas de AVC (alterações da Fala, Face e/ou Força) é fundamental ligar 112. Só assim se consegue garantir o acesso ao tratamento adequado no menor espaço de tempo possível.

O Acidente Vascular Cerebral (AVC) continua a ser uma das principais causas de mortalidade e incapacidade em Portugal. Nos últimos anos tem-se observado um esforço na organização dos cuidados pré e intra-hospitalares, de forma a proporcionar os cuidados adequados o mais rápido possível.

Por cada minuto de isquemia cerebral (ausência ou deficiência no suprimento de sangue no cérebro) morrem milhões de neurónios, sendo fundamental reduzir o tempo desde o início dos sintomas até ao início do tratamento.

O tratamento do AVC evoluiu de forma significativa nos últimos anos, com o desenvolvimento do conhecimento fisiopatológico e o aparecimento de novas terapêuticas.

Para otimizar o tratamento das pessoas com AVC agudo foi criada a Via Verde AVC, que tem como objetivos aumentar o número de pessoas tratadas, melhorar o conhecimento da população sobre os sinais de alerta, promover a utilização do número nacional de emergência (112) e garantir uma melhor acessibilidade ao local mais adequado para o tratamento.

Ao ligar 112 em caso de suspeita de AVC, o Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) envia os meios de socorro adequados para o local. Estes profissionais efetuam a avaliação inicial e iniciam os cuidados de estabilização, em caso de necessidade. Entram posteriormente em contacto com o CODU para transmitir os sinais e sintomas, hora de início dos mesmos, antecedentes pessoais e outras informações clínicas relevantes.

Com base nestes dados o CODU identifica o hospital mais próximo, com os meios adequados para o tratamento, e entra em contacto com o mesmo para se efetuar a decisão de ativação da Via Verde AVC. Ativando-se a Via Verde AVC o doente é transportado a esse hospital, tendo os profissionais de saúde à sua espera e preparados no momento em que chega.

Ligando o número 112 em caso de suspeita de AVC, é feito o encaminhamento para o hospital mais próximo com capacidade para dar resposta, conseguindo-se assim diminuir de forma significativa o tempo desde o início do AVC até ao início do tratamento.

Este tratamento pode ser efetuado através da administração de um medicamento por via endovenosa (trombólise) ou através da realização de cateterismo das artérias cerebrais (trombectomia). O tratamento por via endovenosa só pode ser realizado nas primeiras 4-5 horas após o início dos sintomas, salientamos assim uma vez mais a importância do fator tempo.

Se a pessoa apresentar dificuldade em falar (Fala), boca ao lado (Face) e/ou falta de força num membro (Força), deve suspeitar de AVC e ligar o mais rapidamente possível para o 112. Só assim será possível minimizar os efeitos desta doença devastadora.

O estudante de Enfermagem e a construção da identidade profissional

O estudante de Enfermagem e a construção da identidade profissional

A construção da identidade profissional, constitui-se como um processo amplo e que se desenvolve ao longo de toda a vida dos indivíduos, começando ainda antes da frequência da formação inicial pela construção de representações da profissão, decorrentes da trajectória de existência de cada indivíduo. Este processo, que se há de prolongar posteriormente intensifica-se e complexifica-se substancialmente ao longo do Curso de Licenciatura em Enfermagem (CLE), não se cingindo aos contextos e tempos formais de aprendizagem, mas resultando da experiência de vida de cada estudante. Desta forma, factores como as representações sociais sobre a profissão e a imagem que os próprios profissionais constroem e projectam de si mesmos são importantes, a par das opções estratégicas de cada indivíduo, na escolha do CLE.

Na análise dos processos subjacentes à construção da identidade profissional pelos futuros enfermeiros, torna-se fundamental compreender o impacto da origem dual (médica e conventual) da profissão, tendo esta sido uma atividade historicamente construída através da execução de tarefas exogenamente determinadas, cenário este que foi gradualmente mudando desde as últimas décadas do séc. XX em direção a uma profissão socialmente valorizada, auto regulada e cuja formação inicial está solidamente ancorada no Ensino Superior.

Como qualquer outra profissão, a enfermagem é significativamente influenciada pela sociedade que serve e em que se insere. O contexto social modela as atitudes da sociedade face aos enfermeiros e influencia também os indivíduos que optam pela profissão de enfermagem. Assim, os estudantes de enfermagem são afectados pela imagem da enfermagem reflectida pelos media, e pela experiência de vida que têm em meios em que existem enfermeiros e na eventual relação com os próprios enfermeiros.

Vários estudos realizados com estudantes de enfermagem relevam o facto de a opção pela frequência do curso estar fundamentalmente relacionada com o desejo de realizar uma carreira profissional, que possa dar resposta a uma “vocação assistencial” relacionada com a ajuda ou o cuidado a outros, e o gosto pelas relações humanas ainda que, aparentemente de uma forma contraditória, as suas escolhas profissionais iniciais se centrem habitualmente nos locais de prestação de cuidados onde domina o primado da tecnologia.

A par da atitude de natureza altruísta inerente à prestação de ajuda, constata-se também por parte dos futuros profissionais em enfermagem, a procura de uma atividade dinâmica e diferenciada, que proporcione recompensas pessoais e profissionais. A par destas motivações, os potenciais estudantes antecipam o facto de a enfermagem proporcionar uma ampla experiência de diversidade de contextos profissionais e áreas de atuação, sem, no entanto, ter de mudar de carreira.

Em estudos que pretendiam entender as atitudes de um grupo de estudantes de enfermagem, relativamente aos estereótipos de género e da enfermagem contatou-se que as suas representações identificavam a existência de estereótipos próximos daqueles elencados na literatura, nomeadamente a ideia da enfermeira como “anjo”, “ajudante”, “machado de guerra”, ou “objeto sexual”. Os estudantes sentiam igualmente que estas imagens desagradáveis e distorcidas da profissão conduziam a uma diminuição da sua credibilidade face ao público em geral, auto atribuindo-se a tarefa de melhorar a imagem social da profissão.

A investigação sobre os processos de socialização dos estudantes tem também demonstrado que a sua identidade profissional vai sofrendo transformações ao longo do curso. Assim, no início da formação predomina uma imagem da profissão algo idealista, em alguns casos mesmo idílica, revelando uma imagem marcada da enfermeira apaixonada pelo seu trabalho, centrada no outro, dedicada e benevolente, que passa a coexistir nas últimas fases do curso com elementos mais realistas ao se aperceberem dos constrangimentos que a vida profissional lhes vai impor.

Não obstante haver, atualmente, produção relevante de conhecimento sobre os processos de socialização de estudantes nas áreas das Ciências da Saúde em geral e da Enfermagem em particular, aponta-se como área potencial de desenvolvimento da investigação o estudo comparativo dos processos de socialização dos indivíduos nos períodos de formação inicial, nas diversas disciplinas nas ciências da Saúde. Seria bastante interessante perceber que semelhanças, diferenças ou especificidades existem entre os diversos processos formativos dos profissionais nas diferentes profissões no domínio da prestação de cuidados de saúde. Tal conhecimento, em última análise, poderia fortalecer uma identidade comum, que não colocaria em causa as respetivas idiossincrasias, mas que se poderia traduzir na prestação de cuidados de maior qualidade e mais centrados no utente.

Cuidar da pessoa vítima de trauma: a formação como o mapa do tesouro

Cuidar da pessoa vítima de trauma: a formação como o mapa do tesouro

O trauma encerra um fenómeno com uma incidência epidemiológica significativa, sendo a principal causa de morte e incapacidade até aos 40 anos de vida na maioria dos países desenvolvidos (American College Surgeons, 2018). A evidência científica apresenta uma distribuição trimodal, três picos, da morte associada a este fenómeno. O primeiro pico situa-se nos primeiros minutos após o evento traumático. O segundo pico, variável entre minutos a horas após o trauma sendo que, o terceiro pico poderá ocorrer dias ou semanas após o trauma, por sépsis e falência multiorgânica. Pelo descrito, impera a necessidade de dotar os profissionais de saúde com um corpo de conhecimento próprio e dirigido a uma intervenção eficaz.

Em concreto, a Society of Trauma Nurses (2013) e a Emergency Nurses Association (2015) defendem uma intervenção de enfermagem sistematizada numa avaliação primária e secundária da pessoa vítima de trauma. A avaliação primária consiste no reconhecimento precoce de lesões com potencial de risco de vida imediato, respetiva intervenção e reavaliação. Esta avaliação deve ser efetuada rapidamente, utilizando a mnemónica ABCDE: (A) Via aérea, (B) Ventilação, (C) circulação, (D) Disfunção neurológica e (E) Exposição. A avaliação secundária decorre após a avaliação primária estar concluída e após terem sido instituídas as medidas de reanimação necessárias. Compreende um exame físico céfalo-caudal detalhado, identificando todas as possíveis lesões presentes, em conjunto com outros exames completares de diagnóstico e histórica clínica da pessoa.

A formação poderá ser um mapa a seguir para o tesouro da sobrevivência da pessoa vítima do trauma, fazendo aqui nota a uma oferta existente no panorama nacional. O ATCN® (Advanced Trauma Care for Nurses) é um programa de ensino pós-graduado para enfermeiros que pode decorrer em simultâneo com o ATLS® (Advanced Trauma Life Support, for Doctors), oferecendo a vantagem de formar em conjunto profissionais de saúde que trabalham de forma sinérgica para cuidar das necessidades da pessoa, enaltecendo as competências específicas de cada um e desenvolvendo uma comunicação em saúde que se deseja eficiente e otimizada.

Referências

American College of Surgeons (2018). Advanced Trauma Life Support (ATLS). Chicago: American College of Surgeons.

Emergency Nurses Association (2015). Trauma Nursing Core Course. Schaumburg: Emergency Nurses Association.

Society of Trauma Nurses (2013). ATCN – Advanced Trauma Course for Nurses – Manual do Curso de Alunos. Lexington: Society of Trauma Nurses.