Gestão clínica do doente VIH-1: Desafios atuais

Gestão clínica do doente VIH-1: Desafios atuais

Texto no âmbito do HIV CARE 2022, 6 de maio de 2022, 18h00

Atravessamos tempos de nova(s) pandemia(s), novos desafios diários na área das doenças infeciosas. E, no entanto, a infeção pelo vírus da imunodeficiência humana (VIH), já nosso conhecido há mais de 40 anos, continua a existir, a transmitir-se e a ocupar parte significativa dos nossos esforços diários na atividade clínica e a consumir recursos em saúde. Surgem ainda alguns diagnósticos tardios, levando a pensar que a pandemia COVID-19 pode ter afastado algumas destas pessoas de procurarem cuidados mais cedo. Apesar de não dispormos ainda de uma vacina eficaz nem de um tratamento curativo para o VIH, dispomos hoje em dia de armas terapêuticas tão boas como nunca tivemos antes. Os desafios que hoje enfrentamos na gestão clínica das pessoas que vivem com infeção VIH são certamente diferentes dos de há dois anos, de há dez ou de há mais anos atrás.

A edição de 2022 do HIV CARE, teve como tema do primeiro painel de discussão a “Gestão clínica do doente VIH-1: desafios atuais”. Com moderação do Professor Doutor Vitor Duque, participaram a Dr.ª Maria José Manata, a Enfermeira Catarina Esteves e a Farmacêutica Dr.ª Filipa Varela, permitindo assim trazer à discussão a perspetiva dos vários profissionais envolvidos nesta gestão clínica.

De facto, a evolução do conhecimento associado a esta infeção, bem como a evolução das terapêuticas disponíveis, permitem-nos dar praticamente como adquirida a possibilidade de atingirmos a supressão viral em praticamente todos os doentes. É, portanto, necessário olharmos além disso, e abarcar também outros aspetos que interferem na saúde e na qualidade de vida dos nossos doentes. Se é verdade que para alguns destes os próprios doentes nos chamam a atenção, para outros, como as doenças psiquiátricas, é necessário estar alerta e questionar o doente. Por vezes alterações somáticas podem surgir como uma manifestação da depressão e o próprio doente pode não ter perceção disso.

A pandemia COVID-19 e os cuidados aos doentes VIH

Tudo isto, quando atravessámos e atravessamos ainda uma outra pandemia, que mobilizou recursos quase à exaustão e arriscou fazer regredir o nível de cuidados prestados noutras doenças. No caso da infeção VIH, a Dr.ª Maria José Manata destacou como uma das grandes mudanças trazidas por esta nova pandemia o recurso às teleconsultas. Surgiram como uma resposta para as limitações impostas pela necessidade de confinamento, mas vão provavelmente continuar a ser úteis. Neste como noutros aspetos da prática clínica, esta nova pandemia veio ensinar-nos ou relembrar-nos de como podemos usar ferramentas que em muitos casos já tínhamos ou são de fácil implementação. Para doentes estáveis, com vida ativa, a utilização da telemedicina simplifica a vida ao doente e encurta distâncias. Numa área em que a relação de confiança da equipa médica com o doente é fundamental, ao fim de algum tempo já conseguimos identificar com alguma facilidade os doentes que beneficiam e podem fazer teleconsulta. A utilização simultânea de comunicação vídeo, e não só do telefonema, pode ser uma mais valia para melhorar a comunicação não verbal e minimizar perdas de comunicação. Devemos encarar estas ferramentas como algo útil, que, não substituindo as consultas presenciais, servem como um complemento.

Outro aspeto destacado foi que, apesar dos constrangimentos pandémicos, globalmente temos conseguido encurtar cada vez mais o tempo entre o diagnóstico da infeção VIH e o início da terapêutica antirretroviral (TAR). Esse é um imperativo cada vez mais premente, já que o conceito de U=U (indetetável igual a não transmissível) torna fundamental a rápida redução da carga viral; este desidrato, visto por um lado como uma medida de saúde pública, traz também um benefício direto para o doente, que ganha uma motivação adicional para fazer o tratamento, sabendo que com isso deixa de ser uma possível fonte de transmissão para outros.

Para o rápido início da terapêutica após o diagnóstico  ser possível muito têm contribuído os mais recentes regimes de TAR, com elevada barreira genética, permitindo o início ainda antes do conhecimento do resultado do teste de resistência, sem necessidade de aguardar pelo teste HLA, de posologia simples e com boa tolerabilidade a longo prazo, já que ao começarmos mais cedo o tratamento, que contribui para uma esperança de vida sobreponível ao das pessoas não infetadas, esperamos que esse maior número de anos sob medicação sejam anos com qualidade de vida.

A infeção VIH e a saúde mental do doente

Estes tempos tiveram também impacto na saúde mental dos doentes.

Num breve depoimento gravado em vídeo, a Dr.ª Susana Almeida, psiquiatra, lembrou que as pessoas que vivem com VIH têm globalmente maior prevalência de doenças psiquiátricas. A depressão é a mais prevalente, e, quando presente, prejudica a própria evolução do VIH.  A Enfermeira Catarina Esteves destacou o aumento de sintomas de ansiedade e depressão, mas também o consumo de tabaco, de álcool e mesmo de outras drogas durante este período.

A este propósito, foi discutida a preocupação com a existência de barreiras de comunicação e a dificuldade intrínseca em avaliar e medir “saúde mental”; é fundamental socorrermo-nos de pequenas ferramentas, questionários que nos permitam identificar sintomas por vezes subtis. Ferramentas como os PROs (Patient Reported Outcomes) podem ser um importante contributo na avaliação da qualidade de vida do doente. A melhor pessoa para dar feedback da sua qualidade de vida é o próprio doente. Os PRO permitem avaliar e medir este feedback. Ajudam também a quebrar barreiras na comunicação que possam existir quando se fala de saúde mental. São ainda úteis para se perceber o impacto das medidas terapêuticas implementadas. As duas maiores dificuldades identificadas nesta área foram a falta de tempo nas consultas e a dificuldade que por vezes temos quando se identifica um problema e é depois necessária a existência de resposta especializada com celeridade, uma vez que muitas vezes os problemas identificados ultrapassam as competências do médico que segue o doente pela infeção VIH. A solução apontada passa pelo trabalho em equipa, numa lógica de tarefas bem definidas, centrado no doente e com uma boa articulação entre os vários membros da equipa.

Estratégias para melhorar a adesão à terapêutica

Todos estes fatores acabam por influenciar, depois de iniciado o tratamento, a adesão ao mesmo, fundamental para o seu sucesso.

A adesão à terapêutica numa doença crónica foi apresentada como um problema multifatorial: devem ser consideradas as questões associadas ao tratamento (estes problemas foram sendo resolvidos, temos hoje tratamentos com menos comprimidos, menos restrições alimentares, menos toxicidade, quase sem interações medicamentosas); associadas à doença (mais difícil intervir: nas fases precoces da doença podem não surgir sintomas e como tal o doente não sente necessidade de tomar medicação porque não se sente doente, estigma, isolamento, depressão associada), associadas ao doente, sendo nestas que devemos centrar a nossa atenção. Perante dificuldades financeiras ou dificuldade em deslocar-se para ir ao Hospital, pode ser útil a consulta e o fornecimento descentralizado de medicação; podemos tentar aumentar a literacia em saúde dos nossos doentes, permitindo uma melhor compreensão da sua doença e intervenções terapêuticas, bem como ajudar a cercear o cansaço terapêutico que naturalmente surge com tratamentos prolongados. Aquela que foi identificada como a situação mais difícil de gerir em termos de adesão foi a do doente em negação – o doente que diz que toma sempre a medicação, mas não bate certo com os levantamentos nem com os resultados analíticos. A Dr.ª Filipa Varela descreveu a implementação de Consulta Farmacêutica no hospital de Setúbal, como parte da estratégia de trabalho em equipa para melhorar a adesão. Esta pode ser uma mais valia, por exemplo, nos doentes naïve, em que tudo é novidade e as dúvidas que assolam o doente são mais do que as certezas. Outro aspeto dessa integração da farmácia hospitalar nos cuidados ao doente passa pela monitorização da adesão através dos levantamentos e discussão regular em reunião dos problemas detetados. Com novos esquemas muito potentes, pequenas falhas não têm necessariamente repercussão na carga viral, e problemas de adesão só podem ser detetados precocemente se existir esta articulação entre os serviços farmacêuticos e os clínicos.

Pequenas medidas, grande impacto?

Foi ainda discutido o impacto que a nova apresentação da embalagem de Biktarvy® em blister pode ter na adesão terapêutica do doente VIH-1.

Foram identificadas pelo painel de discussão como mais valias desta nova apresentação: a possibilidade de, em cada dia, o doente poder sempre confirmar se já tomou ou não o comprimido; maior facilidade de transporte, de forma mais discreta; associadamente, menos estigma, pois a maioria dos fármacos para tratar outras doenças vem em blister.

Parece assim tratar-se de uma mudança bem-vinda e que pode ser mais um pequeno passo para melhorar a vida das pessoas com infeção pelo VIH-1.

Referência:

RCM Biktarvy, junho 2022

Vídeo da sessão do HIV CARE 2022, 6 de maio de 2022 disponível em www.gileadpro.pt ou disponível a pedido.

Gilead Sciences, Lda., Atrium Saldanha, Praça Duque de Saldanha nº 1 – 8º A e B, 1050‐094 Lisboa Portugal, Tel.: 21 792 87 90 –Nº de contribuinte: 503 604 704, Informação Médica através do nº verde 800 207 489 ou departamento.medico@gilead.com. Poderá comunicar informação de segurança, incluindo acontecimentos adversos a medicamentos ou situações especiais (ex. gravidez, má utilização, erros de medicação, utilização fora das indicações aprovadas, falta de efeito/eficácia) à Gilead Sciences por telefone, ou correio eletrónico para portugal.safety@gilead.com e/ou ao INFARMED através de http://www.infarmed.pt/web/infarmed/submissaoram PT-BVY-0404 Data de preparação: agosto 2022

INFORMAÇÕES ESSENCIAIS COMPATÍVEIS COM O RESUMO DAS CARACTERÍSTICAS DO MEDICAMENTO

▼Este medicamento está sujeito a monitorização adicional. Isto irá permitir a rápida identificação de nova informação de segurança. Pede-se aos profissionais de saúde que notifiquem quaisquer suspeitas de reações adversas. Para saber como notificar reações adversas, ver RCM completo.

NOME DO MEDICAMENTO E FORMA FARMACÊUTICA: Biktarvy 50 mg/200 mg/25 mg comprimidos revestidos por película

COMPOSIÇÃO QUALITATIVA E QUANTITATIVA: Cada comprimido revestido por película contém bictegravir sódico equivalente a 50 mg de bictegravir, 200 mg de emtricitabina (FTC) e tenofovir alafenamida fumarato (TAF) equivalente a 25 mg de tenofovir alafenamida. Para informação sobre excipientes, consultar o RCM completo. Indicações terapêuticas: tratamento de adultos infetados com o VIH-1 sem evidência atual ou passada de resistência viral à classe dos inibidores da integrase, à emtricitabina ou ao tenofovir. Posologia e modo de administração: Um comprimido tomado uma vez por dia, por via oral, com ou sem alimentos. Os comprimidos não devem ser mastigados, esmagados ou divididos. Não é necessário um ajuste posológico de Biktarvy em doentes idosos, em doentes com uma depuração da creatinina (ClCr) estimada ≥ 30 ml/min ou em doentes com compromisso hepático ligeiro ou moderado. Não é necessário um ajuste posológico em doentes adultos com doença renal terminal (ClCr estimada < 15 ml/minuto) sujeitos a hemodiálise crónica. No entanto, de uma forma geral Biktarvy deve ser evitado e apenas utilizado nestes doentes, caso se considere que os potenciais benefícios superam os potenciais riscos. Deve-se evitar iniciar-se Biktarvy em doentes com uma ClCr estimada ≥ 15 ml/min e < 30 ml/min, ou < 15 ml/min que não estejam sujeitos a hemodiálise crónica. A utilização de Biktarvy não é recomendada em doentes com compromisso hepático grave. A segurança e eficácia de Biktarvy em crianças com menos de 18 anos de idade não foram ainda estabelecidas. Contraindicações: Hipersensibilidade às substâncias ativas ou a qualquer um dos excipientes. Coadministração com rifampicina e hipericão. Advertências e precauções especiais de utilização: O risco de transmissão sexual não pode ser excluído. Existem dados limitados sobre a segurança e eficácia de Biktarvy em doentes coinfetados pelo VIH-1 e vírus da hepatite C. O TAF é ativo contra o vírus da hepatite B (VHB). A descontinuação do tratamento com Biktarvy em doentes coinfetados pelo VIH e VHB pode estar associada a exacerbações agudas graves de hepatite. A segurança e a eficácia de Biktarvy em doentes com doenças hepáticas significativas subjacentes não foram estabelecidas. Durante a terapêutica antirretroviral pode ocorrer um aumento do peso e dos níveis de lípidos e glucose no sangue. Os análogos dos nucleosídeos e nucleótidos podem, num grau variável, ter um impacto na função mitocondrial. Existem notificações de disfunção mitocondrial em lactentes VIH negativos, expostos in utero e/ou após o nascimento a análogos dos nucleosídeos. Qualquer sintoma de inflamação deve ser avaliado e, quando necessário, instituído o tratamento. Foi notificada a ocorrência de doenças autoimunes (como a doença de Graves e a hepatite autoimune). Os doentes em tratamento com Biktarvy podem continuar a desenvolver infeções oportunistas e outras complicações da infeção pelo VIH. Foram notificados casos de osteonecrose, particularmente em doentes com doença por VIH avançada e/ou exposição prolongada a TA combinada. Não se pode excluir um risco potencial de nefrotoxicidade com Biktarvy. Recomenda-se avaliação da função renal em todos os doentes antes ou aquando do início do tratamento, bem como a sua monitorização durante o tratamento, conforme clinicamente adequado. Doentes que desenvolvam uma diminuição clinicamente significativa da função renal ou evidências de tubulopatia renal proximal, deve considerar-se a descontinuação de Biktarvy. As implicações do aumento da exposição à emtricitabina em doentes adultos com doença renal terminal (ClCr estimada < 15 ml/minuto) sujeitos a hemodiálise crónica tratados com Biktarvy permanecem desconhecidas. Biktarvy não deve ser coadministrado simultaneamente com antiácidos contendo magnésio/alumínio ou suplementos de ferro em jejum. Biktarvy deve ser administrado, pelo menos, 2 horas antes ou com alimentos 2 horas depois de antiácidos contendo magnésio e/ou alumínio. Biktarvy deve ser administrado, pelo menos, 2 horas antes de suplementos de ferro ou tomado juntamente com alimentos. Biktarvy contém menos do que 1 mmol (23 mg) de sódio por comprimido, ou seja, é praticamente “isento de sódio”. Interações medicamentosas e outras formas de interação: O bictegravir é um substrato do CYP3A, da UGT1A1 e da gp-P e da BCRP. Biktarvy não é inibidor ou indutor do CYP in vivo. Biktarvy pode ser coadministrado com substratos do OCT2 e do MATE1. A coadministração de FTC com medicamentos que são eliminados por secreção tubular ativa pode aumentar as concentrações da FTC e/ou do medicamento coadministrado. Os medicamentos que diminuem a função renal podem aumentar as concentrações da FTC. O tenofovir alafenamida é transportado pela gp-P e pela BCRP. O tenofovir alafenamida não é um inibidor ou indutor do CYP3A in vivo. Biktarvy não deve ser administrado concomitantemente com medicamentos contendo tenofovir alafenamida, tenofovir disoproxil, lamivudina ou adefovir dipivoxil utilizados para o tratamento da infeção pelo VHB. Não se recomenda a coadministração de alguns medicamentos com Biktarvy: atazanavir, carbamazepina, ciclosporina (via IV ou oral), oxcarbazepina, fenobarbital, fenitoína, rifabutina, rifapentina ou sucralfato. Biktarvy não deve ser coadministrado com outros medicamentos antirretrovíricos. Recomenda-se precaução quando bictegravir é associado com medicamentos conhecidos por inibirem a gp-P e/ou a BCRP (p. ex., macrólidos, ciclosporina, verapamilo, dronedarona, glecaprevir/pibrentasvir). Efeitos indesejáveis: RA frequentes: depressão, sonhos anormais, cefaleias, tonturas, diarreia, náuseas e fadiga; RA pouco frequentes: anemia, ideação suicida, tentativa de suicídio (particularmente em doentes com história preexistente de depressão ou doença psiquiátrica), ansiedade, perturbações do sono, vómitos, dor abdominal, dispepsia, flatulência, hiperbilirrubinemia, angioedema, erupção cutânea, prurido, urticária e artralgia; RA raros: síndrome de Stevens-Johnson. Foi demonstrado que o bictegravir aumenta a creatinina sérica devido à inibição da secreção tubular da creatinina, no entanto, estas alterações não são consideradas como sendo clinicamente relevantes, uma vez que não refletem uma alteração da taxa de filtração glomerular. O perfil de segurança de Biktarvy em doentes adultos coinfetados pelo VIH/VHB foi semelhante ao de doentes com monoinfeção pelo VIH-1. Para mais informação, consultar o RCM completo disponível em: https://www.ema.europa.eu/en/medicines/human/EPAR/biktarvy. Data de aprovação do RCM: junho 2022

▼Após a aprovação da Autorização de Introdução no Mercado, este medicamento encontra-se sujeito a monitorização adicional, conforme indicado pela presença deste triângulo preto invertido. Quaisquer suspeitas de reações adversas ao Biktarvy devem ser notificadas à Gilead Sciences, Lda., via e-mail para portugal.safety@gilead.com ou telefone para +351217928790 e/ou ao INFARMED, I.P., através do sistema nacional de notificação, via e-mail para farmacovigilancia@infarmed.pt ou telefone para +351217987373.

Para mais informações deverá contactar o titular da autorização de introdução no mercado.

MEDICAMENTO DE RECEITA MÉDICA RESTRITA, DE UTILIZAÇÃO RESERVADA A CERTOS MEIOS ESPECIALIZADOS.

MEDICAMENTO COM AVALIAÇÃO PRÉVIA CONCLUÍDA AO ABRIGO DO ART.º 25º DO DECRETO-LEI N.º 97/2015 DE 1 DE JUNHO PARA A APRESENTAÇÃO DE 30 COMPRIMIDOS EM BLISTER.

 

Formação médica: Que papel para a Ordem dos Médicos?

Formação médica: Que papel para a Ordem dos Médicos?

A formação médica, no seu sentido mais amplo, incluindo a pré e a pós-graduação, é o pilar básico de qualquer sistema de saúde que se quer robusto, com médicos preparados para enfrentar os desafios que a Medicina moderna exige, sendo composta por um ciclo de formação pré-graduado nas Escolas Médicas e pós-graduado, que se inicia com o Internato Médico e se prolonga ao longo da vida do médico, através de programas de formação contínua.

É fundamental ter a noção clara que vivemos momentos extremamente desafiantes para a Formação Médica do Futuro. O desenvolvimento tecnológico explosivo, aliado ao emergir de novas áreas, como a inteligência artificial, a saúde digital e a consequente transformação digital, a importância e impacto das alterações climáticas e qualidade do ar, o envolvimento cada vez maior dos médicos na Gestão em Saúde, entre outros temas que irão marcar a formação do Médico do Século XXI, com impacto major na Medicina do Futuro, deverão estar bem presentes no planeamento do futuro da Formação Médica. A Ordem dos Médicos, neste contexto, deve afirmar-se como o garante e a referência para uma formação médica do mais elevado nível, naturalmente respeitando a autonomia institucional das organizações envolvidas na formação médica, como Universidades, Institutos e outras.

A articulação com as Faculdades de Medicina e as Associações de Estudantes deverá ser reforçada, de forma a garantir o necessário e desejável alinhamento de objetivos e conteúdos. A criação da Plataforma para a Formação Médica em 2019, resultou dum acordo entre a Ordem dos Médicos, o Conselho de Escolas Médicas Portuguesas (CEMP) e a Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM). Foi então assinado um memorando de entendimento (na altura firmei esse acordo, enquanto Presidente do CEMP) onde se assumiu uma posição de consenso e convergência para posições que visam defender a qualidade da educação médica e da prestação de cuidados de saúde em Portugal. Esta Plataforma tem como objetivos principais discutir, planear, representar e gerir, de forma sustentável, orientada pela qualidade, excelência e humanismo, a formação dos estudantes de Medicina, Médicos Internos e Profissionais de Saúde especializados e capacitados. É, pois, fundamental dinamizar esta plataforma, tornando-a mais eficaz, respeitada e visível, de forma que possa assumir um papel dinamizador e de referência na Formação Médica em Portugal. Os seguintes objetivos devem ser prosseguidos de forma inequívoca: 1. Defender a qualidade da educação médica e da prestação de cuidados de saúde em Portugal, assegurando que os estudantes de Medicina, os Médicos Internos, os Médicos Especialistas e qualquer profissional Médico adquire a formação necessária para prestarem cuidados de excelência; 2. Colaborar na prossecução de objetivos comuns em matérias transversais à atuação das respetivas entidades nos domínios da Educação Médica, Política Educativa e Políticas de Saúde; 3. Consensualizar, coordenar e representar os estudantes de Medicina, as Escolas Médicas e os Médicos em Portugal nas ações e posições em matérias comuns, junto das diferentes entidades da esfera pública.

A formação médica será, pois, uma das minhas prioridades à frente da Ordem dos Médicos, onde irei fazer uso da minha vasta experiência, com provas dadas, quer à frente duma Faculdade de Medicina, quer como Diretor dum grande Departamento hospitalar ou como dirigente máximo de vários organismos internacionais ligados à formação médica. É fundamental esta experiência para permitir desenhar programas que sejam bem-sucedidos e que permitam reforçar a Formação Médica em Portugal, elemento essencial para qualquer sistema de saúde ser bem-sucedido.

Liderança médica

Liderança médica

Quando entrei para o curso de Medicina, no início dos anos 70, o meu irmão já era médico. O que me atraía, e o que ainda hoje atrai todos os jovens que escolhem esta vocação, era poder ajudar outras pessoas do ponto de vista do seu bem-estar.

Em mais de quatro décadas de profissão, fortaleci esta convicção: o sucesso das equipas médicas, dos serviços de saúde e da evolução dos nossos doentes depende da nossa capacidade de liderança. Mas algo externo a nós está a falhar. Temos sido confrontados com cada vez maiores responsabilidades e cada vez menor poder de decisão. As nossas escolhas, mesmo de ordem clínica, foram sendo entregues a terceiros, por via administrativa, ou incorporados noutros níveis de decisão – não raras vezes sem qualquer escrutínio médico competente.

Esta diluição paulatina e impercetível da liderança médica é um dos nossos mais importantes constrangimentos funcionais e tem consequências negativas para os serviços e para os próprios doentes. Há que reverter esta situação, para incentivar os médicos e revitalizar os serviços.

No interesse dos doentes e da população em geral, a liderança médica tem de extravasar o domínio clínico e técnico. Deve estender-se à gestão da saúde – que não pode ser entregue apenas a licenciados em gestão ou administração. Há excelentes exemplos de Centros Hospitalares geridos por médicos, que otimizam recursos, capacitam e motivam pessoas, estimulam equipas e integram a inovação para melhorar a oferta e a qualidade da prestação de cuidados. Defendo que só assim, com os médicos no centro da gestão, se garantem resultados, assegurando a sustentabilidade do Sistema de Saúde.

Para isso, é essencial um esforço concertado: incluir estas matérias nos currículos dos cursos de Medicina, insistir numa oferta ampla de formação médica contínua ao longo da vida e propor legislação que priorize os médicos com formação específica. Estas são ideias que estão na base da minha candidatura à Ordem dos Médicos.

Juntos, somos mais fortes. Com a evolução do conhecimento, a diversidade e especificidade tecnológica e a disparidade e singularidade das aptidões necessárias aos Cuidados de Saúde, com o envelhecimento populacional e o consequente crescimento das doenças crónicas não transmissíveis, comorbilidades e polifarmácia, a atitude profissional deve ser colaborativa, com o contributo de várias especialidades médicas e de outros profissionais de saúde. Para isso, os líderes médicos têm de estar dotados com saberes e atitudes, que, além das essenciais ciências biomédicas, incorporem as áreas comportamental, social e comunicacional. A liderança define-se por esta visão global e abrangente de todo o processo. Nada do que aqui é dito se cumpre sem o médico.

A MELHOR HIGIENE ORAL

A MELHOR HIGIENE ORAL

Uma higiene oral adequada está diretamente ligada a uma correta remoção do biofilme, através da qual é possível prevenir lesões de cárie e doenças periodontais. O método mais utilizado é a escovagem dentária com escova e pasta de dentes

Segundo o barómetro da saúde oral de 2021 da Ordem dos Médicos Dentistas, 76,2% afirma escovar os dentes pelo menos duas vezes por dia. No entanto, a maioria dos pacientes não escova o tempo suficiente, nem aplica a técnica e pressão correta com a escova.

As escovas mais utilizadas são a manual e a elétrica. A escova manual é um dispositivo simples que é facilmente aceite e acessível para a maioria das pessoas. A escova elétrica foi desenvolvida com o objetivo de melhorar e facilitar a higiene oral dos pacientes.

A literatura não tem sido consensual relativamente à escova mais eficaz. Alguns autores referem que não há dados suficientes no que refere à superioridade de uma escova eléctrica quando comparada com outro a escova manual. Isto pode ser explicado pelo facto, de quando avaliamos a eficácia da escovagem, é necessário considerar que, para além das características da escova, a técnica utilizada por cada pessoa também pode influenciar a remoção da placa bacteriana.

Por outro lado, diversos estudos realizados nos últimos três anos, mostram que a escova elétrica é mais eficaz na remoção da placa bacteriana e da gengivite. Elkerbot e colaboradores em 2019 concluíram que a remoção da placa bacteriana é de 42% para a escova de dentes manual e de 46% para a escova de dentes elétrica. E, em 2021, Ccahuana-Vasquez e colaboradores referem que a vibração da escova elétrica reduz significativamente a presença de placa bacteriana e consequentemente, a inflamação gengival, quando comparada com a escova manual.

Ambos são métodos de escovagem eficazes, se utilizados com a técnica de escovagem correta, existindo uma pequena mas significativa diferença nos resultados dos recentes estudos a favor da escova elétrica. Independentemente do modo de ação, a escova elétrica é mais eficaz na redução da placa bacteriana quando comparada à escova manual, sendo que a vibração e o número de movimentos por minuto podem ser uns dos motivos pelos quais esta é mais eficaz.

Vantagens da Escova Elétrica:

  1. Tamanho das cerdas – são menores, o que permite chegar a partes dos dentes que as escovas não conseguem;
  2. Fácil utilização;
  3. Vários modos de escovagem;
  4. Sensor de pressão;
  5. Temporizador;
  6. Lembretes para substituir cabeça da escova (modelos mais recentes).

A escova eléctrica pode ser utilizada por qualquer pessoa, mas normalmente é recomendada para situações específicas, tais como, pacientes com pouca destreza manual, com aparelho ortodônticos e com dificuldades em manter um bom controlo de placa bacteriana, pacientes com sinais de escovagem traumática ou que estejam poucos motivados para os hábitos diários de higiene oral.

Relembre-se que a escolha da escova mais adequada para cada pessoa depende de uma série de fatores, como tal, deve aconselhar-se com o seu higienista/médico dentista sobre qual será a mais indicada para as suas necessidades.

Ecocardiografia de esforço no Heart Center do HCV

Ecocardiografia de esforço no Heart Center do HCV

No estudo da patologia cardiológica, a ecocardiografia tem adquirido papel preponderante, permitindo o acesso a informação de carácter morfológico e funcional, cada vez mais pormenorizado e exaustivo. A informação que obtemos, na maioria dos ecocardiogramas é adquirida com o doente em repouso. Contudo, e sendo embora de enorme valor, não nos permite compreender, de forma completa, o que se passa no aparelho cardiovascular durante a realização de esforço, quando frequentemente ocorrem sintomas em doentes cardíacos.

A utilização de sobrecarga com esforço, com realização em simultâneo de ecocardiografia, permitiu o estudo mais aprofundado de doentes cardíacos, nomeadamente dos portadores de doença coronária aterosclerótica, e, também em muitas circunstâncias, de doentes com patologia valvular, miocardiopatias, cardiopatias congénitas e crianças ou adultos com sintomas de difícil compreensão.

O emprego do esforço como forma de sobrecarga, tal como é frequentemente realizado, enferma de dificuldades várias, que passam pela avaliação efetuada apenas antes e depois do esforço, ou antes e no pico de esforço, ou seja, imediatamente antes de terminar a prova de esforço e não durante todo o exercício. Alguns centros realizam provas de esforço, em simultâneo com ecocardiografia, em cicloergómetros montados em camas especiais ou em bicicleta estática (que usamos no Heart Center quendo o doente não consegue andar em tapete rolante). Contudo, embora o ecocardiograma daí resultante seja efetuado durante o esforço, dificilmente traduz a “atividade de vida” que desencadeia a sintomatologia do doente em estudo. Deste modo considerámos fundamental o desenvolvimento de metodologia que permita, ainda que à custa de maior treino do operador, a realização do ecocardiograma de esforço durante a prova ergométrica, em tapete rolante, com o propósito de obter informação mais fidedigna sobre o que realmente ocorre durante o esforço.

Iniciamos o desenvolvimento desta técnica em 1996 e desde 2014 com uma equipe altamente diferenciada implementamos no Heart Center do Hospital Cruz Vermelha o desenvolvimento e aplicação clínica desta metodologia, em doentes com doença cardíaca coronária e não coronária.

Fomos pioneiros na metodologia e na sua aplicação inovadora em vários campos como por exemplo na pesquisa de gradientes intraventriculares induzidos pelo esforço como causa de angina de peito ou sintomas de esforço em atletas bem como no estudo dos doentes com miocardiopatia hipertrófica.

Efetuámos inúmeras apresentações em reuniões científicas nacionais e internacionais das quais referimos apenas a ultima, já aceite para publicação, que resume toda a nossa experiência:

“Cotrim CA, Café H, João I, Cotrim N, Guardado J, Cordeiro P, Cotrim H, Baquero L. Exercise stress echocardiography: Where are we now? World J Cardiol 2022; In press”

Salientamos como particularmente relevante que a ecocardiografia de esforço permite o estudo dos doentes quer adultos quer crianças, que possam fazer exercício, sem administração de fármacos, mas mais importante ainda sem utilização de radiação dando desta forma um importante contributo para a prevenção primária do cancro:

Redberg R, Smith-Bindman R. We are giving ourselves cancer. The New York Times. Available from: https://www.nytimes.com/2014/01/31/opinion/we-are-giving-ourselves-cancer.html

Foi assim com satisfação orgulho que constatámos que em 2021 e apesar da pandemia realizámos mais de 400 ecocardiogramas de esforço depois de em 2014 termos iniciado a atividade com apenas 36 estudos.

World journal of cardiology

Salientamos ainda que não existe lista de espera para a realização de Ecocardiografia de Esforço no Heart Center do HCV.