Novo estudo mostra como a Cetamina combate a depressão

29 de Maio 2020

O medicamento anestésico Cetamina tem mostrado um efeito rápido no tratamento de depressão difícil de tratar, quando administrada em pequenas doses. Investigadores do instituto Karolinska dizem ter identificado um alvo […]

O medicamento anestésico Cetamina tem mostrado um efeito rápido no tratamento de depressão difícil de tratar, quando administrada em pequenas doses. Investigadores do instituto Karolinska dizem ter identificado um alvo chave para o medicamento: recetores cerebrais de serotonina. A descoberta publicada em Psicologia Translacional traz esperança num novo medicamento antidepressivo.

Depressão é o diagnóstico psiquiátrico mais comum na Suécia, e afeta um em cada 10 homens e uma em cada cinco mulheres em algum ponto das suas vidas. Entre 15 a 30% dos pacientes não notam melhorias depois das primeiras duas tentativas de terapia, nestes casos diz-se que se trata de “depressão difícil de tratar”.

Os estudos mostraram que pequenas doses deste anestésico conseguem tratar rapidamente certos pacientes, mas ainda não se sabe exatamente como. Ainda assim, um spray nasal que contém Cetamina foi aprovado nos Estados Unidos e na União Europeia com o intuito de tratar os casos mais persistentes de depressão.

Os investigadores na Suécia realizaram tomografias ao cérebro dos participantes no estudo para estudarem melhor o tratamento com Cetamina. “Neste que foi o maior estudo de tomografias do mundo, queríamos olhar não só para a magnitude do efeito, mas também perceber se a Cetamina atua pelos recetores 1B de serotonina”, explica o principal autor do estudo Mikael Tiger, investigador no Departamento de Neurociência Clínica do Instituto Karolinska .

“Nós e uma outra equipa de investigação já fomos capazes de mostrar que existe uma baixa densidade de recetores deste tipo nos cérebros de pessoas com depressão”.

Nesta primeira fase do estudo, 30 pessoas com depressão difícil de tratar foram aleatoriamente distribuídas em dois grupos: um foi administrado com uma infusão de Cetamina (20 pessoas), o outro um placebo. Inicialmente nem o paciente ou os médicos sabia exatamente quem estava a tomar o medicamentou ou com a infusão salina (placebo). Os cérebros dos pacientes foram alvo de tomografias antes da administração e entre 24 a 72 horas depois da ingerida a infusão.

Na fase seguinte, os pacientes que se disponibilizassem (29 dos 30 totais) receberiam Cetamina duas vezes por semana. O resultado foi que mais de 70% dos pacientes tratados com Cetamina responderam à droga de acordo com a escala de notação para a depressão.

Baixos níveis de serotonina têm um papel essencial na depressão e os investigadores julgam que possam até estar ligados a doenças mais perigosas. Existem 14 tipos diferentes de receptores para este neurotransmissor à superfície dos neurónios, e nas tomografias foram utilizados marcadores radioativos que se fixam especificamente aos recetores de serotonina 1B. O resultado foi a descoberta de que a Cetamina opera através destes recetores de forma nunca antes vista.

Ao fixar-se ao recetor, a Cetamina reduz a segregação de serotonina, mas aumenta a segregação de dopamina. Esta faz parte do sistema de recompensa do cérebro e ajuda as pessoas na experiência de sentimentos positivos em relação à vida, algo que muitas vezes falta num paciente diagnosticado com depressão.

“Mostrámos pela primeira vez que o tratamento com Cetamina melhora o número de recetores de serotonina 1B”, explica o autor do estudo Johan Lundberg, líder do grupo de pesquisa do departamento de Neurociência clínica no Instituto Karolinska. “A Cetamina tem a vantagem de ser bastante rápida a atuar, mas ao mesmo tempo é um medicamento da classe dos narcóticos que pode culminar no vício. Por isso, vai ser interessante examinar em estudos futuros se o recetor pode ser utilizado por novos medicamentos e mais eficientes, que não tenham este efeito adverso da Cetamina”.

O estudo foi conduzido em associação com a North Stockholm Psychiatry e financiado pelo Conselho de Investigação Sueco, a Fundação Söderström König, o Centro para a Pesquisa Psiquiátrica, a Região de Estocolmo, a Fundação Psiquiátrica Sueca e o Instituto Karolinska.

NR/HN/João Daniel Ruas Marques

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