“Dada a repetida falha das autoridades libanesas em investigar os lapsos graves do Governo e a desconfiança do público nas instituições governamentais, uma investigação independente com especialistas internacionais é a melhor garantia de que as vítimas da explosão receberão a justiça que merecem”, defendeu a investigadora da HRW no Líbano, Aya Majzoub, num comunicado hoje divulgado
A investigação deve determinar as causas e os responsáveis pelas explosões e recomendar medidas para garantir que não voltem a acontecer, refere a HRW.
A organização também considera que o Governo libanês deve garantir que os afetados pelas explosões tenham acesso a alojamento, comida, água e assistência médica adequados, e que a ajuda é distribuída “de forma justa e imparcial”.
Duas fortes explosões sucessivas sacudiram Beirute na terça-feira, causando, pelo menos 137 mortos e mais de cinco mil feridos, segundo o último balanço feito pelas autoridades libanesas.
Até 300 mil pessoas terão ficado sem casa devido às explosões, segundo o governador da capital do Líbano, Marwan Abboud.
O Presidente libanês, Michel Aoun, e o primeiro-ministro, Hassan Diab, disseram que a explosão foi causada por 2.750 toneladas de nitrato de amónio, que é usado como fertilizante e pode ser um ingrediente de bombas.
Segundo adiantaram, o material foi armazenado no porto de Beirute durante mais de seis anos, sem as devidas precauções de segurança, mas as circunstâncias que levaram à explosão do material ainda não foram identificadas.
O Presidente prometeu uma investigação transparente sobre as causas da explosão, garantindo que os responsáveis enfrentariam “punições sérias”.
“O nível de devastação em Beirute é inimaginável e as autoridades responsáveis devem ser responsabilizadas”, afirmou, no comunicado, a investigadora da HRW no Líbano, Aya Majzoub.
O executivo do Líbano decidiu na quarta-feira colocar em prisão domiciliária todos os responsáveis portuários que supervisionavam as instalações de armazenamento desde 2014, mas ainda não foram divulgadas as acusações que enfrentam.
A HRW expressou sérias preocupações com a capacidade de o sistema judicial libanês conduzir uma investigação credível e transparente por conta própria.
Grupos de direitos humanos libaneses e internacionais criticam, há anos, as interferências políticas no poder judicial e a sua falta de independência.
A Human Rights Watch já denunciou casos anteriores nos quais o poder judicial não conduziu investigações independentes sobre alegações de abusos do governo.
Além disso, alguns indícios sugerem que vários juízes sabiam que o nitrato de amónio estava armazenado no porto de Beirute e nunca tomaram medidas.
A destruição do porto de Beirute, que gere 60% das importações do Líbano, levanta também receios à HRW acerca da segurança alimentar do país.
Mesmo antes da explosão, a crise económica sem precedentes no Líbano, agravada pela Covid-19, já tinha destruído mais de 80% do valor da moeda nacional e mergulhado mais de metade da população na pobreza.
Em abril, a HRW avisou que mais da metade da população corria risco de fome, a menos que o Governo estabelecesse um plano coordenado para fornecer assistência, mas nenhuma medida foi apresentada.
O Líbano importa quase todos os seus bens vitais. Imagens de drones da agência de notícias Associated Press mostraram que os silos onde cerca de 85% do trigo do Líbano estavam armazenados foram completamente destruídos.
LUSA/HN
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