Investigadores descobrem porque razão os antirretrovíricos não são eficazes nalguns doentes

16 de Abril 2021

Um novo estudo indica que as proteínas quinases, que iniciam o processo que destrói a imunidade do organismo, contribuem significativamente para a imunodeficiência em pacientes com VIH

Os medicamentos que bloqueiam essas proteínas podem ser a solução para o tratamento de pacientes com VIH cuja imunidade não é restaurada pela terapia antirretrovírica.

As infeções por VIH são tratadas com medicamentos antirretrovíricos que previnem efetivamente o desenvolvimento da doença. Apesar da terapia farmacológica para o VIH ter avançado consideravelmente, o vírus não pode ser totalmente eliminado do corpo com os medicamentos atualmente disponíveis.

No entanto, em cerca de um quinto dos pacientes com VIH, o sistema imunológico não recupera como é esperado: a quantidade de células T CD4, que refletem o estado do sistema imunológico, continua a ser baixa mesmo quando a quantidade de VIH no sangue diminui para níveis muito reduzidos ou mesmo abaixo do limiar de medição. Nesses pacientes, podem ser detetados indícios de ativação imunológica crónica, que destrói o sistema imunológico.

Em cooperação com a Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha, investigadores da Universidade de Helsínquia já tinham demonstrado que a proteína Nef, um fator central associado ao VIH, pode continuar a produção de baixo nível nos tecidos do paciente por muito tempo, mesmo após a replicação viral ser suprimida com sucesso. As vesículas extracelulares geradas pela proteína Nef são importantes para essa atividade de erosão da imunidade,  circulando no sangue e promovendo a ativação imunológica crónica.

Num novo estudo, o grupo de investigação do Prof. Kalle Saksela descobriu um mecanismo intracelular através do qual se inicia a cadeia de eventos associada à ativação imunológica. A investigação foi publicada no “Journal of Virology”.

“As novas descobertas demonstram que a proteína Nef dá início a essa cadeia de eventos prejudiciais por meio da sinalização celular: ativa as proteínas quinases da família Src, o que leva à ativação das proteínas quinases Raf e MAPK. Quando essas duas proteínas quinases são ativadas, inicia-se a produção de vesículas extracelulares, mediada por elas”, explica o investigador.

Os fármacos que inibem as proteínas quinases Src, Raf e MAPK já estão a ser usados clinicamente e os investigadores da Universidade de Helsínquia estudaram também a sua utilidade.

Avaliando os fármacos em culturas de tecidos, observaram que era possível prevenir totalmente a produção de vesículas extracelulares inflamatórias causadas pela proteína Nef.

“As nossas descobertas tornam possível experimentar, sem demora, novas terapias em pacientes cuja imunodeficiência não é revertida, em grau suficiente, pelas terapias antirretrovíricas atuais. O reaproveitamento dos inibidores das proteínas quinases para o tratamento da infeção pelo VIH parece ser uma forma muito promissora de resolver este significativo desafio médico”, afirma o Prof. Saksela.

https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33597213/

Informação bibliográfica completa:

Zhao, Z., Baur, A.S., Fagerlund, R., Saksela, K. HIV-1 Nef-induced secretion of the proinflammatory protease TACE into extracellular vesicles is mediated by Raf-1, and can be suppressed by clinical protein kinase inhibitors. Journal of Virology, 2021. DOI: 10.1128/JVI.00180-21

Edição de Adelaide Oliveira

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