Nova imunoterapia com origem portuguesa está a ser testada nos EUA

16 de Setembro 2021

Uma nova imunoterapia com origem portuguesa está a ser testada nos Estados Unidos em doentes com leucemia mieloide aguda, o cancro do sangue mais agressivo, anunciou na quarta-feira o Instituto de Medicina Molecular (IMM) de Lisboa.

A terapia – que está a ser testada em 28 doentes adultos “previamente tratados com quimioterapia, mas que ainda apresentam células tumorais no seu sangue” – usa um tipo de células imunitárias, as “Delta One T (DOT) cells”, identificadas e caracterizadas pela equipa do imunologista Bruno Silva-Santos, investigador do IMM e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (FMUL).

O ensaio clínico de fase 1, destinado a avaliar a segurança e a tolerância deste novo tratamento celular para o cancro, é promovido pela empresa de biotecnologia britânica GammaDelta Therapeutics, que em 2018 comprou a Lymphact, criada em 2013 a partir do IMM e que realizou os ensaios pré-clínicos.

O financiamento dos testes com doentes, para os quais se esperam os primeiros resultados em dezembro de 2023, é assegurado pela farmacêutica japonesa Takeda.

Depois de comprovada a segurança e tolerância da terapêutica, com doses progressivamente mais elevadas, será testada a sua eficácia com um número mais alargado de doentes em ensaios subsequentes.

À Lusa, Bruno Silva-Santos, que dirige o laboratório de Imunobiologia e Imunoncologia do IMM, instituto onde é vice-diretor, explicou que a terapia com “DOT cells” utiliza células imunitárias (um tipo de células T ou linfócitos T) de dadores saudáveis para matar células imunitárias que são cancerígenas.

“Um dos grandes atrativos de usar este tipo de célula imunitária [DOT cell] (…) é poder produzi-las a partir de dadores saudáveis, criando ‘bancos de células’ para tratar muitos doentes geneticamente diferentes, ambicionando uma imunoterapia celular ‘universal'”, adianta o IMM em comunicado.

Justificando as potencialidades da nova terapêutica, Bruno Silva-Santos disse que a quimioterapia “não tem um efeito curativo tão bom” quanto o desejado para tratar a leucemia mieloide aguda, o “cancro do sangue derivado dos glóbulos brancos [células do sistema imunitário] mais comum e mortal” entre adultos.

No comunicado, o IMM reforça que “apesar de alguns avanços no seu tratamento, a leucemia mieloide aguda continua a ser o tipo de cancro do sangue com pior prognóstico para os doentes, com uma taxa média de sobrevivência aos 5 anos de apenas 25%”.

Em laboratório, a equipa do imunologista Bruno Silva-Santos identificou as “DOT cells”, isolou-as no sangue e descobriu como expandi-las para administrá-las como terapia celular, tendo as células se revelado “eficazes a eliminar o tumor” em ensaios pré-clínicos, com modelos animais.

De acordo com o IMM, a investigação dos cientistas do instituto e da FMUL “demonstrou que, a partir de uma amostra de sangue de dadores saudáveis, era possível produzir biliões de ‘DOT cells’ com grande capacidade de destruir células tumorais de várias origens”, incluindo as que provocam a leucemia mieloide aguda.

Nesta doença, as células mieloides transformam-se, normalmente, num tipo de glóbulo branco imaturo denominado mieloblasto ou blasto mieloide. Os mieloblastos são anormais e não se transformam em glóbulos brancos saudáveis (com capacidade no caso de defender o organismo de células tumorais).

Apesar de não ter uma participação direta no ensaio clínico a decorrer nos Estados Unidos, o Instituto de Medicina Molecular colabora com a empresa GammaDelta Therapeutics no processo e em estudos sobre as “DOT cells”.

LUSA/HN

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