HealthNews (HN)- Um estudo recente, realizado no Reino Unido, alerta que pelo menos dois terços das mulheres não estão a par dos principais sintomas de cancro do ovário. Esta realidade é extrapolável à população portuguesa?
Daniela Macedo (DM)- Penso que sim. Os tumores ginecológicos no geral não são muito conhecidos. São tumores menos frequentes quando comparados com o cancro da mama e, portanto, as mulheres não estão tão despertas para essa sintomatologia.
Por outro lado, a nossa própria cultura de saúde pode explicar essa falta de conhecimento. A população portuguesa não é muito aplicada na vigilância da saúde e a maior parte dos doentes acaba por recorrer aos serviços de saúde em situações mais avançadas.
Considero ainda que a ausência de um método de rastreio, como há no cancro da mama, pode explicar que as mulheres não estejam tão alerta para o cancro do ovário.
HN- Quais os sinais para os quais as mulheres devem de estar mais atentas?
DM- Estes tumores ocupam uma grande parte da cavidade pélvica e, portanto, os sintomas vão depender da localização e da compressão que possam fazer nos órgãos à volta. Ou seja, o cancro do ovário pode provocar: dor abdominal, prisão de ventre, inchaço na barriga, cansaço, queixas ao urinar.
HN- Os dados desta investigação britânica revelaram que 68% ignorava que a sensação de dor no abdómen é um sintoma, 97% desconheciam que sentir-se sempre cheio era um potencial indicador e 99% não pensaria que a sensação de urinar mais vezes poderia ser um sintoma de cancro do ovário. Uma maior aposta na discussão da saúde feminina e da sexualidade nas escolas poderia mudar este cenário de falta de literacia?
DM- Acho que sim. Muitas pessoas associam estas queixas ao foro gastrointestinal. Portanto, penso que a literacia em saúde começa pelos mais novos e uma maior aposta na discussão da saúde feminina e da sexualidade nas escolas seria muito importante.
HN- Estima-se que oito em cada dez casos são descobertos em fase avançada. Em que momento é que as mulheres devem procurar ajuda médica?
A ideia é prevenir a doença. É importante que as mulheres façam consultas de rotina, de maneira a conseguir detetar a doença atempadamente e o mais precocemente possível. Infelizmente, os sintomas são pouco específicos e quando estes sinais aparecem é porque já estamos perante massas grandes que já estão a afetar outros órgãos.
DM- Como classifica o acesso aos tratamentos e medicamentos a nível nacional? Existem limitações?
Não… O que pode ser de mais difícil acesso pode estar relacionado com os testes genéticos. Por outro lado, este tipo de cancro uma taxa elevada de recidiva e, portanto, o desafio passa por perceber o tempo que este tumor demora em recidivar. De qualquer forma, já estão disponíveis no SNS medicamentos dirigidos para a mutação do BRCA.
HN- Até 2035, a incidência mundial prevê um aumento de 55% e que a mortalidade aumente 67%. Ainda estamos a tempo de mudar este panorama? Como?
DM- É claro que a investigação e todas as descobertas dos ensaios clínicos que possam ser desenvolvidos no cancro do ovário vai ter o seu impacto na incidência. Uma possível remissão mais prolongada da doença vai ser muito importante. No entanto, a educação da população é fundamental.
HN- Gostaria de deixar alguma nota final?
DM- A mensagem mais importante é alertar que o cancro do ovário é uma doença com elevada mortalidade. As mulheres devem estar atentas aos pequenos sinais e recorrer ao seu médico em caso de suspeita.
Entrevista de Vaishaly Camões
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