Mário André Macedo Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica

Missão para os primeiros 100 dias na Saúde

09/06/2022

Marta Temido conseguiu uma longevidade na pasta da saúde pouco comum. Desde a criação do ministério, em 1983, apenas 3 ministros conseguiram alcançar os 4 anos de mandato: Leonor Beleza com 4 anos e 2 meses, Maria de Belém, atingido precisamente 4 anos, e por fim, Paulo Macedo, que beneficiando de ter tomado posse em junho, alcançou os 4 anos e 4 meses. A atual ministra demissionária, com a tomada de posição de António Costa de prolongar o seu mandato pelo menos mais duas semanas, será o 4º detentor da pasta com maior tempo de funções.

Esta longevidade trouxe um carrossel de pontos altos e baixos. Começando pelos conflitos laborais, nunca resolvidos e sempre em sentido crescente, a resposta à pandemia, que apesar de tudo a transformaram na ministra mais popular do governo, ao ponto de Costa a nomear como possível sucessora, e o período pós pandémico, onde estranhamente para um governo recém-empossado com maioria absoluta, não houve capacidade nem energia para abordar os problemas que o setor apresenta.

Não sabemos quem será o próximo responsável pela pasta da saúde. Mas sabemos duas coisas, que tem um conjunto de problemas para resolver com urgência, e que é leitor assíduo do HealthNews, pelo que tomei a liberdade de sistematizar e descrever os principais problemas que devem ser resolvidos nos primeiros 100 dias:

  1. Um plano para os recursos humanos em saúde. O novo ministro(a) terá de ganhar o braço ferro com as finanças, e iniciar uma série de profundas reformas. Os auxiliares de saúde têm de ter uma carreira própria e não uma categoria geral onde têm as mesmas competências que jardineiros. Também não podem continuar a trabalhar pelo salário mínimo. Recrutar auxiliares de saúde é cada vez mais difícil, afinal de contas, quem quer um trabalho duro, por turnos, pouco valorizado e pelo salário mínimo? Sem qualquer expectativa de progressão, formação ou desenvolvimento profissional? É preciso resolver esta situação. E não podemos ter concursos urgentes para auxiliares abertos há anos, com várias entrevistas e testes pelo meio. A burocracia que a gestão pública arrasta consigo é absurda e afasta as pessoas.

Os técnicos de saúde precisam de ver os seus anos de serviço contabilizados. Não podemos ter técnicos com 15 anos de serviço com o mesmo salário de alguém saído da faculdade. Precisam que a sua profissão seja repensada. O conselho dos técnicos é uma miragem em muitos hospitais, e as suas competências podiam ser revistas e aumentadas.

Os enfermeiros precisam de ver a sua carreira realmente revista, os anos de serviço contabilizados, e de ter uma ideia de futuro para a profissão. Bem sei que esta reflexão não é um exclusivo do ministério, mas alguém tem de iniciar este processo. O sistema de saúde português tem vícios que nem os sistemas ricos apresentam. A forma como não aproveita o talento, saber e vontade dos enfermeiros chega a ser insultuosa. Uma medida indispensável para salvar o SNS, melhorar a equidade e o acesso aos cuidados, passa por aumentar as competências dos enfermeiros. Associado a uma formação especifica e remuneração adequada, e esta será uma das chaves essenciais para a modernização da saúde em Portugal.

Os médicos também necessitam de ver a sua carreira revista. Precisam que as suas expectativas sejam tidas em contas por quem gere recursos humanos. A facilidade com que o serviço privado recruta médicos no SNS deveria tocar todas as campainhas de alarme no ministério.

  1. Melhorar a equidade no financiamento nos cuidados de saúde. Não há outra forma de encarar a situação: a obtenção de recursos para financiar os cuidados de saúde é profundamente desigual e está a criar uma barreira no acesso. O montante imputado às famílias é cada vez maior e a despesa pública diminui em proporção. A despesa das famílias em saúde cresceu sempre a um ritmo superior ao da despesa pública em saúde no período entre 2006-2019, atingindo o valor de 30,6% imediatamente antes do início da pandemia Covid-19.

Esta alteração na forma de obter recursos para financiar a despesa de saúde, prejudica gravemente o objetivo de equidade no acesso aos cuidados de saúde. É uma barreira inaceitável, que deixa os mais vulneráveis fora do sistema, que tenderá a agravar com a escalada da inflação.

A grande maioria destes gastos, superior a 76%, recai em três categorias: i) ambulatório privado, urgências, consultas, exames; ii) medicamentos; iii) co-pagamentos efetuados em hospitais privados. Com investimento e consequente melhoria na dimensão da oferta, produtividade e eficiência, conseguimos diminuir duas das rúbricas. Os medicamentos, desde a massificação dos genéricos, que têm perdido peso relativo, embora haja margem para uma reflexão sobre se não seria possível ajustar a comparticipação em alguns grupos populacionais.

  1. A sustentabilidade não pode ser apenas financeira, tem igualmente de ser ambiental. Especialmente num contexto de choque energético, e onde o setor da saúde é responsável por 5% das emissões dos gases com efeito de estufa, é importante produzir um plano para tornar a saúde sustentável do ponto de vista ambiental, sem esquecer a melhoria da sua eficiência energética.

Infelizmente, os problemas no setor não se resumem apenas a estes três. Há muito mais para resolver a médio e longo prazo.  Mas se ao fim de 100 dias, a futura equipa ministerial conseguisse demonstrar como planeia abordar e resolver estas três questões, com certeza o SNS caminharia para um período de sucesso e sossego, entrando apenas na agenda mediática por bons motivos.

 

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

O relatório OCDE e o resto: o que os números da saúde não mostram

Praticamente toda a população portuguesa tem cobertura para um conjunto central de serviços de saúde, atingindo a universalidade. Contudo, apenas 58% dos cidadãos dizem estar satisfeitos com a disponibilidade de cuidados de qualidade, um valor que fica abaixo da média dos países mais desenvolvidos

Prevenção em Contraciclo: Os Dois Rostos da Qualidade da Saúde em Portugal

O relatório “Health in a Glance 2025” da OCDE revela um sistema de saúde português com contrastes. Enquanto a adesão ao rastreio do cancro da mama, com 55,5%, fica aquém da média da OCDE, a prescrição de antibióticos mantém-se elevada, sublinhando desafios antigos na prevenção de doenças e no uso prudente de medicamentos

Assimetrias Regionais em Saúde Desenham Dois Países Diferentes Dentro de Portugal

Um retrato detalhado do sistema de saúde português revela um país cindido por assimetrias regionais profundas. Enquanto o litoral concentra hospitais e especialistas, o interior enfrenta desertificação médica, acessos limitados e piores resultados de saúde, desde uma menor esperança de vida a uma maior mortalidade prematura. As políticas públicas existentes são apontadas como insuficientes para travar este fosso, que espelha desigualdades socioeconómicas

Disparidades de género na saúde: Homens morrem mais cedo, mulheres vivem mais anos doentes

Em Portugal, como no resto da OCDE, os homens vivem em média menos 5,8 anos do que as mulheres, mas o paradoxo de género revela-se nos detalhes: elas passam uma proporção significativamente maior da sua vida em pior estado de saúde. Esta dupla realidade, com os homens a morrerem mais cedo de causas externas e doenças cardiovasculares e as mulheres a carregarem um fardo pesado de doenças crónicas e incapacitantes, desafia os sistemas de saúde a desenvolverem respostas mais direcionadas

Saúde dos Profissionais de Saúde: O Elo Mais Fraco do Sistema em Portugal

O relatório da OCDE revela uma crise silenciosa a minar o SNS: o esgotamento extremo dos seus profissionais. Com 47% dos médicos e 52% dos enfermeiros com burnout, Portugal destaca-se negativamente na Europa. Este não é apenas um problema de bem-estar individual, mas uma ameaça direta à qualidade e segurança dos cuidados de saúde prestados à população

Relatórios internacionais alertam para dupla desigualdade na saúde: entre géneros e entre ricos e pobres

Portugal observa uma transformação subtil na forma como encara a população mais velha. Para lá dos números, ganham corpo iniciativas que procuram responder ao desafio do isolamento e da inatividade, envolvendo autarquias, instituições de solidariedade e os próprios idosos na construção de respostas que vão do exercício físico ao apoio comunitário. Um movimento que tenta, devagar, mudar uma cultura

Literacia em saúde digital: novo fosso geracional em Portugal

A transição digital em saúde, promessa de eficiência, está a criar uma nova forma de exclusão em Portugal. Com 38% dos idosos incapazes de usar as plataformas, o fosso geracional ameaça o acesso aos cuidados. Da marcação de consultas à renovação de receitas, a falta de literacia digital deixa para trás os mais vulneráveis, transformando a inovação numa barreira. Urge humanizar a digitalização

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights