Constantino Sakellarides

Serviço Nacional de Saúde – entre a proclamação de direitos e a satisfação das necessidades das pessoas.

04/06/2024

A proclamação dos direitos fundamentais dos cidadãos, como o acesso a cuidados de saúde de qualidade, deverá sempre ser acompanhada de um “aviso detalhado” – as inúmeras dificuldades que é necessário continuamente superar para concretizar esses direitos – e uma “linha de rumo” – o caminho que é necessário percorrer para que essa concretização vá acontecendo.

Admitindo, muito generosamente, que estamos suficientemente avisados, fixemo-nos naquilo que é necessário fazer para assegurar o Serviço Nacional de Saúde de que precisamos. 

Em primeiro lugar, financiar: remunerações profissionais dignas e os recursos materiais, técnicos e tecnológicos necessários. A concorrência é formidável: pagar a dívida externa, assegurar uma reserva financeira para tempos difíceis e incertos, descarbonizar, fazer a transição energética e pagar os danos dos fenómenos climáticos extremos, aumentar os gastos militares, estimular o crescimento económico, responder às exigências de outros setores do Estado. Para isso não precisamos de uma “chuva de promessas”, mas de um racional para que a “polis” possa comprometer-se com escolhas difíceis.

Em segundo lugar, “transformar o SNS”, melhorando o seu desempenho – a recente reforma do SNS, baseada em Unidades Locais de Saúde (ULS).  Parece que esta reforma, tem, à partida, duas vantagens óbvias: proporcionar um revulsivo necessário a uma administração da saúde centrada nas “envelhecidas” Administrações Regionais de Saúde e “levar o processo de decisão” para mais perto das pessoas. No entanto, é evidente, também, que não foi possível, no lançamento desta reforma, um mínimo de análise, comunicação, planeamento e direção estratégica. O que vai obrigar a um conjunto considerável de ajustamentos no futuro. E não sendo grande parte das ULS verdadeiramente “locais”, a identificação precisa dos “espaços de proximidade” – o território do “centro de saúde”, das “estratégias locais de saúde” e das “direções clínicas e de saúde”, terão de fazer parte desses ajustamentos.

Finalmente, porque “uma chuva de promessas” em vez de “um racional para escolhas difíceis” e as evidentes dificuldades em “analisar, comunicar, planear e dirigir estrategicamente”? 

Simplificando muito: situemo-nos, por breves momentos, no domínio do sistema político e das políticas públicas para identificar dois aspetos que têm a ver com as questões acima enunciadas, que de alguma forma se interrelacionam.  

A primeira, tem a ver com as “áreas de opacidade” que o sistema político frequentemente manifesta, de múltiplas origens e formas, que de algum um modo, limitam aberturas de transparência e racionalidade. Os exemplos abundam e só o continuo escrutínio com os dispositivos próprios das democracias avançadas, entre as quais a de um jornalismo destituído de serventias político-partidárias, consegue limitar. 

A segunda, refere-se às competências de um Estado inteligente, com os instrumentos apropriados para reconhecer, com a necessária antecedência, os desafios que as nossas sociedades precisam de enfrentar e a capacidade de identificar e implementar respostas concertadas e sistémicas, a curto, médio e longo prazo, a esses desafios. 

Em 2021, o governo criou para o efeito o PlanAPP (Centro de Competências de Planeamento de Políticas e de Prospetiva da Administração Pública), cujo RePlan (Rede de Serviços de Planeamento e Prospetiva da Administração Pública) estabeleceu um Plano de Ação 2023-2024, que inclui quatro equipas multissectoriais (Planeamento Estratégico, Prospetiva, Avaliação de Políticas Públicas e Acesso a Dados). Os primeiros sinais desta nova organização já chegaram à saúde, com a publicação em Março de 2024, do estudo “Os Profissionais do SNS. Retrato e Evolução”.

É muito importante para o futuro próximo do SNS, que esta rede de direção estratégica se “ramifique”, rapidamente, no sistema de saúde e no SNS – do Ministério, à D.Executiva-SNS, às ULS e às direções clínicas e de saúde de proximidade. De cima para baixo, mas também, obrigatoriamente, de baixo para cima – para dar voz aos profissionais e às pessoas localmente, nas suas especificardes.  Desde a gestão da informação e do conhecimento até à promoção de inteligência colaborativa, desde as estratégias plurianuais de cooperação como o setor social e privado ao seu enquadramento em planos plurianuais de investimento e desenvolvimento do SNS, desde a capacidade de atrair e reter profissionais no SNS à centralidade das pessoas no sistema de saúde, dos seus pontos de vista e aspirações. 

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Oito vozes juntam-se para exigir ação nacional imediata no combate ao cancro

Num movimento inédito, oito associações da sociedade civil, incluindo as maiores representantes de doentes oncológicos, enviaram uma carta aberta às mais altas figuras da Saúde e do Governo, exigindo uma resposta política urgente, coordenada e sustentada para o cancro. A iniciativa sublinha a emergência de saúde pública que a doença representa

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights