O Professor Constantino Sakellarides, médico e membro dos corpos sociais da Fundação para a Saúde, fez uma intervenção marcante na apresentação do Relatório do Observatório da Fundação Nacional de Saúde, uma iniciativa da Fundação para a Saúde, realizada hoje em Lisboa, no Auditório João Lobo Antunes da Faculdade de Medicina de Lisboa. A sua apresentação focou-se na importância da comunicação eficaz em saúde e no papel crucial que o novo Observatório pode desempenhar neste contexto.
Sakellarides iniciou a sua intervenção recordando uma experiência pessoal que viveu há alguns anos atrás, durante uma reunião em Roma. O cenário era impressionante: a reunião decorreu numa sala magnífica, situada numa zona monumental da cidade eterna. Os organizadores do evento tinham-se esmerado não só na escolha do local, mas também na composição do programa, que incluía a participação de um jornalista convidado para comentar a reunião no final.
O Professor descreveu como o jornalista esteve presente durante todo o dia, observando atentamente as discussões e interações entre os participantes. No final do evento, o jornalista aproximou-se de Sakellarides e partilhou as suas impressões. O comentário do jornalista foi surpreendente e, de certa forma, desconcertante. Ele elogiou a qualidade dos participantes, reconhecendo que eram pessoas competentes, conhecedoras e capazes de discutir projetos de forma inteligente. O jornalista também destacou o elevado nível científico das discussões.
No entanto, o que realmente chamou a atenção de Sakellarides foi a conclusão do jornalista. Ele afirmou que, apesar da qualidade do evento e dos seus participantes, aquilo não era notícia. O jornalista chegou ao ponto de sugerir, de forma provocadora, que a única maneira de aquele grupo se tornar notícia seria se algo trágico acontecesse, como um acidente de autocarro na viagem de regresso.
Esta experiência, embora inicialmente desanimadora para Sakellarides e seus colegas, serviu como um importante ponto de reflexão sobre a natureza da comunicação em saúde e a forma como as informações chegam ao público em geral. O Professor utilizou esta anedota para introduzir uma questão fundamental: como fazer com que o trabalho do Observatório seja “notícia”, ou seja, como garantir que as informações e análises produzidas por esta entidade cheguem efetivamente às pessoas?
Sakellarides enfatizou que o verdadeiro desafio não é apenas produzir informação de qualidade, mas sim fazer com que essa informação seja acessível e relevante para o público em geral. Ele argumentou que as pessoas não são naturalmente desinteressadas ou preconceituosas em relação a questões de saúde. Pelo contrário, quando a informação é apresentada de forma clara e envolvente, o público tende a mostrar um grande interesse e disposição para participar em debates sobre o sistema de saúde.
O Professor sublinhou a importância de criar um ambiente de discussão que seja simultaneamente informativo e acessível. Ele defendeu que o Observatório deve aspirar a fomentar um debate público que seja fundamentado em dados concretos, mas que também seja capaz de captar a atenção e o interesse das pessoas comuns. Sakellarides argumentou que este tipo de debate informado e inclusivo é essencial para promover uma maior compreensão e envolvimento da população portuguesa em questões relacionadas com o sistema de saúde.
Ao longo da sua intervenção, Sakellarides reiterou várias vezes a importância de “chegar às pessoas”, enfatizando que o sucesso do Observatório não deve ser medido apenas pela qualidade técnica dos seus relatórios, mas também pela sua capacidade de gerar discussão e interesse na sociedade em geral. O Professor argumentou que é crucial encontrar formas de traduzir informações complexas em mensagens que ressoem com o público, evitando jargão técnico excessivo e focando-se em questões que tenham um impacto direto na vida das pessoas.
Sakellarides também abordou a questão da confiança pública nas instituições de saúde, sublinhando que uma comunicação eficaz e transparente é fundamental para construir e manter essa confiança sugerindo que o Observatório poderia desempenhar um papel importante neste aspeto, servindo como uma fonte confiável e imparcial de informações sobre o sistema de saúde português.
Outro ponto importante levantado por Sakellarides foi a necessidade de adaptar as estratégias de comunicação às realidades do mundo digital reconhecendo que, num ambiente onde as redes sociais e as plataformas online desempenham um papel cada vez mais importante na disseminação de informações. Para o responsável, o Observatório encontre formas inovadoras de apresentar os seus dados e análises. Isto poderia incluir o uso de infográficos, vídeos explicativos, podcasts e outras formas de conteúdo digital que sejam mais acessíveis e atraentes para um público mais amplo.
O Professor também falou sobre a importância de envolver diferentes setores da sociedade no trabalho do Observatório. Ele sugeriu que, além de comunicar com o público em geral, o Observatório deveria procurar estabelecer parcerias com organizações da sociedade civil, associações de pacientes, instituições académicas e meios de comunicação. Estas parcerias, argumentou Sakellarides, poderiam ajudar a amplificar a mensagem do Observatório e a garantir que as suas conclusões tenham um impacto real nas políticas de saúde e nas práticas do sistema de saúde.
Sakellarides dedicou parte da sua intervenção a discutir o papel do Observatório na promoção da literacia em saúde defendaendo que, além de fornecer informações sobre o estado atual do sistema de saúde, o Observatório deveria também trabalhar para aumentar a compreensão geral do público sobre questões de saúde. Isto poderia incluir a produção de materiais educativos, a organização de workshops e seminários públicos, e a colaboração com escolas e universidades para integrar temas de saúde pública nos currículos educacionais.
O Professor também abordou a questão da equidade na saúde, enfatizando que o Observatório deve prestar especial atenção às disparidades de saúde existentes na sociedade portuguesa. Ele argumentou que a comunicação eficaz sobre estas disparidades é crucial para mobilizar a ação política e social necessária para abordar estas questões. Sakellarides sugeriu que o Observatório poderia desempenhar um papel importante na identificação e destaque de áreas onde existem desigualdades significativas no acesso aos cuidados de saúde ou nos resultados de saúde.
Ao concluir a sua intervenção, Sakellarides expressou o seu otimismo em relação ao futuro do Observatório, destacando que, com a abordagem certa, esta instituição tem o potencial de se tornar uma voz influente e respeitada no panorama da saúde em Portugal. O Professor reiterou o seu desejo de ver o Observatório não apenas como uma fonte de dados e análises, mas como um catalisador para um debate público mais informado e envolvente sobre questões de saúde.
Sakellarides encerrou a sua apresentação com um apelo à ação, instando todos os presentes a considerarem cuidadosamente como podem contribuir para tornar o trabalho do Observatório mais visível e impactante, sublinhando que o sucesso desta iniciativa depende não apenas da qualidade do trabalho produzido, mas também da capacidade de envolver e inspirar um público mais amplo.
MMM
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