Há quem defenda e certamente com argumentação sólida e racional que, a Saúde no século XXI é diferente da do século anterior e de outros ainda…
E podemos recordar 1948 e a célebre definição da Organização Mundial de Saúde (OMS) que, caracterizou saúde como um elevado padrão de saúde física, mental e bem-estar e não apenas a ausência de doença.
Os tempos foram correndo e não se pode negar que, em um ou outro momento, não se tenham registado momentos de aparente reorientação de recursos para a saúde, um pouco por todo o lado, nomeadamente no combate a doenças para as quais as vacinas puderam mudar o padrão de desgraça e morte.
Talvez até a própria OMS, ao longo dos últimos anos do século XX, tenha vindo a ser forçada ou induzida ou atirada para um novo papel, uma espécie de direção técnica ou consultoria especifica de Estados e organismos internacionais, diria mesmo enrolada numa espiral que fez pesar as balanças, todas as balanças, em favor de argumentos economicistas ou políticos.
Basta visitar as últimas décadas e analisar esse relacionamento com entidades como o
Fórum Económico Mundial, o Fundo Monetário Internacional ou o Banco Mundial, ou reparar como se não fosse possível reparar, como a China antes e Trump agora pretendem controlar a OMS…
Compreende-se, portanto, que assistamos serenamente e conformados a uma nova Saúde, aquela em que a questão dos direitos foi trocada pela dos gastos sociais e da redução dos recursos.
Não vejo campanha eleitoral em Portugal em que alguém venha apresentar propostas ou sequer apelar a uma discussão séria neste âmbito!
Apenas chavões e declarações de amor constipado e envelhecido, tão platónicos quanto esgotados, em prol de um SNS que contribuíram, por Acão e por omissão, à condenação de esgotamento e sofrimento…
A saúde enquanto serviço ou ciência de ciências transformou-se em sector de catividade, atividade económica mesmo com códigos fiscais (os CAE), sujeito como outros aos índices de rentabilidade, de produção e de eficiência.
Esta mudança ou esta alteração profunda, foi mais, muito mais do que uma mera “evolução” conceptual ou filosófica.
Assistimos a investimentos vultuosos pelos sistemas de saúde dos países mais ricos e à distância pelo SNS, apetrechados de moderníssimos equipamentos tecnológicos que, em todos os patamares do atendimento hospitalar, encareceram o diagnóstico, atrasaram o tratamento e implicaram a criação de uma medicina defensiva desperdiçadora de meios e recursos.
Foi uma revolução brutal porque desapareceram muitas personagens ligadas aos processos de humanidade e desempenho clínico. Obviamente substituídas por protagonistas ligados às burocracias, às administrações, às finanças e às políticas, mas com resultados evidentes e perturbadores pela mossa provocada nos erários públicos e orçamentos previstos.
Nem o facto de vivermos um tempo dito de império dos indicadores estatísticos, induz uma condução adequada, antes parecendo ser um sistema complicador que nem se confinar às percentagens, nem para antecipar ou menorizar problemas.
As determinantes de saúde escapam aos entendimentos gestionários.
O insucesso das administrações nomeadas e demitidas, seguindo um padrão de dança de cadeiras nem original, nem inédito, fica à vista.
Opostamente ao olhar hospitalocêntrico que tudo transformou em ULS de modo impreparado e apressado, tenho uma outra visão pessoal, participativa, empenhada e solidária.
O papel e função dos Cuidados Primários de Saúde, na sua vertente mais personalizada assegurada pelos médicos de família e, na dimensão mais de planeamento e controlo representada pelos médicos de saúde pública, serão obrigatoriamente a matriz da Saúde para o século que cruzamos!
Tenho esperança em que os jovens médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde saibam lutar pela saúde.
A Saúde é mais do que a soma de fatores como a acão humana, as tecnologias e as inovações, por uma razão simples – a de que nunca poderá dispensar a intervenção dos profissionais de saúde!
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