Governo não está “totalmente consciente” da nova realidade na saúde

2 de Maio 2020

O presidente da Associação Portuguesa de Hospitalização Privada (APHP) considerou hoje que o Ministério da Saúde “não está ainda totalmente consciente” da nova realidade da saúde em Portugal e o que implica atualmente o funcionamento de um hospital.

Óscar Gaspar comentava, à agência Lusa, as declarações da ministra da Saúde, Marta Temido, em que afirmou que vai recorrer mais aos privados para recuperar o atraso na atividade do SNS suspensa por causa da covid-19.

O presidente da APHP disse ter ficado surpreendido com as declarações de Marta Temido porque “não houve nenhum tipo de contacto” com a associação sobre esta matéria.

“Por outro lado, também para ser sincero, todos os sinais que fomos tendo nas últimas semanas levam a pensar que o Ministério da Saúde não está ainda totalmente consciente da nova realidade da saúde” e o que implica o funcionamento de um bloco operatório ou de um hospital.

Atualmente, sublinhou, “há menos capacidade assistencial do que há dois meses, porque é preciso utilizar equipamentos de proteção individual, fazer testes à covid-19 e, portanto, é preciso que o Ministério da Saúde tenha consciência que de facto hoje fazer saúde em Portugal e prestar cuidados se saúde é totalmente diferente de há dois meses”.

“Mas, de qualquer maneira, as declarações da ministra são bem-vindas e vêm no sentido certo de nos próximos meses todos estarmos concentrados em recuperar aquilo que não foi feito”, afirmou.

O responsável sublinhou que “é hoje uma evidência para todos” da área da saúde que durantes os meses de março e abrir houve muita atividade que deixou de ser feita nos hospitais, nomeadamente nos do Serviço Nacional de Saúde.

“Os números oficiais apontam para mais de 500 mil consultas de especialidade que deixaram de ser feitas, as minhas contam apontam para mais de 30 mil cirurgias que também não foram feitas e, portanto, esta situação a acrescer à situação que já havia”, de cerca de 5.000 portugueses em espera para cirurgia, faz com que haja agora “uma necessidade” de retomar a atividade e recuperar “parte daquilo que deixou de ser feito”.

E nesse sentido, avançou, os hospitais privados remeteram uma carta à ministra da Saúde em 02 de abril a suscitar a necessidade de existir “um plano de emergência para a recuperação da atividade cirúrgica e de consultas”.

Muitos exames não foram realizados durante estes meses, nomeadamente na área oncológica, mas também na área da cardiologia e da gastro, “muito portugueses deixaram de ser diagnosticados e esta situação tem de ser resolvida porque todos estamos estão unidos na luta contra a covid-19, mas o facto de existir covid-19 não faz com que deixe de haver outro tipo de doenças que também preocupam os portugueses”, defendeu.

“Penso que este mês de maio, que hoje iniciamos, de retoma da atividade deve também permitir que os portugueses tenham consciência que é seguro voltar aos hospitais e ter os tratamentos de saúde que necessitam como era há uns meses”, realçou.

Questionado sobre o diploma que o Governo aprovou na sexta-feira que estabelece que o SNS apenas pode celebrar acordos com entidades privadas e do setor social de “forma supletiva e temporária”, Óscar Gaspar disse não conhecer “os termos exatos que terão sido aprovados”.

“Na discussão da Lei de Bases [da saúde] sempre defendemos que o sistema português é um sistema misto. Obviamente que tem um pilar essencial mais forte, que é o pilar público, mas depois tem outros pilares nomeadamente na área do privado e na área do social”, afirmou.

No seu entender, “é bom que quem gere a saúde em Portugal também possa articular os diversos setores” de maneira a prestar-se “os melhores cuidados de saúde aos portugueses”.

“Sabemos que a orientação política na aprovação da Lei de Bases foi de só recorrer aos privados em termos supletivo e quando se justificar é uma opção política que respeitamos, mas de facto gostaria de ver os termos exatos que terão sido aprovados”, concluiu.

Lusa/HN

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