Bruxelas garante estar a vigiar de perto eventuais abusos na Hungria

14 de Maio 2020

A Comissão Europeia garantiu hoje estar a monitorizar com particular atenção o exercício dos poderes reforçados do Governo húngaro no quadro da crise da covid-19 e disse esperar que o estado de emergência ilimitado seja levantado em breve.

“Espero que os cidadãos húngaros sejam os primeiros a querer voltar a gozar os seus direitos integralmente, e espero igualmente que o parlamento húngaro exerça o seu papel de escrutínio”, declarou a vice-presidente com a pasta dos Valores e Transparência, num debate no Parlamento Europeu, em Bruxelas, no qual o primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, se escusou a participar.

Na sua intervenção inicial no debate com os eurodeputados sobre a legislação de emergência adotada na Hungria no âmbito da pandemia da covid-19 e o seu impacto no Estado de direito e direitos fundamentais, Vera Jourova sublinhou que as medidas de emergência adotadas pelos Estados-membros para tentar conter o novo coronavírus “não devem durar indefinidamente” e “não podem significar desativar Constituições ou a lei da UE”.

Apontando que o executivo comunitário “está a monitorizar de forma pró-ativa as medidas de emergência em todos os Estados-membros”, Vera Jourova admitiu que a situação na Hungria “suscita inquietações particulares, considerando o efeito combinado de os poderes de emergência conferidos ao Governo serem mais extensos que noutros Estados-membros e não terem um limite temporal claro”.

Em 30 de março, o parlamento húngaro aprovou uma controversa lei que permite a Viktor Orbán governar por decreto até nova decisão, no âmbito do estado de emergência aprovado com o objetivo de combater a pandemia.

Referindo-se em concreto à polémica criminalização da divulgação de “informações falsas” relativas à crise da pandemia da covid-19, Jourova apontou que a mesma “não está claramente definida e é acompanhada por sanções severas”, admitindo que tal suscita inquietações legais, mas também a nível de liberdade de expressão, para mais atendendo ao “contexto já bem conhecido na Hungria no que respeita ao Estado de direito e respeito pelos valores da UE”.

Sustentando que “a luta contra a desinformação não pode colocar em causa a democracia”, a vice-presidente da Comissão salientou que, “na Hungria, o ambiente em que os órgãos de comunicação social e os jornalistas trabalham tem vindo a degradar-se nos últimos anos” e piorou ainda mais depois da adoção da polémica lei que criminaliza o que o Estado entende como desinformação sobre a covid-19.

“Estamos agora a entrar na União Europeia numa nova fase [do combate à pandemia], em que certas medidas restritivas começam a ser levantadas. A Comissão vai ser muito vigilante relativamente à forma como as medidas de emergência são levantadas nos Estados-membros”, disse.

O debate de hoje, no qual só participaram eurodeputados que se encontram em Bruxelas, não contou com a presença de Orbán, que na véspera alegou que a gestão da pandemia de covid-19 o impede de aceitar o convite do Parlamento Europeu para se deslocar ao hemiciclo.

O primeiro-ministro queria que o Governo húngaro fosse representado pela sua ministra da Justiça, Judit Varga, o que foi recusado pela assembleia europeia, dado estes debates exigirem que os Estados-membros sejam representados ao nível de chefes de Estado ou de Governo.

A generalidade dos eurodeputados intervenientes repetiu as ideias já deixadas na resolução adotada pelo Parlamento Europeu em 17 de abril passado, na qual consideraram “totalmente incompatível com os valores europeus” a decisão do Governo húngaro de prolongar o estado de emergência por tempo indeterminado, de autorizar o executivo a governar por decreto sem limite de tempo e de enfraquecer a supervisão do parlamento.

Os eurodeputados querem que a Comissão avalie urgentemente se as medidas de emergência estão em conformidade com os Tratados da UE e que utilize “plenamente todos os instrumentos e sanções ao dispor da União para combater estas graves e persistentes infrações, nomeadamente orçamentais”.

O Parlamento insta também o Conselho a voltar a colocar na sua agenda os debates e os procedimentos relativos ao artigo 7.º do Tratado, que dota a UE da capacidade de intervir em caso de risco manifesto de violação grave dos valores europeus por um Estado-Membro.

LUSA/HN

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

ULS de Coimbra desativa planos de emergência após redução do caudal do Mondego

A Unidade Local de Saúde de Coimbra anunciou hoje a desativação do Plano de Emergência Externo e do Plano de Emergência Interno, que estiveram no nível 2 durante o período de calamidade pública para garantir resposta à cheia do Mondego, num agradecimento aos profissionais que, mesmo com as suas vidas afetadas, mantiveram os serviços operacionais

Raimundo desafia Governo a optar entre “guerras” e reconstrução

O secretário-geral do PCP desafiou hoje o Governo a escolher entre financiar conflitos externos ou canalizar verbas para a “guerra da reconstrução” do país, após a passagem das tempestades que devastaram várias regiões. A declaração foi feita durante uma visita ao centro de recolha de bens instalado no Estaleiro Municipal de Ourém, um dos concelhos mais fustigados pelo mau tempo

Tempestades: Campanha nacional recolhe donativos para vítimas de cheias e inundações

A Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares e a associação Entreajuda ativaram uma rede solidária para recolher fundos e bens essenciais destinados às populações flageladas pelas recentes tempestades. A distribuição da ajuda arranca na próxima semana, priorizando os concelhos que estiveram em situação de calamidade, numa operação articulada com autarquias e instituições locais

Pais de crianças com Asperger sem respostas: “Subsídios não chegam para nada”

A Associação Portuguesa de Síndrome de Asperger (APSA) alertou hoje para a necessidade de um acompanhamento frequente e integrado na saúde e educação, sob pena de as pessoas com esta perturbação do espectro do autismo ficarem dependentes para toda a vida, sem conseguir gerir dinheiro, emprego ou a própria saúde

Hospital da Horta admite dificuldade em pagar diárias a doentes deslocados

A presidente indigitada do Hospital da Horta, Maria Cândido, alertou hoje para o agravamento dos custos com consumíveis e tratamentos, que poderá não ser totalmente colmatado pelo reforço orçamental, reconhecendo “dificuldades para pagar as diárias” dos doentes deslocados

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights