Perfusão do fígado pode salvar 7 em cada 10 fígados rejeitados após transplante

22 de Junho 2020

O estudo, publicado na Nature Communications, pode ter implicações significativas para a lista de espera de transplantes de fígado e nos serviços locais de transplante.

Um estudo de larga escala que se debruçou sobre a eficácia da perfusão do fígado como uma técnica de melhorar o funcionamento de fígados transplantados que seriam de outra forma rejeitados, mostrou que até sete em cada 10 podem ser utilizados após quatro a seis horas do procedimento.

O estudo, “Transplantação de fígados descartados depois de testes de viabilidade com perfusão normatérmica da máquina” publicado na Nature Communications, pode ter implicações significativas para a lista de espera de transplantes de fígado e nos serviços locais de transplante.

Atualmente, por todo o Reino Unido, um terço dos doadores de fígado não corresponde aos critérios desejados e acaba por ser descartado. A infeção hepática crónica tem crescido todos os anos no Reino Unido, como resultado da obesidade e do consumo de álcool causando aproximadamente 8500 mortes por ano. Para aqueles em fase terminal da doença crónica hepática, um transplante é a única hipótese de sobrevivência, mas a procura por um fígado adequado a transplante ultrapassa claramente a oferta.

De acordo com o último relatório do Sistema Nacional de Saúde Britânico sobre Sangue e Transplantes, até 20% das pessoas em lista de espera para uma operação de transplante morreram ou foram removidas da lista por problemas de saúde.

Uma crescente proporção dos fígados doados vem de doadores de alto risco com historial de abuso de álcool, obesidade ou pessoas mais velhas com comorbidades – frequentemente quando o paciente sofreu uma paragem cardíaca inesperada e quando não pode ou não deve ser ressuscitado. Estes fígados são de fraca qualidade e acarretam riscos para o recipiente. Consequentemente a maioria não é transplantada.

Financiado pelo Wellcome Trust, os especialistas do Centro para o Fígado e Pesquisa Gastrointestinal da Universidade de Birmingham, do Hospital Universitário de Birmingham e do Centro de Pesquisa Biomédica de Birmingham concluíram que quatro a seis horas após avaliação por perfusão normatérmica com máquina foi possível deixar que 70% dos fígados previamente descartados recuperassem o suficiente para permitir um transplante bem-sucedido.

Hynek Mergental, Professor Sénior na Universidade de Birmigham e Cirurgião Consultor na Unidade Hepática do Hospital Universitário de Birmingham explicou que “enquanto o transplante de fígado é um dos mais avançados procedimentos cirúrgicos, até agora não tem havido um meio objetivo de avaliar o quão adequado é um dador para um transplante de fígado.

O estudo clínico VITTAL validou a nossa pesquisa pré-clínica e observações clinicas pivô, e estes critérios de adequação podem agora guiar equipas de transplantação em todo o munto para dar acesso a transplantação que pode salvar a vida a mais pacientes em necessidade”.

“Este estudo desafiante foi desenhado para avaliar a função dos fígados descartados em situações de vida real, utilizando a perfusão normatérmica com máquina. O maior desafio no estudo clínico pioneiro foi assegurar aos pacientes a sua segurança enquanto experimentávamos utilizar um fígado sub-óptimo”, acrescentou o líder do projeto VITTAL, o professor Darius Mirza, Cirurgião Consultor de Transplantação no Hospital Universitário de Birmingham.

Para Thamara Perera, Cirurgião Consultor de Transplantação, “este estudo clinico pioneiro provou que os parâmetros objetivos podem ser usados para tomar a decisão de utilizar um fígado no limite. A taxa de sobrevivência observada de 100% nos participantes do estudo foi gratificante e providenciou os nossos pacientes e equipa médica a confiança para implementar e alargar a abordagem, que agora deixa os pacientes mais doentes na nossa lista de espera a passar pelo transplante mais cedo e em maior segurança”.

O Dr. Simon Afford, conselheiro de publicação na área da Imunobiologia do Fígado no Instituto de Imunobiologia e Imunoterapia da Universidade de Birmingham disse que “são conhecidas há já muito tempo as consequências do envelhecimento da população para a qualidade dos fígados doados, que continua em declínio. Com base nas nossas últimas conclusões, acreditamos que num futuro próximo a plataforma de perfusão à máquina vai facilitar as intervenções terapêuticas para melhorar a viabilidade do fígado.

Esperamos que sejamos capazes de salvar ainda mais órgãos do que os 70% observados no estudo VITTAL, incluindo fígados de dadores com problemas de obesidade ou abuso de álcool”.

“Muitos mais pacientes que precisam de transplantes de fígado vão beneficiar desta tecnologia. Dar aos cirurgiões as ferramentas para avaliar se um transplante de fígado será viável vai ajudar os milhares de pessoas com doença hepática crónica a um nível global”, disse Tim Knott, Líder de Programas de Inovação na Wellcome.

Para John Forsythe, Diretor Médico de Doações e Transplantes para o departamento de Sangue e Transplantes do Sistema Nacional de Saúde Britânico, “as novas técnicas de perfusão e preservação de órgãos são vitais para desenvolver a área da doação de órgãos e transplantação. Estamos deliciados com o número de médicos e cientistas no Reino Unido na liderança deste campo de pesquisa”.

“Todos os anos, um pequeno número de órgãos doados não são transplantados por uma variedade de razões. O sucesso do transplante recai sobre uma quantidade significativa de atividade que acontece num curto espaço de tempo. Novas técnicas estão já a permitir-nos transplantar órgãos doados de formas que não seriam possíveis no passado. É possível que mais investigação nesta área aumente essa capacidade”, acrescentou o Dr. Fosythe.

NR/HN/

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