VIH não significa risco acrescido para doentes com COVID-19

24 de Junho 2020

O VIH não é um fator importante para a mortalidade nos doentes infetados com COVID-19. Na verdade, são as comorbilidades da doença as principais responsáveis pela taxa de mortalidade 10% superior na comunidade VIH. O ponto foi defendido numa conferência de imprensa promovida pela Gilead. De acordo com o Dr. Nuno Luís, assistente hospitalar de […]

O VIH não é um fator importante para a mortalidade nos doentes infetados com COVID-19. Na verdade, são as comorbilidades da doença as principais responsáveis pela taxa de mortalidade 10% superior na comunidade VIH. O ponto foi defendido numa conferência de imprensa promovida pela Gilead.

De acordo com o Dr. Nuno Luís, assistente hospitalar de doenças infeciosas do Hospital de Setúbal, “no contexto COVID, torna-se interessante sabermos que não é a infeção por VIH que provoca um maior risco de mortalidade, mas sim a presença de algumas comorbilidades muito particulares” como as doenças cardiovasculares, a diabetes, a doença respiratória crónica, o enfizema pulmonar e outras doenças metabólicas como fatores de risco. Por isso mesmo, o assistente hospitalar no Hospital de Setúbal defende ainda que os pacientes com esta condição não devem ser excluídos dos ensaios clínicos dos medicamentos para o COVID-19, e considera-os mesmo essenciais para a criação de vacinas e medicamentos.

A conferência de imprensa decorreu na passada quinta-feira, dia 18, e contou com um painel a quatro composto pela doutora Ana Cláudia Miranda, assistente graduada de doenças infeciosas no hospital Egas Moniz, em Lisboa, o Dr. Nuno Luís, e ainda o Dr. Mas Chaponda, consultor na área das doenças infeciosas do Hospital Royal Liverpool, que esteve presente através da plataforma Zoom. O moderador da conversa sobre “a gestão dos pacientes com VIH no contexto da pandemia de COVID-19” foi o Dr. José Vera, médico de Medicina Interna do Centro Hospitalar do Barreiro.

Em 2020 o VIH é uma doença relativamente controlada, especialmente quando comparados os números com os de há 15 anos, que conferiam ao VIH o estatuto de pandemia. É hoje possível ser portador do VIH e praticar um estilo de vida ativo e confortável. Ainda assim as maiores dificuldades permanecem os fatores sociais e o estigma para com a doença.

Naturalmente, a pandemia do COVID-19 em andamento traz especiais repercussões para estes pacientes.

Para a Dra. Ana Cláudia Miranda, “há uma interação sinérgica entre as duas [pandemias], que acabam por se interrelacionar e somar para o impacto na população afetada. Sabemos que isso acontece na população infetada por VIH ao haver uma interseção com o consumo de substâncias opioides, ou outros comportamentos aditivos, e na saúde mental em que este contexto já era conhecido no contexto do VIH por si só”.

“Surpreendentemente, estamos a lidar com doentes com algumas disrupções no sistema imunitário, e a verdade é que até à data não há provas de uma maior incidência do Sars-CoV-2 em doentes com VIH. Nomeadamente em doentes com tratamento antirretroviral, com valores normais de linfócitos TCD4 e com supressão virológica sustentada”. Neste sentido, os únicos dados disponíveis mostram apenas uma taxa de mortalidade 10% superior em pacientes com VIH.

As comorbilidades são um dos problemas latentes nos pacientes com VIH, apesar dos estudos transmitirem uma perspetiva otimista para os próximos 10 anos. “Estimamos que 70% dos doentes com VIH tenham pelo menos uma comorbilidade até 2030, sendo que 50%, ou mais, terão mais que uma. É um fator importante na medida em que as comorbilidades implicam várias coisas como a polifarmácia – que acarreta um maior risco de interações medicamentosas –, maior risco de descompensação dessas comorbilidades, e, no fundo, a doença VIH passa a ser quase secundária”, explicou o Dr. Nuno Luís recorrendo a um estudo da Lancet Infectious Diseases, de 2018.

“Fazendo o contraponto com aquela que foi a maior pandemia a nível global – o VIH – é surpreendente que tenhamos conseguido salientar algumas semelhanças entre as duas no seu comportamento e no impacto a nível da sociedade.

O estigma – muito por causa das medidas impostas para controlar e mitigar a pandemia, bem como alguns problemas causados pelo isolamento social imposto, como a ansiedade, a depressão, o medo e a insegurança”, começou por explicar a Dra. Ana Cláudia Miranda.

Para os doentes com VIH, os problemas da pandemia de COVID-19 advêm sobretudo da interrupção do funcionamento normal dos serviços de saúde. Esta interrupção está diretamente relacionada com a redução do número de testes e com interrupção das terapêuticas nestes pacientes, mas é também responsável pelo encerramento de algumas plataformas de apoio social.

Nos próprios hospitais, como relatou o Dr. Nuno Luís, a alocação de recursos foi também prejudicial para a gestão destes pacientes, uma vez que foram reduzidos os números de camas disponíveis e médicos de serviço nas unidades responsáveis pelo tratamento de doentes com VIH.

Em Portugal, a grande maioria das consultas médicas foi cancelada ou adiada com recurso à telemedicina. Apenas alguns doentes tiveram acesso a consultas presenciais com base numa traigem que com três critérios chave: episódios urgentes, o estado da doença e as comorbilidades. Uma solução temporária que, nas perspetivas do Dr. Nuno Luís e da Dra. Ana Cláudia Miranda, não é uma solução viável para os doentes com VIH. Isto porque, aos doentes, fica a faltar o conforto do médico e a psicoterapia necessária.

Na perspetiva britânica fornecida por Mas Chaponda, o COVID-19 veio também interromper as correntes de diagnóstico de VIH e dificultou o seguimento de doentes em situação de sem-abrigo, migrantes, trabalhadores da indústria do sexo e consumidores de drogas ejetáveis.

Ainda assim, o governo britânico optou por adotar algumas medidas que favorecem a luta contra a doença. Aos doentes que compareciam nos hospitais para serem testados ao COVID-19 foram realizados testes para o VIH. O número de testes autoadministrados também aumentou. Um dos pontos positivos foi ainda a retoma do interesse e interação hospitalar por parte de alguns pacientes com VIH, que se haviam tornado passivos em relação à doença – uma repercussão da ansiedade causada pela pandemia.

Para o Dr. Mas Chaponda, a pandemia é uma oportunidade de otimizar o sistema de tratamento dos doentes com VIH, e isso reflete-se em algumas das medidas tomadas. Com consultas simplificadas através de plataformas digitais e a introdução de terapia de pares e profissional através das mesmas tecnologias, o sistema inglês tenciona reduzir ao máximo as visitas aos hospitais – apenas para os pacientes mais instáveis e em casos mais sérios. Para o mesmo objetivo devem também contribuir receitas para seis meses e uma monitorização mais alargada, com consultas a cada seis meses.

NR/João Daniel Ruas Marques

 

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