António de Sousa Uva
Médico do trabalho, Imunoalergologista e Professor catedrático da NOVA (ENSP)

COVID-19: a “rectificação da curva” (e, um bocadinho, inclinada … para cima)

09/07/2020 | Opinião

Escassearão poucos dias para que tenham decorrido quase dois meses de “desconfinamento” como resultado “risonho” do (quase) sucesso da luta contra a transmissão entre pessoas do SARS-Cov-2 (o tal milagre …) e do seu consequente impacto na economia. Já é algum tempo.

Acicatam-se, agora, responsabilidades, as “politics” quase tomam conta das “policies” e “desvanecem-se” um pouco os neoespecialistas (alguns mesmo neocatedráticos, titulares de diversas cátedras) das áreas científicas de alguma forma conectadas ao combate à COVID-19. O diálogo com os investigadores e os académicos reacende-se na “espuma” mediática da busca, parece, de explicações mais robustas para a situação actual do que para a aplicação das mais adequadas estratégias de acção. Eram essas que deveriam ser a prioridade.

Tal como no futebol profissional, a equipa não está a ganhar e recorre-se ainda a uma ténue mudança de treinadores não no contexto de provocar uma “chicotada psicológica”, mas, outrossim, de robustecer a forma mais organizada de lutar contra esta “teimosia” do vírus. Uma região do país adquire o estatuto de “bête noire”, como anteriormente já a denominei, e o seu impacto na retoma é, de facto, demolidor como parece acontecer ao melhor destino turístico do mundo (uma espécie de Ronaldo dos destinos turísticos) com um, igualmente, demolidor impacto na vida das pessoas.

De facto, o número de novos casos não só não decresceu como não se manteve estável ainda que os óbitos, a ocupação dos Cuidados Intensivos e o número de outros internados se mantenha, aparentemente, estável no seu declínio ou, mesmo, com uma (ainda) tendência decrescente.

Os “combatentes” não estão agora, essencialmente, nos hospitais e, contrariamente, por exemplo, aos Cuidados Intensivos, qualquer um agora perora sobre os aspectos técnicos do exercício da Medicina de Saúde Pública e de outras áreas técnicas de intervenção organizada no combate a doenças em grupos de pessoas (é isso mesmo a Saúde Pública). Assinale-se, no entanto, que os profissionais de Saúde Pública estão nesse combate até antes da visibilidade do impacto mediático da pandemia e há muitas décadas que, organizadamente, se dedicam a um lado menos visível da protecção da saúde (e também da sua promoção).

Ensurdecem-se agora as palmas e “ensaiam-se” respostas “improvisadas” num contexto de aceitação que os recursos (entre outros, organizacionais, humanos, financeiros, materiais) não são suficientes para o actual combate o que, de resto, é bem aceitável não fosse o caso de já serem muito insuficientes sem o actual estímulo pandémico. Dito de outra forma: “a pistola já lá estava e a COVID-19 foi quem deu ao gatilho”.

Regressam os grupos organizados clamando, com insistência, a reparação daquelas insuficiências. Temo que passada a intempérie pandémica, que tudo leva a crer ainda está para durar, a memória se desvaneça e a prontidão na resposta a emergências em Saúde Pública se “desleixe” um pouco por todo o mundo. Pelo menos é isso que tem sido a regra nos últimos tempos, apesar das emergências em Saúde Pública variarem na razão inversa.

A gestão do risco numa emergência em Saúde Pública tem, mais uma vez, de assentar na “teoria do risco” e não na “teoria da culpa” por uma razão simples: quem é mais atingido não tem nenhuma culpa e a nossa missão, como sociedade, é proteger esses cidadãos mesmo que não sejam exímios na adopção das mais adequadas atitudes e dos melhores comportamentos de prevenção. Essa é outra matéria a desenvolver pelas sociedades modernas: “impregnar” a saúde em todas as políticas e contribuir para a capacitação de todos no combate às doenças e na adopção de estilos de vida mais saudáveis, promovendo a autonomia nessas escolhas. É que não há ninguém mais interessado na sua saúde do que o próprio …

Centrar o sistema de saúde no cidadão tem, definitivamente, de deixar o seu contexto de “figura retórica” tanto nas “politics” como nas “policies” e passar a ser, de facto, uma missão de todos. Também, e sobretudo, na Saúde Pública.

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