Explicados os efeitos adversos de ensaios clínicos de medicamentos para o cancro

29 de Julho 2020

Uma equipa de investigadores da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia (NTNU), que investigava como um certo tipo de medicamento conseguia matar células, descobriu que esses mesmos medicamentos podem fazer mais mal que bem quando utilizados em combinação com outros tratamentos para o cancro.

Os investigadores queriam saber mais sobre a forma como os medicamentos, que são calledpan-Bcl-2 ou inibidores específicos Bcl-xL, levam à morte celular, especialmente em células com danos no RNA, ADN ou proteínas.

Eles tiveram um palpite de que os fatores químicos e físicos que causam danos no ADN, RNA ou nas proteínas de células saudáveis – como é o caso de tratamentos como a radiação – podem também predispor as células que antes eram saudáveis a morrer se forem expostas aos medicamentos inibidores pan-Bcl-2 ou Bcl-xL. Um número de tratamentos cancerígenas utiliza esta combinação de medicamentos e outros tratamentos para tentar combater cancros que se tenham tornado resistentes a tratamentos de um medicamento apenas. Ao que parece, o seu palpite estava certo.

Os problemas com os ensaios clínicos
“O nosso estudo explica poque é que ensaios clínicos com 31 combinações de medicamentos que incluem inibidores Bcl-2 foram encerrados, retirados ou suspensos”, diz Denis E. Kainov, o autor sénior do estudo que foi publicado na MDPI Cancers. Kainov é professor associado no Departamento de Medicina Clínica e Molecular da  NTNU.

Kainov identificou especificamente ensaios com o medicamento pan-Bcl-2 navitoclax e abiraterone, e rituximab em pacientes com recaídas de linfoma difuso de grandes células B, e navitoclax mais acetato de abiraterone com ou sem hidroxicloroquina em pacientes com cancro da próstata metastico progressivo castratório (NCT02471391, NCT01423539).

“Achamos que os médicos e pacientes devem estar cientes dos efeitos adversos de certos medicamentos como navitoclax”, disse Aleksandar Ianevski, o principal autor do estudo e candidato a doutoramento no Departamento de Medicina Clinica e Molecular da NTNU. “Esta informação tem o potencial de salvar vidas e melhorar o tratamento para os pacientes com cancro”.

Testado em células de nematodes
Os investigadores testaram a sua ideia ao expor pequenas lombrigas a substancias danificadoras de ADN com o inibidor específico Bcl-xl.

Os nematodes que foram tratados com duas substâncias morreram mais rápido do que os que receberam apenas uma ou nenhuma substância. Foram ainda observados defeitos reprodutores e de desenvolvimento nas lombrigas que receberam a combinação de medicamentos.

A toxicicidade do tratamento combinativo foi também testada em células saudáveis e não-malignas de cães, humanos e macacos, e resultou na morte de todas as células. Um teste semelhante em células malignas mostrou que a combinação dos tratamentos mataria estas células de forma igual. Mas, uma vez que o objetivo de um tratamento anticancerígena é matar as células malignas enquanto as benignas permanece, esta combinação não cumpre os requisitos.

Infeções virais podem vir a ser um problema
Quando as células são infetadas por um vírus, este vírus insere nelas o seu próprio RNA ou ADN e torna-as numa máquina de fazer vírus.

Os inibidores específicos Bcl-xL ou pan-Bcl-2 causam a morte destas células infetadas. Segundo Kainov, os inibidores específicos Bcl.xL ou pan-Bcl-2 podem ter efeitos adversos porque os pacientes com cancro podem ser infetados com diferentes vírus, como herpes, coronavírus ou influenza. 

NR/HN/João Daniel Ruas Marques

 

 

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