Confinamento associado a aumento da pressão arterial

28 de Novembro 2020

O isolamento social devido à pandemia de COVID-19 está associado a um aumento da pressão arterial elevada entre os doentes admitidos nos hospitais em situação de urgência. Esta é a conclusão de um estudo apresentado no 46º Congresso Argentino de Cardiologia (SAC).

“A admissão no serviço de urgência durante o período de isolamento social obrigatório foi associada a um aumento de 37% das probabilidades dos doentes apresentarem hipertensão, mesmo tendo conta a idade, sexo, mês, dia e hora da consulta, e se o paciente chegou ou não de ambulância”, referiu o autor do estudo, Dr. Matías Fosco, do Hospital Universitário da Fundação Favaloro (Buenos Aires).

O isolamento social obrigatório devido à Covid-19 foi implementado a 20 de março na Argentina como parte de um confinamento geral. Disseram às pessoas para ficarem em casa, exceto os trabalhadores essenciais (por exemplo, médicos e enfermeiros). A população em geral foi autorizada a sair de casa apenas para comprar alimentos, medicamentos e material de limpeza. As escolas e as universidades foram encerradas, e os eventos públicos foram suspensos.

“Após o início do isolamento social, observámos que mais pacientes chegavam à Urgência com pressão arterial elevada”, referiu o Dr.  Matías Fosco. “Realizámos este estudo para confirmar ou rejeitar esta impressão”.

O estudo foi realizado no Departamento de Emergência do Hospital Universitário da Fundação Favaloro. A frequência da pressão arterial elevada entre pacientes com 21 ou mais anos durante os três meses de isolamento social (20 de março a 25 de junho de 2020) foi comparada com dois períodos anteriores: os mesmos três meses em 2019 (21 de março a 27 de junho de 2019) e os três meses imediatamente anteriores ao isolamento social (13 de dezembro de 2019 a 19 de março de 2020).

A pressão arterial é uma medida padrão na admissão no Serviço de Urgência e quase todos os pacientes (98,2%) admitidos entre 21 de março de 2019 e 25 de junho de 2020 foram incluídos no estudo. As razões mais comuns para a admissão foram dores no peito, falta de ar, tonturas, dor abdominal, febre, tosse e hipertensão.

O estudo incluiu 12.241 pacientes. A idade média foi de 57 anos; 45,6% eram mulheres. Durante os três meses de isolamento, 1.643 pacientes foram admitidos no Serviço de Urgência, correspondendo a menos 56,9% em comparação com os mesmos três meses de 2019 (3.810 pacientes) e 53,9% menos do que durante os três meses imediatamente anteriores ao confinamento (3.563 pacientes).

Durante o período de isolamento social, 391 pacientes (23,8%) admitidos no Serviço de Urgência tinham pressão arterial elevada. Esta proporção era significativamente mais elevada em comparação com o mesmo período de 2019 (17,5%), e com os três meses anteriores ao confinamento (15,4%).

De acordo com o Dr. Matías Fosco,”há várias razões possíveis para a ligação entre isolamento social e pressão arterial elevada. Por exemplo, o aumento do stress devido à pandemia, com contactos pessoais limitados e o aparecimento ou agravamento de dificuldades financeiras ou familiares. Os comportamentos alterados podem ter desempenhado um papel significativo, com maior ingestão de alimentos e álcool, estilos de vida sedentários e aumento de peso”.

O investigador observou que as razões para a admissão na Urgência foram semelhantes entre os períodos estudados, pelo que não foram responsáveis pelo aumento da pressão arterial elevada. Mas, na sua opinião, “os pacientes podem ter sentido mais pressão psicológica durante o transporte para o hospital devido a restrições da viagem, controlos policiais, e ao medo de serem infetados com o coronavírus depois de saírem de casa. Além disso, os pacientes que estavam a tomar medicamentos para a hipertensão podem ter deixado de os tomar devido a avisos preliminares sobre possíveis efeitos adversos nos outcomes da Covid-19 (que foram posteriormente desmentidos)”.

“O controlo da pressão arterial ajuda a prevenir ataques cardíacos, AVC e doenças graves derivadas da Covid-19, pelo que é essencial manter hábitos de vida saudáveis, mesmo sob condições de isolamento social e de confinamento. Entretanto, muitos constrangimentos relacionados com a pandemia diminuíram. Estamos a investigar se isso se reflete na pressão arterial dos pacientes admitidos na Urgência”.

O Dr. Héctor Deschle, Presidente do Programa Científico da SAC 2020, afirmou: “Este estudo ilustra os danos colaterais gerados pelo isolamento. Tem havido uma diminuição significativa nas consultas de cardiologia, o que inevitavelmente conduz a complicações que podiam ser evitadas. Mas gostaria de salientar os danos psicológicos apontados pelos autores, que percebemos diariamente nas consultas e que são expressos como medo, desesperança, irritabilidade e dificuldade de concentração. Isto afeta as relações interpessoais e a saúde física. Este estudo evidencia as consequências concomitantes do surto e as restrições utilizadas para lutar contra o mesmo”.

O professor José Luis Zamorano, embaixador regional da Sociedade Europeia de Cardiologia no SAC 2020, afirmou: “Este estudo, muito interessante, destaca simplesmente que nós, como cardiologistas, devemos estar atentos aos nossos pacientes para além da pandemia. Se não tratarmos e acompanharmos cuidadosamente os nossos doentes cardíacos durante a pandemia, veremos um aumento de resultados adversos no futuro”.

Informação bibliográfica completa:

Lockdown due to the COVID-19 pandemic is associated with an increase in high blood pressure among patients admitted to emergency. That’s the finding of a study presented at the 46th Argentine Congress of Cardiology (SAC).

 

NR/AG/Adelaide Oliveira

 

 

 

 

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