Investigadores da OMS explicam baixas taxas de Covid-19 em África

28 de Dezembro 2020

O número de casos e de mortes invulgarmente baixos de Covid-19 em África podem dever-se a uma população jovem e dispersa, e ao clima quente e húmido, que se interrelacionam para potenciar os seus efeitos individuais, de acordo com investigações desenvolvidas pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Em maio, a OMS previu que até 190.000 pessoas poderiam morrer e até 44 milhões seriam infetadas pelo novo coronavírus no primeiro ano da pandemia, se as medidas de contenção em África falhassem.

Nas últimas quatro semanas, apenas foram comunicados 77.147 novos casos de Covid-19 , face aos 131.647 registados nas quatro semanas anteriores, segundo as últimas estatísticas do Escritório Regional da OMS para África.

“África não testemunhou uma propagação exponencial de Covid-19 como muitos inicialmente temiam”, referiu Matshidiso Moeti, diretor regional da OMS para África. “Mas a propagação mais lenta da infeção na região significa que esperamos que a pandemia continue a propagar-se durante algum tempo, com surtos ocasionais”.

De acordo com os Centros Africanos de Controlo e Prevenção de Doenças, desde que o continente registou o seu primeiro caso em fevereiro, foram reportados cerca de 1,5 milhões de casos de Covid-19 e 35.750 mortes em África até 29 de setembro.

Os dados mostram que os casos de Covid-19 envolvem, na sua maioria, pessoas com mais de 60 anos de idade. Em África, a idade média da população é de 19,4 anos. Cerca de 60% tem menos de 25 anos de idade.

Apesar dos baixos números do continente africano, Matshidiso Moeti adverte os países para não se tornarem complacentes. “Outras regiões do mundo registaram tendências semelhantes apenas para descobrir que quando as medidas sociais e de saúde pública abrandam, os casos começam a aumentar de novo”, advertiu.

Monica Musenero, epidemiologista e conselheira presidencial sénior do Uganda sobre epidemias, diz que as hipóteses de África poder ser o próximo epicentro de Covid-19 são elevadas, apesar das atuais baixas taxas de infeção e de morte.

O vírus teve vários epicentros, começando na China em dezembro de 2019 antes de se deslocar para a Europa e as Américas, mas tem continuado a evoluir em África, salienta.

“No início, vários países entraram em confinamento, incluindo o encerramentos de aeroportos. Estas intervenções no terreno resultaram, em grande parte dos casos, no abrandamento da propagação”, diz Monica Musenero, advertindo que muitos países africanos estão agora a começar a aliviar as medidas preventivas por sua conta e risco.

Leonard Mboera, cientista de investigação sénior do Centro para a Vigilância de Doenças Infeciosas na África Austral (SACIDS), questionou os métodos utilizados para recolher dados da Covid-19 em África.

“Devido à desinformação generalizada sobre a Covid-19, é improvável que a maioria das pessoas infetadas pelo vírus esteja a procurar cuidados em instalações de saúde convencionais, e por isso não são detetadas pelos sistemas”, explica o investigador.

“A maioria dos estabelecimentos de saúde são obrigados a apresentar relatórios semanais e mensais aos distritos e ministérios [de saúde]. Eles fazem-no, mas quando analisamos os dados submetidos, verificamos que a sua qualidade é muito baixa, não referem o diagnóstico, idade ou sexo das pessoas, e por vezes, o que é submetido é diferente do que está disponível nas instalações”, acrescenta.

Na ausência de dados provenientes de testes em massa, o verdadeiro impacto da doença continua a ser pouco claro em alguns países.

“Embora os governos tenham feito esforços para melhorar a capacidade de testagem de Covid-19, passando de 74 testes por 10.000 pessoas em 44 países avaliados a 23 de agosto, para 93 por 10.000 pessoas a 21 de setembro, o nível ainda é baixo”, diz a OMS.

Tanimola Akande, professor de Saúde Pública na Universidade de Ilorin, na Nigéria, explica que a falta de testagem em África é atribuída à baixa densidade de instalações para a realização de testes, deficiente rastreio dos contactos e a uma atitude pública inadequada face à pandemia. “Há muita subnotificação de casos sintomáticos”, acrescenta.

NR/AG/Adelaide Oliveira

 

 

 

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