16/06/2021 | Opinião

Vamos apagar o fogo

Mário André Macedo
Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil e Pediátrica

A situação na região de Lisboa agrava-se. A região já ultrapassou a marca dos 240 casos por cem mil habitantes, encontrando-se claramente na zona vermelha de risco. Quase 70% dos novos casos foram na área metropolitana, assim como os óbitos e a pressão hospitalar estão concentradas em Lisboa.

O crescimento exponencial é mesmo assim, impercetível numa primeira fase, irrecuperável numa segunda fase. Para complicar as contas, todas as novas variantes apresentam transmissão comunitária. A mais transmissível, a variante Delta, encontra-se concentrada na região, sendo uma das explicações que alimenta o aumento de novos casos. A influência dos determinantes sociais também não pode ser ignorada. Pessoas expostas sistematicamente a fatores de risco, com menos meios de proteção e rede social, são previsivelmente, mais infetadas. Parte da solução começa nas respostas sociais e na acessibilidade à rede de proteção.

Não podemos ignorar, que LVT encontra-se com a vacinação atrasada em relação a outras regiões. É algo que persiste quase desde o início da campanha de vacinação. Seria importante ter menos disputas regionalistas e mais atenção e análise a este problema. Qual a justificação para o atraso? O problema é central ou é das autoridades locais? Em conjugação com este atraso, temos a diminuição dos testes. Sabemos que a base do controlo da pandemia relaciona-se com a testagem, tanto de forma atempada como na forma preventiva em larga escala. A saúde pública não viu os seus meios reforçados de forma permanente. No último relatório sobre a capacidade de contacto, 11% dos casos positivos não foram contactados nas primeiras 24h. Pode parecer um dado animador, mas conhecendo as limitações de meios da região e as solicitações que aumentam dia após dia, será fácil perceber que os casos não contactados atempadamente encontram-se todos em Lisboa. O que torna esta estatística mais preocupante.

Outra utilização das vacinas, defendida por alguns especialistas de saúde pública, passa por disponibilizar uma maior quantidade nos sítios onde existe um surto em curso. Neste cenário, LVT precisaria não apenas de recuperar a desvantagem, como sofrer de uma ligeira discriminação positiva para apagar o surto em curso. A estratégia de alocar mais recursos onde fazem mais falta, é totalmente racional e adequada. Não queremos transformar um problema regional numa questão nacional. Sem constrangimentos ou querelas regionalistas, precisamos de agir e resolver rapidamente uma situação que agrava dia após dia.

A nova variante Delta condiciona a forma de vacinar. Os dados que vêm do Reino Unido, mostram que as vacinas continuam a ser eficazes na prevenção da doença grave: reportam que internam hoje, metade dos doentes que internavam em janeiro. Mas precisamos de duas doses. Nós vacinamos muitos idosos com AstraZeneca (AZ), que requer 12 longas semanas de intervalo. É uma janela de risco demasiado longa. Temos de considerar, à luz da nova evidência, a antecipação da segunda dose de 12 para 8 semanas. Os novos estudos também demonstram ser possível combinar uma segunda dose de Pfizer a uma primeira de AZ. É, sem dúvida, um passo que deve ser considerado.

Reduzir rapidamente a população suscetível, manter o ritmo de vacinação elevado, manter a pressão sobre o SNS em níveis suportáveis e que não condicionem a atividade programada e manter a vigilância genética do Sars-Cov-2 são os nossos maiores objetivos de curto prazo. O grande prémio para todas e todos nós, mais do que ganhar o europeu de futebol, seria ter um verão normalizado, com a atividade económica a recuperar, produzindo empregos e riqueza, tendo a Covid controlada em todo o território.

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