Miguel Botton: “Muitos doentes apareceram na consulta de mão e punho com queixas relacionadas com o teletrabalho”

02/03/2022
As medidas implementadas durante a pandemia resultaram em mais doentes com problemas nas articulações. Segundo Miguel Botton, Membro da Unidade do Punho e Mão do Hospital CUF Descobertas, “a postura menos correta durante a atividade laboral fez com que surgissem algumas questões relacionadas a um processo inflamatório tendinoso”. Apesar deste aumento, o especialista esclarece que o tratamento de primeira mão passa por medicação, reabilitação, fisioterapia e infiltrações. Cirurgia só “quando o tratamento conservador falha”.

HealthNews (HN)- Tem larga experiência na área da cirurgia ortopédica de mão e punho. Enquanto especialista nesta área, de que forma o uso correto das mãos afeta a postura do corpo todo?

Miguel Botton (MB)- Nos últimos dois anos houve muitos doentes que apareceram na consulta de mão e punho com queixas relacionadas com o teletrabalho. A postura menos correta durante a atividade laboral fez com que surgissem algumas questões relacionadas a um processo inflamatório tendinoso, em que a postura do punho começa a gerar queixas.

HN- Pacientes com doenças reumáticas podem ser tratados nestas unidades de Punho e Mão?

MB- As artrites enquadradas na patologia inflamatória – artropatia reumática e psoriática – podem ser tratadas por nós. Temos muitos doentes que nos chegam da reumatologia porque acabam por esgotar o tratamento médico e de precisar de nós, do ponto de vista cirúrgico.

HN- Em que casos é aconselhado avançar com uma cirurgia?

MB- Quando o tratamento conservador falha. Ou seja, quando o doente após medicação, reabilitação, fisioterapia e infiltrações não apresenta melhorias. No entanto, o mesmo pode acontecer nos casos em que o doente já tinha síndrome do canal cárpico, mas que agravou.

HN- Quais são as principais dúvidas e receios dos pacientes?

MB- Há doentes muito receosos de fazer qualquer tipo de cirurgia. Ficam muito preocupados sobre o funcionamento da anestesia e a necessidade de internamento. O tempo de recuperação e os riscos inerentes são outro tipo de perguntas frequentes por parte dos doentes.

Tentamos sempre esclarecer todas essas dúvidas e destacar o facto de 99,9% das nossas cirurgias serem realizadas em regime ambulatório e sem necessidade de anestesia geral. Quando explicamos isto tudo conseguimos com que o doente fique mais descansado.

HN- Quais as abordagens que são atualmente implementadas na área da cirurgia em punho e mão?

MB- Em muitas das cirurgias que fazemos, na área de lesões traumáticas, utilizamos a artroscopia do punho, em que são realizadas pequenas incisões para tratar alterações nas articulações. No caso do síndrome do canal cárpico, quanto mais pequena a incisão, melhor é a recuperação.

HN- Em Portugal, as técnicas minimamente invasivas são implementadas pelas Unidades de Punho e Mão?
MB- Infelizmente em Portugal não há subespecialidade de cirurgia da mão. No Brasil, um médico ortopedista pode, ao longo de dois ou três anos, fazer uma subespecialidade nesta área, cá isso não acontece… Portanto, quem faz cirurgia da mão quase em exclusivo, utiliza essas técnicas minimamente invasivas. São técnicas mais exigentes do ponto de vista técnico, sendo, por isso, necessária formação associada para ter uma taxa de sucesso alta.

HN- Uma nota final

MB- Considero que os doentes devem, cada vez mais, procurar subespecialização. A cirurgia da mão é uma área muito especifica, a qual refere uma formação mais exclusiva.

Entrevista de Vaishaly Camões

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