24/05/2022 | Entrevistas, Osteoporose2

Dr. Tiago Meirinhos: “O FRAX deve ser aplicado a todas as pessoas com mais de 50 anos”

Tiago Meirinhos, secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Reumatologia e coordenador da Unidade de Reumatologia do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa

“As ferramentas informáticas disponíveis no sistema de saúde deveriam permitir que o cálculo do FRAX fosse automático”, defende ainda o reumatologista Tiago Meirinhos, secretário-geral da Sociedade Portuguesa de Reumatologia e coordenador da Unidade de Reumatologia do Centro Hospitalar do Tâmega e Sousa. “Este score tem em linha de conta vários aspetos clínicos que podem perfeitamente ser inseridos automaticamente pelos sistemas de informação”.

HealthNews (HN) – Qual é a prevalência da osteoporose em Portugal?

Tiago Meirinhos (TM) – A prevalência da osteoporose na população portuguesa ronda os 10%. É claramente superior no sexo feminino, o que está relacionado com as causas naturais da fisiopatologia da osteoporose, verificando-se frequentemente um decréscimo da massa óssea após a menopausa. Também atinge o sexo masculino mas, maioritariamente, é provocada por causas secundárias. 

Em termos gerais, a doença atinge cerca de 1 milhão de pessoas, a maioria das quais não faz qualquer tratamento ou nem sabe que tem a doença. 

O rastreio ainda não é ainda eficaz e mesmo nos doentes em que é realizado, muitas vezes não é seguido de tratamento. 

HN – Os dados do SCOPE 2020 analisaram a situação dos vários países da União Europeia no que diz respeito à osteoporose. Neste quadro, como é que Portugal compara com a Europa?

TM – O SCOPE é um estudo multicêntrico que permite fazer comparações a nível europeu e a verdade é que, não sendo muito bons, também não somos dos piores. 

Temos ainda uma baixa percentagem de doentes com osteoporose e indicação terapêutica a fazerem tratamento, e um nível muito limitado de literacia neste domínio. A adesão terapêutica é muitas vezes diminuída porque os doentes não compreendem o real impacto que esta doença pode ter. 

HN – É previsível que com o envelhecimento da população – e Portugal é um dos países mais envelhecidos do mundo –  o problema da osteoporose adquira ainda maior gravidade nos próximos anos?

TM – Sabemos que a osteoporose está diretamente ligada ao envelhecimento.  Nesse sentido, o aumento da esperança média de vida e o número crescente de idosos, faz antever um aumento do número de doentes com osteoporose e, principalmente, de fraturas osteoporóticas. 

É de esperar que as fraturas de baixo impacto da anca aumentem de forma exponencial até 2050, com custos muito elevados para os doentes e os sistemas de saúde. Esse é o grande outcome que queremos, obviamente, evitar. 

HN- Existe um baixo investimento no tratamento da osteoporose. Na sua perspetiva, o que é preciso fazer?

TM – Como não existe um rastreio efetivo e a maioria das pessoas só é diagnosticada depois da fratura acontecer, a prevenção realmente não existe e o tratamento, que poderia ser muito importante para os doentes que têm indicação terapêutica, também não é feito. 

Na osteoporose, mais de 95% da despesa está relacionada com o tratamento das fraturas, acidentes que poderiam ser evitados. 

HN – O que poderíamos esperar com uma estratégia sustentada de prevenção?

TM – Após alguns anos, acredito que os números de fraturas iriam diminuir de forma substancialmente e, obviamente, os custos também.

HN – De acordo com o estudo SCOPE, os custos são extremamente elevados não só para os sistemas de saúde mas também para os doentes…

TM – As pessoas acabam por ter custos diretos e indiretos muito elevados porque uma fratura tem um impacto muito grande na vida dos doentes, muitas vezes com perda de qualidade de vida e de independência. 

Na minha perspetiva, a perda de qualidade de vida e a mortalidade são os principais custos que temos de evitar.

HN – Em relação à ocorrência de fraturas, qual pode ser a diferença entre um doente a fazer tratamento relativamente a outro que não o faz?

TM – Quando os doentes têm indicação terapêutica para iniciar o tratamento (e existem várias), e quando são bem tratados, a probabilidade de terem uma fratura diminui drasticamente.  A osteoporose é uma doença silenciosa, exceto quando surge a fratura. É isso que queremos evitar. 

HN – Considera que a osteoporose já é suficientemente valorizada pelos médicos?

TM – Nesta área, a maioria dos doentes são indivíduos idosos, com múltiplas patologias. Frequentemente, os sistemas de saúde e, nomeadamente os cuidados de saúde primários, estão muito focados nas patologias cardiovasculares e oncológicas. Como a osteoporose não entra neste campo, muitas vezes a avaliação não é feita. Não porque o médico desvalorize a doença mas porque não se lembra de abordar este problema na consulta. Por outro lado, a osteoporose continua a ser desvalorizada pelos doentes, que só se lembram que ela existe depois da fratura ocorrer. E os médicos, por vezes preocupados com a abordagem das multipatologias do doente, acabam por não colocar a osteoporose como uma das suas prioridades. 

HN – Considera que o FRAX deveria ser aplicado de uma forma sistemática na consulta?

TM – O FRAX deve ser aplicado a todas as pessoas com mais de 50 anos. Anualmente ou a cada dois anos. Seguidamente, de acordo com os resultados, o médico decidirá se deve solicitar uma densiometria óssea, iniciar tratamento ou alterar algum fator que condicione um risco acrescido para esses doentes. 

Por outro lado, as ferramentas informáticas disponíveis no sistema de saúde deveriam permitir que o cálculo do FRAX fosse automático. Este score tem em linha de conta vários aspetos clínicos que podem perfeitamente ser inseridos automaticamente pelos sistemas de informação, revelando os valores do risco fraturário.

Os médicos, e particularmente os especialistas de Medicina Geral e Familiar, deverão incorporar a osteoporose no protocolo de seguimento dos doentes, principalmente dos mais idosos. Isso significa abordar, rastrear, tratar e pensar nesta doença silenciosa. 

 

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