Prémios Santa Casa distinguem regeneração medular e tratamento de Parkinson

18 de Novembro 2022

Os Prémios Santa Casa Neurociências distinguem este ano trabalhos de investigação sobre a regeneração da medula espinal em ratinhos e a estimulação cerebral profunda em doentes de Parkinson, anunciou esta quinta-feira a organização.

A equipa liderada por Mónica Mendes de Sousa (i3S – Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da Universidade do Porto) venceu o Prémio Melo e Castro, destinado à investigação sobre recuperação e tratamento de lesões vertebromedulares, enquanto o grupo coordenado por Paulo de Castro Aguiar (também do i3S) foi distinguido com o Prémio Mantero Belard, atribuído a trabalhos sobre prevenção e tratamento de doenças neurodegenerativas.

Os Prémios Neurociências são promovidos anualmente pela Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e têm o montante, por categoria, de 200 mil euros.

A equipa de Mónica Mendes de Sousa, que já tinha sido distinguida em 2019 com o Prémio Melo e Castro, propõe-se “comparar a resposta” de duas espécies de ratinhos a uma lesão na medula. Os ratinhos ‘Acomys’ são capazes de voltar a andar após uma lesão completa da medula espinal, o que os torna únicos entre os mamíferos, enquanto os ratinhos ‘Mus’ não têm essa capacidade regenerativa.

À Lusa, a neurocientista disse que o “conhecimento adquirido” na análise genética comparada entre as duas espécies de roedores, em diferentes tempos após a lesão, permitirá modificar o ambiente e os neurónios (células) da medula espinal dos ratinhos ‘Mus’ “de forma a tornar esta espécie capaz de regenerar”.

“Este poderá ser um ponto de partida para o desenvolvimento de novas terapias para doentes com lesão medular”, assinalou Mónica Mendes de Sousa, acrescentando que “os principais obstáculos para o tratamento” de lesões no cérebro e da medula espinal “são a formação de uma cicatriz no local da lesão e a incapacidade de os neurónios adultos regenerarem”.

Paulo de Castro Aguiar, especialista na área de neuroengenharia, lidera a equipa que pretende melhorar a eficácia da estimulação cerebral profunda, tratamento usado para reduzir sintomas da doença de Parkinson (que afeta o controlo dos movimentos) quando os pacientes não respondem à medicação.

A equipa quer tirar partido de uma “nova geração de neuroestimuladores implantáveis”, que, além de enviarem impulsos elétricos, registam a atividade neuronal da zona do cérebro dos doentes que está a ser estimulada.

Os dados neurofisiológicos dos doentes, assim registados, podem servir de marcadores que “serão explorados” para melhorar os tratamentos, de acordo com uma nota explicativa da SCML.

Os médicos “poderão avaliar os tratamentos, não só com base em parâmetros exteriores”, tais como sinais motores como o tremor, mas também “com base em informação sobre a atividade neuronal”, explicou à Lusa Paulo de Castro Aguiar.

O objetivo principal do projeto de investigação, que analisará dados de 20 a 25 pacientes, “é usar os sinais elétricos neurofisiológicos, patológicos” transmitidos pelos neuroestimuladores para “desenvolver novas tecnologias de estimulação cerebral profunda ‘inteligentes'” para doentes de Parkinson.

“Isso permitirá terapias personalizadas e específicas para os sintomas. Cada paciente será estudado individualmente para identificar assinaturas de atividade neuronal que possam refletir estados e sintomas específicos da doença”, adiantou Paulo de Castro Aguiar.

A Misericórdia de Lisboa anunciou ontem também que David Berhanu é o vencedor da edição deste ano do Prémio João Lobo Antunes, destinado a licenciados em Medicina em regime de internato médico.

David Berhanu, médico interno de neurorradiologia no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, pretende testar o uso do exame ecografia como método de diagnóstico e monitorização da pressão intracraniana de doentes com patologias neurológicas e neurocirúrgicas.

“A ecografia é uma técnica muito rápida e barata comparativamente aos métodos invasivos, como punção lombar ou cateter invasivo intracraniano, podendo trazer não só benefícios para os doentes, mas também benefícios económicos, nomeadamente em custo-eficácia, para o Serviço Nacional de Saúde”, justificou à Lusa.

No valor de 40 mil euros, o Prémio João Lobo Antunes foi instituído em 2017 em homenagem ao neurocirurgião com o mesmo nome (1944-2016) e “visa estimular a cultura científica e a investigação clínica na área das neurociências”.

Criados em 2013, os Prémios Santa Casa Neurociências homenageiam José Melo e Castro (1914-1972), ex-provedor da SCML que esteve na génese do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, e Enrique Mantero Belard (1903-1974), benemérito da SCML.

Estas bolsas destinam-se a investigadores nacionais ou estrangeiros residentes em Portugal.

LUSA/HN

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