Quando um hospital oncológico é um “porto seguro” difícil de abandonar

12 de Fevereiro 2023

Telefonemas de pais que vivem a 200 quilómetros de distância, visitas só para procurar “colinho”, encontros anuais de famílias ou grupos de sobreviventes são exemplos que fazem do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto um “porto seguro”.

A educadora de infância Filomena Maia trabalha no IPO do Porto há 32 anos. Não sabe já quantas crianças, pais e mães conheceu, ao longo destas três décadas, mas se os vir na rua reconhece-os pelo nome ou pela voz.

“Somos uma família”, diz à agência Lusa, numa entrevista dedicada ao Dia Internacional das Crianças com Cancro que se assinala quarta-feira.

Filomena Maia é um dos rostos do “colinho” que Flávia Silva e Paula Vicente, mães de crianças que tiveram cancro e passaram pelo IPO do Porto, procuram quando lá têm de regressar para os exames de despiste da doença.

“Há quem diga que nunca mais volta ao 12.º piso [de pediatria oncológica do IPO] onde a Teresinha esteve internada. Não é o nosso caso. Se pudesse, era ali que ia sempre que a minha filha tem alguma coisa”, diz Flávia.

Mas não pode ser assim. “Há que os deixar ir. A determinada altura tem de ser”, responde a professora Renata Fernandes que acompanha as crianças internadas que estão a frequentar o 1.º Ciclo e faz parte de uma equipa educativa que tem duas educadoras de infância e dois professores.

A diretora do serviço de pediatria do IPO do Porto, Ana Maia, explica melhor. “O IPO não pode fazer a vigilância de pediatria geral de todas as crianças que foram tratadas aqui, mas sempre que necessário, os pais e os colegas [de outros hospitais e dos cuidados primários] podem contactar-nos. O pediatra de serviço é logo acionado quando um colega tem alguma suspeita. Podemos antecipar consultas que estavam programadas ou marcar consultas de imediato”, descreve.

Ana Maia percebe, dos pais, “a sensação de proteção” que o hospital oncológico que conheceram numa fase tão difícil da sua vida lhes transmite.

Filomena Maia acrescenta: “Não que [os pais] não confiem nos outros médicos, mas os médicos daqui têm outro peso”.

É isso que sente Paula Vicente. O IPO é para ela um “porto seguro”, tal como foi mais de um ano a casa da Acreditar no Porto onde viveu com a filha e onde chegou a passar um Natal.

Filomena Maia e Renata Fernandes conhecem esta narrativa. Não raras vezes – embora a pandemia da Covid-19 tenha introduzido novos hábitos – recebem na salinha de atividades do IPO crianças e pais que já tiveram alta.

“Tive uma criança que me perguntou quando teve alta: ‘e agora onde é que eu vou brincar?’”, conta a educadora, sem esconder que ela própria se confronta com a dificuldade de conciliar a felicidade de ver uma criança sair do IPO e a gestão da angústia que vê nos olhos dos pais.

Já Renata Fernandes alerta para a necessidade de serem criados grupos de suporte emocional dedicados a pais e admite ser “impossível ver e participar num processo de mudança e fragilidade tão intenso e não ter uma sensação de paternidade”.

Em Portugal são diagnosticadas, anualmente, cerca de 400 crianças com cancro. A taxa de cura ronda, atualmente, os 80%, sendo superior à da maioria dos casos em adultos.

“São percentagens. Valem o que valem. Eu não falo em percentagens porque cada criança é uma criança”, diz Ana Maia à Lusa, acrescentando que “as taxas de sobrevivência são diferentes conforme a criança e o tipo de cancro”.

A equipa inter-hospitalar em cuidados paliativos pediátricos do IPO do Porto organiza, anualmente, um encontro de famílias de crianças que faleceram no serviço.

Questionada sobre o objetivo deste encontro, Filomena Mais regressa ao ponto de partida da conversa com a Lusa: “Porque somos uma grande família”. Segundo a educadora, este encontro serve para que, quem viveu “uma experiência traumática que é a perda de um filho, possa estar com quem compreende”.

“Só eles se reconhecem uns aos outros nessa situação. As pessoas percebem que apesar das crianças terem falecido, a nossa relação não termina ali. Podem contar com o serviço. Podem ligar-nos. Estamos aqui para eles”, vinca.

No IPO do Porto também existe um grupo com o nome “Veteranos” que reúne jovens e adultos que foram crianças com cancro, sobreviventes que se encontram e dinamizam atividades.

LUSA/HN

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