Dulcineia Boto, Psicóloga, clinica Absolute Bliss

Chemobrain: a pertinência da intervenção neuropsicológica no contexto oncológico

03/29/2024

Os avanços nos tratamentos das doenças oncológicas têm conduzido a um aumento muito expressivo do número de pessoas que sobrevivem à doença, traduzindo-se em vários anos de vida após os tratamentos.Estas respostas de tratamento incluem a cirurgia, a quimioterapia, a radioterapia, a terapia hormonal, as terapias alvo e a imunoterapia, podendo estes tratamentos serem opção de resposta à doença de forma combinada ou de forma isolada. Contudo, apesar das novas terapias terem aumentado a sobrevivência, têm trazido desafios à qualidade de vida destes pacientes pois acarretam efeitos secundários que alteram a dinâmica funcional do sistema nervoso central (SNC) e que interferem negativamente na sua qualidade vida1 durante e após os tratamentos, entre eles o comprometimento cognitivo relacionado com o cancro (CCRC), coloquialmente e redutoramente chamado de “chemobrain” ou de “chemofog”.

O CCRC é uma entidade clínica que designa um conjunto de sintomas cognitivos associados a alterações na estrutura cerebral e nas funções nervosas complexas, identificados em pessoas com doença oncológica, tanto em casos de tumor maligno no sistema nervoso central (SNC)2,3 como de tumor maligno fora do SNC (e.g., mama, colorretal, próstata, hematológico, testículos, ovários, entre outros)1,3,4. Estes sintomas podem ser identificados aquando do diagnóstico, revelando que a presença do cancro no organismo causa alterações na dinâmica cerebral que estão na base do CCRC e das alterações nas esferas emocional e comportamental5,6, durante os tratamentos, onde o que está em causa relaciona-se particularmente com a ação neurotóxica dos tratamentos direcionados ao tratamento do cancro7 mas também dos medicamentos para tratar os efeitos secundários do cancro e do seu tratamento, como as dores, as náuseas, as alterações do sono, o distress psicológico, etc.8, e após os tratamentos, em resultado cumulativo de todos os aspetos envolvidos no processo, desde a presença do cancro até ao findar da intervenção clínica7.

Do que se sabe, o CCRC não afeta 100% dos doentes oncológicos, mas estima-se que, para as pessoas com tumor primário ou secundário no SNC mais de 90% dos pacientes têm queixas antes dos tratamentos farmacológicos e para as pessoas com tumor fora do SNC, estima-se que entre 15% a 75% dos doentes oncológicos têm queixas compatíveis com CCRC9. Destes últimos, cerca de 33% têm CCRC antes dos tratamentos4, até 75% registam alguma forma de CCRC durante os tratamentos e 35% manifestam CCRC desde alguns meses até vários anos após os tratamentos4. Estas medidas de prevalência são explicadas pela existência de fatores de risco que marcam as diferenças interindividuais, expondo mais umas pessoas do que outras a esta condição clínica, como são a idade, as comorbilidades, a predisposição genética, o estilo de vida, a reserva cognitiva pré-mórbida, entre outros1.

Os sintomas cognitivos mais frequentemente associados ao CCRC são as dificuldades de atenção e de concentração (e.g., dificuldade em manter a atenção por períodos de tempo significativos, alternar o foco atencional entre tarefas, selecionar informação relevante na presença de informação distratora), as dificuldades de memória (e.g., memória de trabalho, memória episódica, memória verbal, memória visual), a lentificação da velocidade de processamento de informação, a dificuldade na aquisição de novas aprendizagens e as alterações no funcionamento executivo (e.g., pensamento desorganizado, dificuldades em realizar várias tarefas em simultâneo, dificuldades na resolução de problemas, dificuldades de flexibilidade mental, dificuldades em planear e organizar, etc.)8,9,10. Estas alterações podem ser muito variáveis ao nível dos domínios cognitivos afetados e da sua gravidade, pois tanto podem ser subtis como muito significativas, assim como ao nível da sua evolução, pois podem ser temporárias ou permanentes, como podem ser estáveis ao longo do tempo ou progressivas4.

O CCRC, à semelhança dos perfis neuropsicopatológicos de comprometimento cognitivo encontrados noutros grupos clínicos, está associado a perda de qualidade de vida, a interferência negativa com a capacidade para trabalhar, nomeadamente com baixa produtividade e atraso no regresso ao trabalho, a dificuldades em contribuir e interagir socialmente, a uma má adesão aos tratamentos e acompanhamento clínico, o que piora o prognóstico oncológico e afeta a capacidade do paciente responder aos desafios das tarefas do dia-a-dia podendo interferir pejorativamente na sua independência funcional4,5.

Devido à grande variabilidade interpessoal na manifestação do perfil neuropsicopatológico associado ao CCRC e à relevância do seu impacto em todos os domínios da vida, faz-se imprescindível a avaliação neuropsicológica destes pacientes, como indicado pelo International Cancer and Cognition Task Force11,12. Após avaliação destes pacientes e obtendo-se o perfil individual que explica e integra as queixas, os sintomas e as dificuldades apresentadas pelo paciente no seu dia a dia deve-se intervir reabilitativamente por forma a otimizar o funcionamento cognitivo com vista à melhoria ou diminuição das dificuldades referidas pelos pacientes no seu quotidiano3,4,7,13, aliás, assim é referenciado como preferência e tido como expetativa pela maioria dos pacientes oncológicos14. O que também acarreta a importância do acompanhamento evolutivo desta entidade clínica nestes pacientes.

Enquadrando estas necessidades com os recursos das diferentes áreas de intervenção, que hoje estão envolvidas na resposta clínica aos doentes oncológicos, para fazer face ao CCRC, nenhuma outra se faz tão pertinente e capaz de intervir com sucesso como a neuropsicologia. Neste sentido, é fundamental integrar a intervenção neuropsicológica na prestação de cuidados clínicos dirigidos aos pacientes oncológicos com queixas cognitivas como resposta padrão, à semelhança do que já é feito com a integração da psico-oncologia em resposta aos sintomas emocionais, de conduta e psicossociais que afetam estes pacientes.

Espero que tenha sido um tema do seu interesse e que de alguma forma lhe possa ter sido útil.

Referências Bibliográficas

1.Országhová, Z., Mego, M., & Chovanec, M. (2021). Long-term cognitive dysfunction in cancer survivors. Frontiers in Molecular Biosciences,8, 1-24. Doi: 10.3389/fmolb.2021.770413

2.Chieffo, D.P.R., Lino, F., Ferrarese, D., Bellela, D., Peppa, G.M., & Doglietto, F. (2023). Brain Tumor at Diagnosis: From cognition and behavior to quality of life. Diagnostics, 13, 541. Doi: 10.3390/diagnostics13030541

3.Hardy, S.J., Krull, K.R., Wefel, J.S., & Janelsins, M. (2018). Cognitive changes in cancer survivors. American Society of Clinical Oncology, 38: 795-806. Doi: 10.1200/EDBK_201179

4.Janelsins, M.C., Kesler, S.R., Ahles, T.A., & Morrow, G.R. (2014). Prevalence, mechanisms, and management of cancer-related cognitive impairment. International Review of Psychiatry, 26(1): 102-113. Doi: 10.3109/09540261.2013.864260

5.Mampay, M., Flint, M.S., & Sheridan, G.K. (2021). Tumor Brian: Pretreatment cognitive and affective disorders caused by peripheral cancers. Brithis Journal of Pharmachology, 178(19), 3977-3996. Doi: https://doi.org/10.1111/bph.15571

6.Olson, B. & Marks, D.L. (2019). Pretreatment cancer-related cognitive impairment – mechanisms and outlook. Cancers (Basileia), 11(5): 687-704. Doi: 10.3390/cancers11050687

7.Lange, M., Joly, F., Vardy, J., Ahles, T., Dubois, M., Tron, L., Winocur, G., De Ruiter, M.B., & Castel, H. (2019). Cancer-related cognitive impairment: an update on state of the art, detection, and management strategies in cancer survivors. Annals of Oncology, 30: 1925 – 1940. Doi: 10.1093/annonc/mdz410

8.American Cancer Society (2024). Chemobrain. Consultado a 9 de março de 2024 através do site: What is Chemo Brain? | American Cancer Society

9.Argyriou, A.A., Assimakopoulos, K., Iconomou, G., Giannakapoulou, F., & Kalofonos, H.P. (2010). Either called “chemobrain” or “chemofog”, the long-term chemotherapy-induced cognitive decline in cancer survivors is real. Journal of Pain and Symptom Management, 41(1): 126-139. Doi: 10.1016/j.jpainsymman.2010.04.021

10.Wefel, J.S., Kayl, A.E., & Meyers, C.A. (2004). Neuropsychological dysfunction associated with cancer and cancer therapies: a conceptual review of na emerging target. British Journal of Cancer, 90(9):1691-1696. Doi: 10.1038/sj.bjc.6601772

11.Wefel, J.S., Vardy, J., Ahles, T., & Schagen, S.B. (2011). International cognition and cancer task force recommendations to harmonise studies of cognitive function in patients with cancer. Lancet Oncology, 12(7): 703-711. Doi: 10.1016/S1470-2045(10)70294-1

12.Parsons, M. W., & Dietrich, J. (2019). Assessment and Management of Cognitive Changes in Patients with Cancer. Cancer, 15(6): 1958-1962. Doi: 10.1002/cncr.31905

13.Bray, V.J, Dhillon, H.M., Bell, M.L., Kabourakis, M., Fiero, M.H., Yip, D., Boyle, F., Priece, M.A., & Vardy, J.L. (2017). Evaluation of a web-based cognitive rehabilitation program in cancers survivors reporting cognitive symptoms after chemotherapy. Journal of Clinical Oncology, 35(2): 217-225. Doi: 10.1200/JCO.2016.67.8201

14.Lange, M., Licaj, I., Clarisse, B., Humbert, X., Grellard, J.M., Tron, L., & Joly, F. (2019). Cognitive complaints in cancer survivors and expectations for support: results from a web-based survey. Cancer Medicine, 8(5)11: 2654-2663. Doi: 10.1002/cam4.2069

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