Ana Sofia Lopes: “Há colegas que se sentem abandonados por quem os devia representar”

05/09/2024
Descontente e crítica do mandato até agora feito pelo bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, Ana Sofia Lopes apresenta-se como a candidata da mudança. Em entrevista ao HealthNews, afirma que é preciso "pugnar por uma OMD credível, inclusiva e acessível a todos os Médicos Dentistas". De acordo com Ana Sofia Lopes "há colegas que se sentem abandonados por quem os devia representar e descartados por quem os devia aproveitar".

HealthNews (HN) – Quais as razões que motivaram a sua candidatura?

Ana Sofia Lopes (ASL) – Decidi candidatar-me a bastonária da Ordem dos Médicos Dentistas porque considero que tem de ser feita uma profunda alteração em termos de acesso à saúde oral. É uma luta que assumo. Queremos que estes cuidados cheguem a toda a população.

Por outro lado, considero que os médicos dentistas têm de ser defendidos em muitos aspetos.

HN – Que aspetos são esses?

ASL – Por um lado, temos uma população vasta que necessita de tratamentos de medicina dentária, por outro temos excesso de médicos dentistas, resultando na emigração de mais de 30% dos jovens médicos dentistas.

As clínicas de Medicina Dentária são “perseguidas” com excesso de burocracias e num mercado muito competitivo, difícil de regular, estipulam os valores dos atos de medicina dentária abaixo no limite do razoável. A proliferação de planos de saúde com propostas de tratamentos “grátis” e valores muito abaixo do valor justo, coloca em risco a qualidade dos serviços, originando pouca sustentabilidade, e inserção na sua verdadeira cadeia de valor.

HN – Quais são as principais propostas que marcam o seu programa?

ASL – Estamos muito focados nos jovens médicos dentistas. Queremos ajudá-los a seguir o seu  caminho. Para todos aqueles que desejam emigrar, embora não seja esse o nosso ideal, temos de os ajudar para que emigrem de uma maneira mais digna. Para os que ficam, temos de fomentar ao máximo a criação de emprego a todos os níveis (de estágio, formação e carreira). Gostaríamos de possibilitar a estes jovens, ainda enquanto estudantes, a possibilidade de entrarem na Ordem com um registo.

Outra proposta que se destaca no nosso programa é o apoio às clínicas dentárias. Queremos torná-las mais sustentáveis, uma vez que estão sujeitas a imensa burocracia com pagamentos onerosos, para permitir uma maior capacidade de contratação; mais postos de trabalho.

HN – Quais são as principais dificuldades que afetam a profissão?

ASL – Principalmente a precariedade. Quando os dentistas terminam o seu curso não encontram trabalho… Como os médicos dentistas ultrapassam muito os valores per capita recomendados pela OMS, acabam por ser aproveitados da pior forma.  As condições precárias de trabalho a que os profissionais mais jovens estão sujeitos faz com que muitos queiram emigrar para outros países da Europa.

Com foco nas clínicas dentárias, por um lado, existe uma excessiva e complexa regulação para que funcionem dentro dos parâmetros legais. Existe ainda uma fraturante falta de regulação do mercado, que já extremamente competitivo, que nos remete a constantes seguros e planos de saúde com valores gratuitos e muito abaixo do sustentável.  O que temos hoje, para além de um atraso considerável por parte da população em geral em termos de acesso aos cuidados de saúde oral, é uma crescente desmotivação de um número significativo de colegas médicos dentistas que, apesar de toda a sua vontade e determinação profissional, se sentem abandonados por quem os devia representar, e descartados por quem os devia aproveitar para cuidar de uma importante componente da saúde dos portugueses.

HN – Como pretende ultrapassar os desafios da profissão dos médicos dentistas?

ASL – Propomo-nos liderar o combate à burocracia; pugnar por uma crescente regulação do mercado, valorizando pecuniariamente os atos médicos praticados pelos médicos dentistas; desenvolver ações que sensibilizem o decisor político para a importância da criação urgente de um plano integrado, de cariz nacional e de base local, de inserção dos médicos dentistas nos sistemas de prestação de cuidados de saúde e acompanhar, profissional e socialmente, os inscritos na Ordem dos Médicos Dentistas, desde o momento da sua inscrição até ao final da sua vida profissional, procurando ajudar a dar respostas às necessidades com que ao longo do seu percurso profissional e de vida se forem deparando.

HN – Qual o balanço que faz do mandato do atual Bastonário, Miguel Pavão?

ASL – Considero que não conseguiu alcançar os desideratos necessários para  resolver os problemas com que nos deparamos hoje.  A dignificação da nossa profissão é muito importante, e considero estarmos numa espiral que nos está a levar ao abismo. 

HN – O que é que é preciso mudar dentro da ordem?

ASL – Pugnar por uma OMD credível e inclusiva, acessível a todos os Médicos Dentistas, de modo a que todos estes profissionais se sintam integrados e envolvidos, obtendo resposta pronta aos problemas do exercício da atividade com os quais se vão deparando.

Seriedade no tratamento dos dossiers que se encontram em negociação com o Governo, evitando ruturas e conflitos.

Fazer valer o sentido ético, o respeito por todos, a solidariedade, a entreajuda.

Viabilizar uma OMD com uma gestão espartana de todos os seus serviços e logística.

Garantir que a OMD é uma instituição colaborativa com as instituições de caráter académico, científico e outras estruturas pedagógicas, desenvolvendo programas que tragam benefícios aos médicos dentistas, de forma a incrementar um crescimento sustentável e regendo-se pelos seus valores primordiais;

Assumir a OMD como uma referência de valores éticos e deontológicos, na defesa da profissão, dos Médicos Dentistas e enquanto organismo regulador que assegura a saúde oral, integrada na saúde pública, com o doente colocado no centro de todos os objetivos. E muito importante será manter a presença da OMD na linha da frente da regulação da Medicina Dentária. Ser fortes, agir com confiança e com planos estruturados e comunicar com todos os nossos pares de uma forma assídua e totalmente verdadeira.

HN – Iniciou-se recentemente um novo ciclo político. Quais são as suas expectativas? Acredita que a saúde oral vai estar na ordem do dia?

ASL – Com  os planos que temos em mente, que serão apesentados de uma forma organizada e muito ponderada, não tenho dúvidas de que o Executivo irá aceitar  as propostas. Temos de planear a 10/20 anos, abrir caminhos. Vou dedicar-me a 100% para que isso aconteça.

HN – Qual a mensagem que gostaria de deixar aos colegas?

ASL – Deixo uma mensagem de esperança, porque muito vai mudar. Que persigam os seus desafios e sonhos, e estaremos aqui para que ao fim de cada  dia de trabalho se sintam valorizados e compreendidos.

Entrevista de Vaishaly Camões

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