O relatório, que analisa os principais indicadores da saúde respiratória em Portugal, sugere que estes resultados podem estar relacionados com novas terapêuticas e estratégias de vacinação.
“Em comparação com o período anterior à pandemia [2018-2019], registou-se uma diminuição no número de internamentos e no número de óbitos decorrentes da DPOC em 2023, no panorama das doenças respiratórias em Portugal. Isto pode ser explicado por fatores como a melhoria na abordagem terapêutica graças a novas opções farmacológicas, a maior adesão à vacinação contra a gripe e o pneumococo, a expansão de modelos de atendimento alternativos como hospitais de dia e internamento domiciliário, bem como o reforço do diagnóstico precoce com melhor acompanhamento em ambulatório”, explica José Alves, pneumologista e presidente da FPP.
Foi também possível perceber que “a mortalidade associada à DPOC é significativamente mais elevada nos doentes com necessidade de ventilação, o que reflete a gravidade da doença nas fases avançadas”, ressalva o presidente da FPP. Neste contexto, o especialista recorda que “a DPOC continua a ser uma das principais causas de morbilidade e mortalidade em Portugal, com um impacto significativo nos internamentos hospitalares”.
Entre outras implicações para os gestores de saúde, o relatório chama a atenção para a importância do investimento contínuo na prevenção e diagnóstico precoce, dada a existência de um subdiagnóstico significativo da DPOC, o desenvolvimento de programas de acompanhamento domiciliário para evitar internamentos desnecessários e a uniformização de critérios de internamento e ventilação entre diferentes unidades hospitalares para reduzir a variabilidade na qualidade dos cuidados prestados.
Pela primeira vez, o ONDR apresentou dados referentes à Síndrome de Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS). Entre 2018 e 2023, registou-se uma redução de 27% nos internamentos, sugerindo um melhor controlo da doença em regime ambulatório, provavelmente com mais diagnósticos precoces e tratamentos atempados. No entanto, o número de internamentos com necessidade de ventilação mantém-se elevado.
Patologias como a asma brônquica, cancro do pulmão, pneumonia bacteriana e pneumoconioses foram também alvo de análise, permitindo apurar que:
- Os internamentos associados à asma brônquica estão a tornar-se mais frequentes em menores de 17 anos e a mortalidade hospitalar mantém-se reduzida;
- O cancro do pulmão é predominante no sexo masculino, mas com um aumento contínuo no sexo feminino. O impacto da pandemia fez-se sentir na redução dos diagnósticos e internamentos em 2020, com um aumento notório em 2022;
- Os internamentos e óbitos por pneumonia bacteriana são mais frequentes após os 65 anos. Em 2023 registou-se um aumento do número de internamentos e da mortalidade face a 2022;
- Com base nos dados apurados, que carecem de validação adicional, as pneumoconioses são uma das mais importantes causas de internamento e mortalidade entre as doenças respiratórias.
O relatório aponta ainda várias recomendações para a otimização da gestão das doenças respiratórias em Portugal, nomeadamente a melhoraria do rastreio e do diagnóstico precoce – especialmente nos casos da DPOC, cancro do pulmão e SAOS; o reforço da gestão em ambulatório para reduzir internamentos evitáveis; a implementação de indicadores de desempenho hospitalar para monitorizar e corrigir variações intrainstitucionais; e a avaliação da adoção de modelos de prestação de cuidados baseados em valor (VBHC) para otimizar custos e melhorar os desfechos clínicos. Neste contexto, a melhoria da literacia em saúde respiratória dos profissionais de saúde e da população é referida como uma forma para promover o diagnóstico e o tratamento atempado.
O ONDR 2024 analisa os principais indicadores da saúde respiratória em Portugal, focando-se nos internamentos e mortalidade hospitalares e na evolução das principais doenças respiratórias. Os dados foram fornecidos pela Administração Central dos Serviços de Saúde (ACSS) e organizados por categorias de doentes ventilados e não ventilados, bem como diagnósticos primários e secundários. Pretende ser uma ferramenta de apoio à gestão e decisão clínica, permitindo uma abordagem baseada em métricas nacionais para potenciar uma melhoria da qualidade assistencial e eficiência dos recursos.
Relatório aqui: Observatório Nacional das Doenças Respiratórias (ONDR) de 2024
NR/PR/HN
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