Tiago Correia
Professor Associado de Saúde Internacional, Unidade de Saúde Pública Internacional e Bioestatística, IHMT-UNL

Entre a pandemia e o confinamento: uma certeza e uma surpresa sobre o presente; uma dúvida, três convicções e uma certeza sobre o futuro

02/05/2020 | Opinião

Sou pai, professor universitário e que saiba não tive a Covid-19. São estas as minhas circunstâncias de vida que me colocam num lugar, direi, privilegiado e enquadram o modo como vivi este período e como perspetivo o futuro. Tenho cumprido o isolamento social porque acredito que esse é o meu dever cívico e porque a minha profissão assim o permite. Sinto-me bem e não estou a gerir nenhuma doença conhecida. Também não sei o que é sentir a Covid-19 e note-se que à dimensão física acresce a ansiedade devida a todo o ruído em torno da doença. Devido ao meu trabalho académico considero que tenho um olhar informado sobre o que está a acontecer. Ainda tento assegurar as necessidades de um bebé e de uma criança em idade pré-escolar que também alteraram as suas rotinas.
Estas circunstâncias de vida fizeram com que vivesse este período com um misto de tranquilidade, cansaço e obrigação. Tranquilidade pela condição de saúde e situação laboral. Por isso, tantas e tantas vezes penso naqueles que estão a enfrentar a insegurança pela falta de trabalho e perda de rendimento. Cansaço porque as exigências profissionais e de parentalidade coexistem num equilíbrio instável. Já a obrigação é de acrescentar ao trabalho académico habitual a comunicação com públicos alargados. A novidade e excecionalidade do momento requerem esse esforço. Afinal, a desinformação está entre as maiores ameaças com que lidamos nesta pandemia.
Tenho uma certeza e uma surpresa em relação ao presente (refiro-me até ao fim do Estado de Emergência Nacional). Em relação ao futuro tenho uma dúvida, três convicções e uma certeza.
A certeza em relação ao presente é que um surto relacionado com infeções respiratórias estaria para breve. Tal está descrito na literatura científica, ainda que a atenção recaísse mais sobre o vírus influenza. Na altura do surto de Ébola em 2014 recordo-me de dizer nas aulas – e não por dom de adivinhação – que a próxima pandemia não devia tardar muito. O crescimento global da população e a existência cada vez maior de aglomerados populacionais em condições inenarráveis, a intensidade do fluxo de pessoas e mercadorias, os crescentes desequilíbrios ecológicos, o aumento das desigualdades de rendimento entre pessoas e países, já para não falar da persistência da fome, da guerra e do avançar da presença humana em áreas remotas do planeta… Sabe-se o quanto tudo isto contribui para a propagação de contágios.
Claro que a geopolítica internacional é o pano de fundo de todo este cenário. Apesar dos esforços para preservar a memória coletiva sobre erros do passado persistem dicotomias difíceis de gerir, quanto mais de justificar. Não é por acaso que surtos do influenza e de coronavírus têm tido proveniência da Ásia. E a resposta não reside apenas na falta de condições sanitárias de mercados locais destinados à venda de animais. Reside também na contínua progressão da civilização sobre a natureza em que Seres humanos e não humanos contactam cada vez mais. Reside no fascínio mundial por certos tipos de exotismo para fins alimentares ou estéticos. Reside na indústria agroalimentar, quer em termos das cadeias de distribuição e consumo quer em termos das condições das explorações. Reside ainda na alteração de padrões alimentares no sentido do crescimento do consumo de proteína animal.
A surpresa teve a ver com a aceitabilidade das pessoas, pelo menos numa primeira fase, em cumprir o confinamento. Bem sei que o susto de viver aquilo que outras pessoas viveram nos seus países foi o principal fator de motivação. Mesmo assim, se há 2 meses me dissessem que iriamos estar pelo menos 6 semanas fechados em casa (entretanto, já com a telescola e as diversas ações de apoio às famílias e empresas – note-se que aqui o tom é factual e não valorativo), a minha resposta convicta seria “não é possível!”
Em relação ao futuro, a dúvida é qual a resposta caso novas medidas de confinamento sejam aplicadas. Escrevo numa altura em que se acaba de conhecer o calendário do desconfinamento faseado. Não é conhecida posição do governo e das pessoas caso as medidas tenham que diferenciar – e nesta fase penso que devem diferenciar – o território em função de diferentes graus de exposição, suscetibilidade e vulnerabilidade ao contágio. Interessa olhar a nível local para o R (o indicador que mede a transmissibilidade da doença), mas também para a capacidade instalada dos cuidados de saúde, para a existência ou inexistência de planos de contingência em caso de crescimento descontrolado do contágio e para a composição sociodemográfica da população. Paira no ar um sentimento paradoxal: por um lado, a falsa sensação de que o pior já passou, quando o conhecimento disponível não permite saber sequer em que fase nos encontramos; por outro lado, o pânico de desconfinar, quando o objetivo do confinamento foi cumprido (evitar a rutura do sistema de saúde), a resistência das pessoas dá sinais de enfraquecer e o desemprego começa a ganhar contornos epidémicos.
Quanto às convicções, a primeira é que acredito pouco na mudança do funcionamento das instituições e da ação política uma vez ultrapassada esta situação crítica. Digo-o com base na experiência de pandemias anteriores (ex: SARS‐CoV‐1 em 2002, H5N1 em 2005, H1N1 em 2009) em que pouco ou nada mudou. Se mudou, atrevo-me a dizer que uma vez aqui chegados em 2020 a mudança não foi para melhor. Refiro-me às lógicas internacionais de produção, distribuição e consumo de bens e serviços, de prevenção da doença e de ação perante surtos. Mesmo que as pessoas mudem os comportamentos e passem a lavar mais as mãos, a tossir para o antebraço e a usar máscaras, é fácil perceber que isso não é o que mais importa na prevenção de surtos em larga escala. E voltamos às causas da minha certeza sobre o presente.
Outra convicção é dos abusos que este estado de exceção pode envolver. Penso no abuso de poder e de desrespeito pelas liberdades e garantias individuais onde incluo várias formas de discriminação. Em poucas palavras iremos viver tempos difíceis para perceber onde está a ténue fronteira entre segurança e voyeurismo. Mais grave é sentir que se naturalizou a ideia de que existem vidas que importam e vidas desnecessárias. Não é isso que a moral e as leis nos asseguraram ao longo do século XX.
A terceira convicção é que a normalidade regressará. A normalidade traduz o que é comum, habitual e rotineiro. Daí ser fácil perceber que estamos a viver um tempo anormal, afinal muitas das coisas a que estávamos habituados foram suspensas. O sentimento de incerteza sobre o desconhecido aflige as pessoas. À medida que o conhecimento científico progredir em relação à Covid-19 será mais fácil criarmos novos hábitos e rotinas. E por muito que novos hábitos e rotinas divirjam do passado, caso normas e valores essenciais sejam respeitados, é de supor que a partir daí construamos novas normalidades.
Por fim, a certeza é que novos surtos surgirão. Repetirei até à exaustão algo que me parece ser de elementar verdade: as epidemias não se gerem nem se controlam; antecipam-se e, tanto quanto possível, evitam-se.

(tiago.correia@ihmt.unl.pt)

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