Acácio Gouveia aamgouveia55@gmail.com

Gog, Magog e a oportunidade perdida

05/03/2020

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Gog, Magog e a oportunidade perdida

03/05/2020 | Opinião

1. A pandemia e a catástrofe económica

“Ur, a sagrada, está em ruínas:
Amargo seja o seu lamento.”
Texto sumério

Tudo está virado do avesso e já não há para onde, nem como, fugir ao vírus que dizima gentes e a economia Urbi et orbi. Não esquecendo que dizer economia é o mesmo que dizer pessoas, mas de forma mais subtil e em diferido. Aquilo que tínhamos como certo e seguro ruiu como um castelo de cartas. Éramos vulneráveis e teimávamos em ignorá-lo.
A acessibilidade, valor fundamental do SNS, foi suspensa em nome da segurança dos utentes e dos profissionais, não esquecendo que o profissional infetado se torna um cavalo de troia, uma ameaça em vez de protetor do cidadão. A porta aberta foi substituída por tripla barreira para quem ainda queira/precise dos nossos serviços. A primeira (imaterial) foi a do medo; as outras duas são físicas, verdadeiros check-points onde o utente é inquirido e instruído a cumprir uma liturgia de pose e de comportamentos. Se conseguir obter “clearance” das “esfinges”, lá chegam à fala com médicos ou enfermeiros, distanciados por máscaras cirúrgicas que limitam a comunicação não verbal e por barreiras de acrílico um tanto ou quanto intimidantes.
Os custos deste paradigma são óbvios e por demais referidos. Mas, qual seria o preço a pagar pelo paradigma alternativo (defendido até há pouco por Boris Johnson): nada fazer até que a imunidade de grupo extinga a pandemia de “modo natural”? Teoricamente há um racional nesta estratégia, mas falta honestidade aos adversários do confinamento para assumirem os custos “colaterais” em vidas e o provável colapso dos serviços de saúde. Justifica-se o confinamento e a prioridade em salvar vidas, apesar dos brutais custos económicos e mesmo sabendo? Penso que sim, mesmo sabendo que, mais cedo que tarde, teremos de abandonar a estratégia defensiva e correr riscos de enfrentar o vírus e novas vagas epidémicas.

2. O resto das nossas vidas

Onde vi quantos enganos
Faz o tempo ás esperanças.
Alli vi o maior bem
Quão pouco espaço que dura;
O mal quão depressa vem;
E quão triste estado tem
Quem se fia da ventura. […]
Vi ao bem succeder mal,
E ao mal muito peor.
Luís de Camões in Sobolor rios que vão -Rimas

No que diz respeito aos cuidados de saúde, aprendemos que algum do nosso labor, era inútil. Considerável contingente de utentes deixou de nos frequentar. Pelas boas e pelas más razões. Saibamos aproveitar esta oportunidade para separar o trigo do joio e substituir algumas consultas presenciais por teletrabalho, com a salvaguarda dos profissionais serem capazes de estabelecer limites horários que protejam a sua vida extraprofissional e de não esquecer que a consulta presencial não tem fim anunciado. Por outro lado, é preciso recuperar o tempo gasto no combate à pandemia e retomar as tarefas habituais que ficaram em suspenso. Mas, grandes desafios se colocam, sabendo que o vírus pode ter “perdido uma batalha”, mas não a guerra.
Dirigindo a reflexão para um âmbito mais lato, esta pandemia abriu uma janela de oportunidade para que a humanidade assumisse o mote atribuído a Sócrates “Não sou ateniense, nem grego, mas cidadão do mundo”, como palavra de ordem e compreendesse que o inimigo comum é o novo corona vírus. Contudo, a realidade é bem diversa: o sectarismo (e a sua versão de nacionalismo) e a falsa ciência estão firmes, de pedra e cal.
É singular que do passado século a pandemia da gripe, dita “espanhola”, tenha deixado marca tão débil no imaginário coletivo, em contraste, por exemplo, com o afundamento do Titanic, muito embora a dimensão catastrófica da primeira ultrapasse desmesuradamente a do segundo. Esta hipomnésia, chamemos-lhe assim, significa que somos seletivos com as lições que queremos reter? O que estamos a viver não era imprevisível. Contudo, a atenção aos avisos de virologistas foi sendo relegada para depois. O que vamos aprender e como vamos reagir? Como vamos lidar com os custos laterais da guerra à pandemia?
Os políticos são obrigados a navegar por ignotos mares, sem cartas de marear, onde só os mais ignorantes (leia-se Trump ou Bolsonaro) sabem traçar rumos (temerários e lunáticos) sem hesitação. Para os desafios colocados pelo binómio saúde/economia não há respostas fáceis, sendo que os técnicos de saúde esquecem que não há saúde sem economia sólida e os empresários tendem a escamotear que sem força de trabalho saudável a pujança económica é uma miragem.
Paradoxalmente, o avanço do conhecimento não tem paralelo no incremento da literacia científica dos povos e dirigentes políticos. Se é verdade que conhecimento não rima necessariamente com sabedoria, sabedoria sem conhecimento é pura ilusão. Desgraçadamente a falsa ciência e a interferência ideológica na produção e difusão do conhecimento assenhorearam-se do poder a uma escala assustadora.
Espantosamente o líder da maior potência assume o papel de demiurgo, à semelhança de pretérito dirigente da Gâmbia, que frequentava as enfermarias “curando” doentes HIV com mezinhas da sua lavra! Com a imprudência dos adeptos do paradigma da verdade revelada, por oposição ao paradigma do método científico, acreditam poder alterar as leis da natureza com a displicência com que se escrevem as leis das nações. E o mais sinistro é a popularidade que gozam na sociedade civil seja nos EUA, na Hungria, Índia ou China.

 

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