Luís Pisco
Presidente do Conselho Diretivo da ARS de Lisboa e Vale do Tejo

Futuro incerto, mas promissor

06/05/2020 | Covid 19, Opinião

“Em Portugal, o Covid-19 está controlado graças aos médicos de família, enquanto em Itália foram abandonados”. Este é o título de uma recente entrevista publicada no HuffPost Itália onde Martino Gliozzi, clínico italiano e coordenador da Unidade de Saúde Familiar (USF) da Baixa, explica um dos segredos do sucesso português: a integração dos Cuidados de Saúde Primários (CSP) no combate à COVID-19.
Enquanto presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), não posso estar mais orgulhoso do desempenho de todos os profissionais de saúde da Região na gestão da pandemia e na manutenção das respostas assistenciais aos utentes não-COVID. O meu apreço recai em todos os profissionais que responderam a um repto nunca antes vivenciado e que, quer seja na linha da frente ou no trabalho à distância, têm tornado possíveis respostas em Saúde aos cerca de 3,7 milhões de habitantes na Região – independentemente da sua idade, género, credo ou condição social.
Muito se tem dito acerca dos últimos meses e das possíveis lições que podemos retirar para o futuro. Portugal surge agora como um exemplo a seguir não só para os países nossos vizinhos – como exemplifica a entrevista ao HuffPost Itália – mas também para grandes potências mundiais como os Estados Unidos da América e o Reino Unido. Aliás, deste último surgiu o agradecimento de Boris Johnson a um enfermeiro português, evidenciando o conhecimento técnico e o profissionalismo de um profissional formado em Portugal.
E nunca como agora – através de uma doença que, apesar de nefasta, em mais de 80% dos casos pode ser tratada em casa – as pessoas mais distraídas perceberam que os Cuidados de Saúde Primários são decisivos no controlo e gestão das emergências de Saúde Pública.
Os jovens alunos universitários, futuros médicos, gestores e dirigentes têm hoje uma perspetiva diferente das especialidades médicas tradicionalmente afetas aos CSP. Estou a falar da Medicina Geral e Familiar (MGF), mas também de Saúde Pública (SP). Acredito que alguns dos alunos de Medicina possam hoje ponderar a opção por SP ou MGF como algo que pode fazer a diferença não só a um grupo de famílias ou a uma comunidade, mas a toda a sociedade, a todo um continente ou até mesmo à saúde mundial.
A COVID-19 veio demonstrar, de forma prática e indiscutível, a relevância e o conhecimento dos médicos de Saúde Pública na identificação dos casos e redes de contágio, na tomada de decisões face à avaliação dos riscos existentes para um indivíduo e para uma comunidade.
Da mesma forma, a possibilidade de ter serviços de proximidade, com autonomia e conhecimento multidisciplinar, são a base consolidada para as adaptações que foram, são e serão necessárias aplicar às respostas em Saúde. Nesta matéria, os médicos de MGF desempenham um papel decisivo na acuidade do diagnóstico, quando distinguem queixas respiratórias vulgares de um caso suspeito em doentes que se dirigem às Áreas Dedicadas à COVID.
E tanto a Saúde Pública como a Medicina Geral e Familiar têm acrescentado valor ao que se conhece sobre o comportamento da doença no indivíduo e na comunidade, através do acompanhamento que fazem dos casos na plataforma Trace COVID.
Para uma geração recente de especialistas que hoje estão no terreno, este está a ser o primeiro contacto com a dura realidade das doenças infeciosas em fase pandémica – algo que habitualmente está reservado ao ambiente hospitalar. Certamente sairão reforçados desta experiência e melhor preparados para o futuro.
Mas os CSP não se cingem ao corpo médico. A resposta dada nunca poderia ser tão positiva não fosse o contributo de outros profissionais como enfermeiros, assistentes operacionais, psicólogos, assistentes técnicos, técnicos de ação social e técnicos superiores, entre outros. Graças a todos foi possível manter os programas de vacinação, os cuidados no domicílio dos utentes mais debilitados, o acompanhamento de grávidas, a gestão da doença aguda, o apoio de saúde mental. A integração dos CSP na resposta à COVID surgiu, para nós, como algo natural num Serviço Nacional de Saúde (SNS) coeso. Todavia, esta estrutura não é uma realidade para muitos dos cidadãos que vivem em países com mais recursos financeiros e com sistema de saúde ditos robustos. E o percurso feito até ao momento demonstra que não são necessários apenas recursos – é imprescindível a articulação e complementaridade entre os diferentes níveis de cuidados: hospitais, Cuidados de Saúde Primários e Cuidados Continuados.
O outro elemento-chave do sucesso foi a extraordinária adesão dos portugueses às medidas preconizadas pelo Governo. Mais uma vez ficou demonstrado que quando estabelecemos prioridades e nos mantemos focados num bem comum, se conseguem proezas por outros apelidadas de “milagres”.
Por isso, o futuro pode ser incerto, mas promissor. Certamente trará novas formas de estarmos em sociedade, de nos relacionarmos com o outro e com o ambiente. A solidariedade e o respeito pelo bem-estar de cada um e de todos vão seguramente manter-se como referência da nossa identidade enquanto País – e que tanto sentido faz na atual fase de dificuldade económica.
Na Saúde, a formação dos profissionais e a organização dos serviços, com novos desafios e novas formas de comunicar com os cidadãos, por exemplo, sairão reforçadas. E mais do que nunca, investir-se-á na humanização como forma de combater a impessoalidade, a barreira imposta por luvas, máscaras e viseiras.
Sempre sem receio de temer o medo. Porque tal como a célebre frase de Nelson Mandela, “Bravo não é quem não sente medo, mas quem o vence”.

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