João Meira e Cruz Cirurgião Geral Coordenador Médico na Best Medical Opinion

Não se trate, nem deixe que tratem as suas queixas anais, às cegas!

05/12/2020

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Não se trate, nem deixe que tratem as suas queixas anais, às cegas!

12/05/2020 | Consultório

Queixas anais são muito frequentes!
Porque em boa parte dos casos as manifestações resultam de uma condição benigna, resultante de comportamentos individuais propiciadores – alimentares, higiénicos, medicamentosos, etc. – tendo uma evolução natural ora com melhoria, ora com retorno dos sintomas – há uma tendência forte e tradicional para atribuir a sua causa a “hemorroidas” e indicar tratamentos sem observar diretamente a região, isto é, “às cegas”!
A doença hemorroidária, em geral, resulta de alterações e progressivas das estruturais ano-rectais, as quais não regridem apesar dos tratamentos conservadores, sejam medicamentosos, sejam procedimentos não-cirúrgicos mais agressivos.
O agravamento da sintomatologia e as eventuais complicações são as razões pelas quais uma condição tolerada, por vezes há décadas, se altera para um quadro de grande desconforto, por vezes com repercussões sistémicas significativas, perturbador da vida quotidiana, familiar, social e profissional impedindo uma qualidade de vida satisfatória.
Tradição popular e parca literacia perpetuam um conceito incorreto e inadequado que não ajuda ao propósito de sensibilizar as pessoas para alterações de saúde que, sendo benignas, têm pesados índices de sofrimento, absentismo, angústia, etc. e … podem não ser benignas.
A ideia generalizada e transcrita de que se sofre de hemorroidas é inadequada. As hemorroidas são estruturas inerentes aos mamíferos e têm funções específicas. Não surgem como uma doença nascente. Quando as hemorroidas sofrem alterações da sua estrutura e, progressivamente, geram perturbações do seu normal funcionamento ou evidenciam perturbações da normalidade funcional ano-rectal, então, existe doença hemorroidária.
Então, é o tempo de assumir que algo não está normal e, quanto mais cedo for avaliado e corretamente tratado, melhores prognósticos poderá haver. E se as perturbações não forem adequadamente tratadas – para controlo das queixas e retardamento da evolução ou para resolução definitiva – elas tendem a evoluir com agravamento das perturbações e necessidade de procedimentos mais invasivos.
O tratamento da doença hemorroidária tem abordagens diversas, em função da fase de evolução das alterações e da sintomatologia presente, sendo o objetivo principal proporcionar uma qualidade de vida digna e confortável, dominando uma condição cujo percurso é, tantas vezes, penosamente surpreendente e perturbador do quotidiano. Assim, a intervenção médica pode dirigir-se ao retardamento da evolução das alterações estruturais e, simultaneamente, controlar a sintomatologia (incomodativa, inconveniente, dolorosa, ou de efeitos sistémicos) ou atuar com maior agressividade, em fases mais avançadas das alterações, permitindo um retorno à vida normal – que antes era tão desconfortável e perturbada – com um quotidiano sem intercorrências indesejáveis.
Historicamente, a doença hemorroidária – e, em geral, as doenças benignas ano-rectais – têm sido olhadas e envolvidas numa perspetiva de patologias menores e algo desmerecidas. Porém, elas são muito ofensivas para quem as transporta, confrontando-se com uma inadequada disponibilidade de recursos – humanos, tecnológicos e logísticos – tendo como consequência o sofrimento, a orientação inadequada e, tantas vezes, o insucesso terapêutico, quando não o erro na abordagem médica.
Não se trate, nem deixe que tratem as suas queixas anais, às cegas!
Exija uma observação médica da região anal, complementada por exames simples, acessíveis, baratos, que, só eles permitem um diagnóstico diferencial objetivo.
A ideia generalizada de que sofrer do ânus é, em primeiro lugar, por causa hemorroidária, não corresponde à realidade. Pode ser uma fissura, uma fístula, uma doença inflamatória intestinal, um cancro, uma úlcera solitária rectal, ou outra causa.
Exija que o tratamento proposto seja dirigido à doença real e não apenas à sintomatologia, porque esta é, muitas vezes, semelhante para causas diferentes. O tratamento deve ser específico e … a mesma pomada não serve para tudo!
Para além de poder existir outra doença, o tratamento que não é dirigido à causa real da sintomatologia, impede e retarda a sua cura. E pior! Potencia complicações e estádios avançados mais complexos e difíceis de resolver, com mais sofrimento e mais custos, evitáveis.
As perturbações anais benignas, em geral, não são doenças graves, não matam, mas, causam grande mal-estar e afectam a vida pessoal, familiar, profissional, relacional, de quem as carrega. É, muitíssimas vezes, desesperante.
Tratar as queixas anais, sem observar e com “tele-tratamentos universais ”, não é bom! Pode ter consequências graves.

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