23/05/2020 | Opinião

De que forma podemos estar preparados para as contingências desta realidade 2.1?

Tiago A. G. Fonseca
Psicólogo Clínico

Tiago A. G. Fonseca
Psicólogo Clínico

De que forma podemos estar preparados para as contingências desta realidade 2.1?

23/05/2020 | Opinião

Dia 4 de Maio de 2020 assinalou o fim do nosso Estado de Emergência, passando para um momento de menor gravidade – não narrativa, pois essa aumentou com a semântica! – o Estado de Calamidade. Já podemos sair à rua e fazer a nossa vida, mas com regras e limites a cumprir. Estarão todos conscientes desses limites? E preparados para sair e estar com os outros? Estamos todos prontos para perceber o que será diferente? Continuamos cautelosos com a nossa vida e com a dos outros?

A propagação do vírus COVID-19 trouxe ao mundo moderno e civilizado um ensinamento de tempos antigos: a vida muda muito rápido, variadíssimas vezes, de diferentes formas e feitios e por razões que nem sempre controlamos ou conhecemos. Foi o caso. De repente, estamos confinados em casa, em isolamento social. Uns, mais sortudos, estão com a família. Outros, mais azarados, estão sozinhos.

Outros, ainda, têm mais sorte em estar sozinhos e outros muito azar em estar acompanhados. Todas as combinações são possíveis e trouxeram ao de cima vários desafios, estes dentro de casa. As relações familiares intensificam-se e têm de se organizar, obrigatoriamente, neste novo formato de funcionar, seja para evitar conflitos ou para os resolver. Seja em tele-trabalho ou sem ele, a partilha de espaços, de horários, de rotinas e, mesmo, de formas diferentes de fazer as pequenas coisas da casa, terão de ser alvo de atenção e adaptação para tudo continuar o mais tranquilo possível, sem conflitos e com promoção de inter-ajuda. Existem, claro, os heróis que continuam a trabalhar para que a vida em sociedade não pare. Para estes, muitas das vezes não há, sequer, as idas a casa. Outra nova forma de viver.

Pedem-nos que limpemos tudo muito bem, que seja tida atenção a locais comuns a mais pessoas, que não toquemos em interruptores ou maçanetas, que desinfectemos correio e compras, que evitemos estar com outras pessoas e que, em caso disso, se mantenha a distância higiénica. Ligar aqui o interruptor obsessivo é capaz de ajudar. A questão de fundo é se, depois disto tudo, ele se pode desligar de forma fácil, tal como foi ligado!

Intensificando, 24 sobre 24 horas do dia, o funcionamento com os nossos mais próximos, sair à rua terá de ser novamente alvo de um processo de adaptação – como em tudo, claro – que em nada tem de “normal”. Nesta situação em que vivemos, voltar à rua não é, nem pode ser, só “normal”. Quem assim o achar, estará a descurar alguns pontos de atenção a ter. Já estiveram junto a pessoas que não conhecem? Começa o alarme a tocar: Tem máscara? Tem luvas? Tem cara de doente ou de pessoa que se cuida? Bem, mais vale afastar-me um pouco, suster a respiração e ir por aquele lado. Já passaram por isto?

A sensação de controlo continua em baixo devido à alta percepção que temos do risco à nossa volta, seja ele real ou não. Ainda está a nossa ansiedade em níveis muito elevados para conseguirmos não estar em alerta e em modo sobrevivência. Mas, então, é suposto que assim seja, não é? Foi o que nos foi pedido por sete semanas, para que estivesse activo e atento, para não nos infectarmos a nós nem aos outros. E agora, de repente, já podemos ir para a rua? Parece uma armadilha! Da nossa mente, claro está.

Temos de sair, claro. O COVID-19 versão 2.0.
Com precaução, numa adaptação de comportamentos e pensamentos sobre nós e sobre os outros que nos protejam a nós e aos outros, no sentido de não voltarmos para casa, todos, já amanhã. É a Vida versão 2.1.

E vamos conseguir sim! Só temos de arranjar uma nova normalidade onde ter atenção não nos torne obssessivos mas sim cuidadosos, conscientes mas não ansiosos, sem ter a tendência de fazer a mais porque outros fazem a menos, sem a mania de acharmos ser a excepção quando tudo se mostra geral. Temos de voltar a viver e encontrar uma nova forma de o fazer e, para isso, precisamos de uma mente sã, forte e saudável! Agora, mais do que nunca. Cuidar de mim, cuidar dos meus, esperar que todos o façam e seremos todos melhores pessoas para nós e para os outros. Aprender com isto tudo e continuar a viver, conscientes de que temos uma realidade 2.1, diferente da anterior, com coisas boas e coisas más, mas que nos iremos adaptar, como sempre.

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