Cristina Sousa Presidente da Associação Abraço

Abraço – 28 anos de Linkage to care

06/04/2020

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Abraço – 28 anos de Linkage to care

04/06/2020 | Opinião

Passaram 35 anos de infeção vih em Portugal e 28 do trabalho da Abraço. Pelo meio existe um abraçar de historias de pessoas que vivem com a infeção vih que ao longo dos tempos nos foram ensinando e obrigando, enquanto ONG, a desenhar e implementar respostas adaptadas às necessidades de quem vive e convive com a doença.
Hoje sabemos que quem vive com vih e se encontra em tratamento e toma os antirretrovirais diariamente conforme prescrito mantendo uma carga viral indetetável, não têm risco de transmissão sexual do vírus para um parceiro com VIH negativo. Este avanço cientifico juntamente com farmacos é sem dúvida o que mais marca a viragem no controlo da epidemia e no bem estar do portador de vih.
A declaração de Dublin (2004) assinada pelos estados membros da Europa e Ásia Central prevê a liderança política, a prevenção, as pessoas que vivem com a infeção pelo VIH, as parcerias e a capacitação da sociedade civil bem como, o acompanhamento dos trabalhos desenvolvidos e o envolvimento político colocando regularmente a infeção pelo VIH na agenda política. Mais recentemente, a declaração de Paris (2014) estabelece os objetivos da ONUSIDA de até 2020, 90% das pessoas que vivem com a infeção pelo VIH, conheçam o seu estatuto serológico; destas 90% estejam em tratamento e das que estão em tratamento 90% tenham carga vírica suprimida, alargando estes objetivos até 2030 de 95-95-95, com zero tolerância para a discriminação, colocando a intervenção à escala local, nomeadamente focada nas cidades.
Portugal continua a apresentar das mais elevadas taxas de novos casos de infeção VIH e SIDA registadas na União Europeia. A percentagem elevada de casos em HSH em idades jovens, bem como de diagnósticos tardios (56,2%) com especial incidência nos heterossexuais, mantêm-se como uma das situações mais prementes de melhoria (INSA, 2017). Portugal apresenta uma taxa de 10,0 novos casos por habitantes, num total de 1030 casos notificados em 2016 (INSA, 2017). A taxa mais elevada (26,1 casos por habitantes) registou-se no grupo etário dos 25 aos 29 anos, com especial incidência em HSH que corresponderam a 63,3% dos casos nesta faixa etária. Por outro lado, 36,7% dos casos de transmissão heterossexual verificaram-se em indivíduo com idades de 50 ou mais anos e representaram 87,0% do total de casos nessa faixa etária. Desde o ano 2000, as taxas de novas infeções por VIH estimadas nos diferentes grupos afetados sofreram significativas alterações.
O estabelecimento de metas universais direcionadas para o controle do VIH/SIDA e associar o tratamento como forma de prevenção, reforçam a necessidade do acompanhamento clínico continuado das pessoas que vivem com vih/Sida, como um elemento indispensável ao cuidado destas, sendo a retenção nos cuidados em saúde uma necessidade e um desafio.
A experiencia do trabalho da Abraço com portadores de vih ao longo de destes 28 anos permite-nos perceber que atingir as metas 95-95-95 exige um trabalho diário que permite remover algumas barreiras de acesso aos serviços de prevenção, de ligação e retenção.
Vários fatores estão na origem do insucesso da cascata do tratamento mas a Abraço, ao longo destes anos têm um papel primordial para que populações mais frágeis e vulneráveis, como migrantes, consumidores de estupefacientes, trabalhadores sexuais, pessoas com problemas cognitivos e neurológicos que genericamente têm maior dificuldade de acesso à saúde iniciem com sucesso o tratamento ao VIH e que se mantenham em tratamento reduzindo as taxas de transmissão do virus – “tratamento como prevenção” e melhorando a sua qualidade de vida enquanto portadores de vih/ sida.
Algumas das boas práticas de intervenção que possibilitam indicadores de resultados muito positivos em termos de “linkage to care” nos utentes acompanhados pela abraço são:
• Marcação de consulta hospitalar, nas 48h seguintes a um rastreio reativo e disponibilização de acompanhamento por parte de um técnico ou educador de pares à consulta.
• Disponibilidade de contato telefónico com o técnico que realizou o rastreio para minimizar ansiedade ou duvidas bem como, possibilidade de acompanhamento psicológico
• Toma observada de medicação antirretroviral em utentes sem adesão terapêutica através da resposta de acompanhamento psicossocial quando o utente aceita e pode deslocar-se à associação Abraço ou através da resposta de apoio domiciliário para portadores de vih com sequelas físicas, cognitivas ou neurológicas e com dropout terapêuticos regulares.
• Acompanhamento por uma equipa multidisciplinar de Assistente Social, Psicólogo e nutricionista que permite solucionar vários problemas do dia a dia da pessoa infetadas e restante agregado familiar possibilitando o “foco” no tratamento.

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