Três autores retratam estudo polémico sobre hidroxicloroquina

5 de Junho 2020

Três dos quatro autores do estudo que sugere que os antimaláricos cloroquina e hidroxicloroquina podem aumentar o risco de morte de doentes com covid-19 retrataram hoje o estudo, invocando que não garantem a veracidade dos dados.

O estudo, cuja credibilidade foi questionada por cientistas, foi publicado em 22 de maio na revista médica britânica The Lancet e levou a que vários países, incluindo Portugal, suspendessem ou recomendassem a suspensão do uso de hidroxicloroquina no tratamento hospitalar de doentes com covid-19.

Na nota de retratação, Mandeep Mehra, Frank Ruschitzka e Amit Patel afirmam que “já não podem atestar a veracidade das fontes primárias dos dados”, usados para o artigo, e pedem desculpas aos editores e aos leitores da revista pela eventual “vergonha ou incómodo” causados.

Numa declaração, a revista The Lancet refere que o artigo será atualizado em breve de modo a refletir a retratação do estudo.

Mandeep Mehra trabalha no Hospital de Brigham de Boston, nos Estados Unidos, enquanto Frank Ruschitzka no Hospital Universitário de Zurique, na Suíça, e Amit Patel na Universidade de Utah, também nos Estados Unidos.

Os três investigadores sublinham, na nota de retratação, que, após a publicação do estudo, “se levantaram várias preocupações em relação à veracidade dos dados e análises conduzidos pela Surgisphere e pelo seu fundador e coautor Sapan Desai”, que também assina o artigo científico.

Na sequência das dúvidas suscitadas pelos dados fornecidos pela empresa Surgisphere, Mandeep Mehra, Frank Ruschitzka e Amit Patel encetaram uma avaliação independente à empresa, com o consentimento de Sapan Desai, para “avaliar a origem dos elementos da base de dados, confirmar a integridade da base de dados e replicar as análises apresentadas no artigo”.

A Surgisphere informou os avaliadores que não iria fornecer “o conjunto de dados completo”, alegando que tal informação “iria violar os acordos com os clientes e os requisitos de confidencialidade”.

A avaliação independente não foi feita, com os peritos a afastarem-se do processo por considerarem que não estavam reunidas as condições para o fazerem.

“Devido a este lamentável desenvolvimento, os autores pedem a retratação do estudo”, escrevem os investigadores Mandeep Mehra, Frank Ruschitzka e Amit Patel, acrescentando que aceitaram colaborar no trabalho de “boa-fé” e numa altura de “grande necessidade”, como é a pandemia da covid-19.

Na sua declaração, a revista The Lancet frisa que leva “extremamente a sério” os assuntos relacionados com a “integridade científica” e que “há muitas questões pendentes sobre a Surgisphere e os dados que supostamente foram incluídos no estudo”.

Por isso, a publicação defende, seguindo as diretrizes do Comité de Ética de Publicações e do Comité Internacional de Editores de Revistas Médicas, que são “necessárias avaliações institucionais urgentes às colaborações da Surgisphere na investigação” científica.

O estudo em causa baseou-se na observação de dados de 14.888 doentes hospitalizados com covid-19 (infeção respiratória viral) que foram tratados com um ou ambos os medicamentos para a malária (cloroquina e hidroxicloroquina), combinados ou não com a administração dos antibióticos azitromicina e claritromicina, utilizados no tratamento de infeções pulmonares bacterianas.

Os dados foram comparados com os de 81.144 doentes com covid-19 igualmente hospitalizados, mas que não receberam tratamento com estes medicamentos.

Face às conclusões do estudo, a Organização Mundial de Saúde suspendeu temporariamente os ensaios clínicos em curso com hidroxicloroquina em doentes com covid-19, tendo decidido na quarta-feira retomá-los depois de a revista The Lancet ter reconhecido num aviso formal que “questões científicas importantes sobre os dados” pairavam sobre o estudo.

A nível global, segundo um balanço da agência de notícias AFP, a pandemia de covid-19 já provocou mais de 387 mil mortos e infetou mais de 6,5 milhões de pessoas em 196 países e territórios.

Mais de 2,8 milhões de doentes foram considerados curados.

Em Portugal, morreram 1.455 pessoas das 33.592 confirmadas como infetadas, e há 20.323 casos recuperados, de acordo com a Direção-Geral da Saúde.

A doença respiratória é causada por um novo coronavírus detetado no final de dezembro, em Wuhan, uma cidade do centro da China.

LUSA/HN

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