Incluir os pacientes nas comunicações de alta hospitalar pode melhorar os resultados dos tratamentos

Ainda que existam protocolos nacionais, cada grupo hospitalar pode ter a sua própria política de alta, por isso existe uma variação considerável em como são geridas as cartas de alta.

Enviar cartas de alta aos pacientes, bem como aos seus médicos de família quando os doentes abandonam o hospital pode fazer uma diferença substancial nos resultados, de acordo com um novo estudo realizado por investigadores da Universidade de Wawick.

A maioria dos pacientes são a favor de receber cartas, de acordo com entrevistas conduzidas a pacientes, que também salientaram a necessidade de melhorar o conteúdo das mesmas para que sejam mais eficazes.

O estudo, que faz parte de um projeto maior inserido na comunicação envolta na alta de pacientes em cuidados secundários, foi publicado no BMC Health Services Research por investigadores do Centro de Linguísticas Aplicadas e da Escola Médica de Warwick.

Cartas de alta são produzidas pelos médicos dos hospitais quando os pacientes abandonam as instalações depois de internados ou tratados em ambulatório, e são enviadas para os respetivos médicos de família como parte do processo de saída quando regressam à comunidade.

A autora principal Dra. Katharine Weetman, membro do Instituto de Estudos Avançados e da Escola Médica da Universidade de Warwick, explica que “se um paciente for tratado no hospital e estiver de saída, significa que algo importante aconteceu, tal como um diagnóstico, uma alteração na medicação ou um novo conselho que devem seguir. Existem implicações de segurança relativas aos pacientes em termos de como esta informação é comunicada, partilhada e gerida para que tanto eles como os seus médicos de família estejam totalmente a par”.

Ainda que existam protocolos nacionais, cada grupo hospitalar pode ter a sua própria política de alta, por isso existe uma variação considerável em como são geridas as cartas de alta. Os hospitais podem variar o modelo, conteúdo, autor (se é um consultor, um médico em início de carreira, um enfermeiro, etc…), o processo de expedição, se a fazem em papel ou através de meios eletrónicos, e mais particularmente se a partilham ou não com os pacientes.

O Plano do Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido (2000) e “Copying letters to patients: good practice guidelines” (2003), elaborado pelo Departamento da Saúde britânico, bem como outras iniciativas e diretrizes desde então encorajam que se envie as cartas de alta também aos pacientes como boa prática, mas não obriga os hospitais a que o façam.

Para o estudo, os investigadores falaram com 50 pacientes que experienciaram recentemente um internamento, foram admitidos em regime ambulatório, através das urgências ou para cirurgia com marcação, ainda que a maioria tivesse sido internado.

Dos 50 inquiridos, 88% indicou que teria gostado de receber a sua carta de alta (em comparação com os 64% que receberam uma), e 62% estavam especificamente a favor de receber uma cópia da mesma carta de alta enviada aos médicos de família, por oposição a uma personalizada. Vários pacientes forneceram ainda exemplos de como isto teria melhorado a sua experiência.

“Os pacientes descreveram o problema como se não soubessem qual era o seu plano de tratamento, sem saber o que têm de fazer quando chegam a casa, quando deveriam marcar consultas para serem seguidos, ou como deveria ser o seu regime de medicação e atividade física.

Se não souberem o que se passa, isso resulta em maiores níveis de ansiedade, uma hipótese de que os conselhos não sejam seguidos e consequentemente afetar a sua saúde futura, bem estar e uso dos recursos do sistema nacional de saúde”, explicou o Dr. Weetman.

“Onde receberam estas cartas de alta, os pacientes queriam ler menos termos técnicos e acrónimos que são confusos para eles e que podem também não ser familiares para os seus médicos de família. Sentiam que a informação deveria ser organizada em secções relevantes e claramente indicadas”, acrescentou.

“Pesquisas passadas mostraram que se os pacientes ou os seus médicos de família não estão bem informados então os resultados adversos podem ocorrer, bem como uma readmissão no hospital. Tudo porque conselhos vitais incluídos na carta como alterações à medicação ou necessidade de fazer exames sanguíneos recorrentes foram ignorados”, continuou o Dr. Weetman.

Um estudo mais antigo conduzido pela mesma equipa chegou à conclusão de que a generalidade dos médicos de família era também apoiante de que os pacientes recebessem a sua carta de alta, citando razões como a possibilidade de envolver mais ativamente os pacientes no tratamento e ajudar a assegurar que o seu seguimento é acionado mesmo caso o médico de família não tenha recebido a carta por qualquer razão.

Os investigadores salientam ainda que é importante manter uma boa pratica nas comunicações de alta, mesmo em tempos de crise como a situação da pandemia COVID-19, em que a segurança do paciente e a gestão dos recursos do sistema nacional de saúde é ainda mais vital.

O professor Jeremy Dale, Diretor da Unidade de Cuidados Primários Académicos na Escola Médica de Warwick e médico de família em Coventry comentou que “este estudo demonstra a importância do sistema nacional de saúde dar poder aos pacientes em todas as etapas do tratamento, através de informação relevante e conselhos.

Os pacientes querem informações escritas claras sobre a informação, investigações, tratamentos e conselhos que tenham recebido no hospital, junto com os procedimentos que eles e os seus médicos de família devem seguir dali para a frente. À medida que o serviço nacional de saúde reconstrói os seus serviços no seguimento do impacto do COVID-19, as conclusões desta investigação indicam a importância de falar sobre esta questão para assegurar que os recursos do sistema nacional de saúde são usados eficientemente com a minimização do risco de erros no seguimento dos pacientes”.

O Dr. Weetman acrescenta ainda que “boa comunicação não se torna obsoleta durante a pandemia. Torna-se até mais importante. Quer tenham recebido tratamento cara-a-cara ou consultas vídeo ou por chamada com um especialista, as pessoas precisam de saber o que se está a passar, o que lhes foi diagnosticado, o que está planeado e quais são os próximos passos, o que precisam de fazer para estarem tão seguros e saudáveis quanto possam. Desta forma podem otimizar o impacto benéfico dos cuidados hospitalares”.

NR/HN/João Daniel Ruas Marques

0 Comments

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Share This