Investigadores criam ratinho para estudar o cancro cerebral letal

4 de Agosto 2020

Investigadores do “Wellcome Sanger Institute”,  do Hospital de Addenbrooke (Cambridge) e os seus colaboradores, conceberam um novo modelo de ratinho para mostrar pela primeira vez como uma mutação no conhecido gene do cancro – EGFR - inicia o glioblastoma e trabalha com uma seleção de mais de 200 outros genes para guiar  o cancro.

Os resultados, publicados na revista “Genome Biology”, apresentam o primeiro modelo de ratinho do seu género, disponível para a comunidade científica avançar com novos tratamentos para esta forma letal de cancro do cérebro.

O glioblastoma é uma forma agressiva de cancro do cérebro. É tratado com cirurgia, seguida de quimioterapia ou radioterapia. Contudo, as células do glioblastoma podem escapar ao tratamento e os tumores regressam. O prognóstico é pobre – os doentes sobrevivem, em média, 12-18 meses após o diagnóstico.

Estão atualmente a ser desenvolvidos novos tratamentos e imunoterapia direcionados para ajudar os doentes com glioblastoma. Ainda não se sabe exatamente porque é que os glioblastomas começam a crescer.

Num novo estudo, investigadores do “Wellcome Sanger Institute” e os seus colaboradores, criaram um novo modelo de ratinho com glioblastoma para perceber que genes estavam implicados no cancro.

O modelo mostrou que o conhecido gene do cancro – Epidermal Growth Factor Receptor – (EGFR) pode, por si só, iniciar o crescimento de tumores cerebrais em ratos, resultando em tumores altamente representativos dos glioblastomas humanos.

O Dr. Imran Noorani, do Hospital de Addenbrooke da Universidade de Cambridge, referiu: “criámos um novo modelo de ratinho para estudar o cancro letal do cérebro humano, o glioblastoma. Pela primeira vez, mostrámos que o conhecido gene EGFR é capaz de iniciar o glioblastoma e identificámos novos genes condutores que merecem ser mais investigadps”.

Para identificar os genes que ajudam o EGFR a conduzir o cancro, a equipa utilizou a técnica de transposição PiggyBac – uma pequena secção de ADN inserida em diferentes partes do genoma para introduzir mutações. Isto revelou mais de 200 mutações – novas ou já conhecidas – em genes supressores de tumores que estavam a trabalhar com o EGFR para dirigir o crescimento do tumor cerebral, muitos dos quais constituem novos alvos de medicamentos.

A equipa comparou os resultados com sequências do genoma humano de pacientes com glioblastoma e descobriu muitas mutações genéticas encontradas tanto em humanos como em ratos. Os dados genómicos humanos contêm muitas mutações implicadas no glioblastoma, sem indicação clara de quais as mutações específicas que impulsionam o cancro. Com o novo modelo de ratinho, a equipa conseguiu reduzir as mutações que conduzem ao glioblastoma, o que irá ajudar o futuro desenvolvimento de medicamentos.

Allan Bradley, anterior diretor do Wellcome Sanger Institute e atualmente professor no Departamento de Medicina da Universidade de Cambridge, afirmou: “os doentes com glioblastoma necessitam urgentemente de novas terapias dirigidas. Infelizmente, os glioblastoma podem tornar-se altamente resistentes às terapias que visam moléculas específicas, uma vez que existem muitos outros fatores genéticos que podem “assumir” o progresso do cancro. Este novo modelo de ratinho fornece o elo que falta para transferir os resultados de novos tratamentos potenciais, testados em ratos, para ensaios clínicos”.

Mais informação em:

Imran Noorani et al. (2020) PiggyBac mutagenesis and exome sequencing identify genetic driver landscapes and potential therapeutic targets of EGFR-mutant gliomas. Genome Biology. DOI: 10.1186/s13059-020-02092-2

NR/HN/Adelaide Oliveira

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