Eventual fecho de internamento de Unidade de Alcoologia terá um “impacto devastador”

7 de Agosto 2020

O psicólogo clínico Mário Marques considerou esta sexta-feira que um eventual encerramento do internamento da Unidade de Alcoologia de Lisboa poderá ter “um impacto devastador” com muitos custos para a saúde física e mental da população com problemas de álcool.

O serviço de internamento da Unidade de Alcoologia de Lisboa encerrou em março devido à pandemia, uma situação que está a preocupar os utentes, mas a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo assegurou à Lusa que está a ser ultimado um modelo de reabertura.

Para Mário Marques, “seria trágico” as pessoas com problemas de álcool deixassem de ter este “serviço de referência”, tendo em conta que é “um tratamento especializado sem custos para as pessoas”.

“E nos dias de hoje, com a situação pandémica e com todas as ondas de choque que ela está a trazer à vida de todos nós, não é difícil pensar que poderá ter um impacto devastador com muitos custos para a saúde física e mental desta população”, disse à agência Lusa o psicólogo.

No seu entender, seria “privar os doentes” de uma das respostas mais especializada que o Serviço Nacional de Saúde possui nesta área: “os doentes ficarão muito mais pobres nas suas oportunidades de tratamento. Será uma perda enorme e que espero que não se verifique”.

Mário Marque sublinhou que os recursos humanos escasseiam por norma no SNS e nos serviços que tratam as dependências, não é diferente.

“São serviços habituados a trabalhar ‘à pele’. Com a situação da Covid-19, tendo em conta todas as exigências (e bem) da Direção-Geral de Saúde para os internamentos na Saúde Mental, claro que a capacidade de resposta destes serviços fica fortemente comprometida se não houver um investimento nos recursos humanos com mais contratações e até no melhoramento das condições físicas dos edifícios onde funcionam estas valência, que por norma, já são muito antigos”, defendeu.

Questionado se os problemas de álcool podem vir a aumentar com a pandemia, afirmou que da experiência de situações anteriores de crise faz pensar que o consumo de álcool poderá aumentar por questões sociais, como o desemprego, e de saúde mental, que “poderão ser a próxima pandemia”.

“Nesta fase, todos os serviços são importantes e, por isso, repito, vejo com muita preocupação o eventual encerramento do internamento da Unidade de Alcoologia”, vincou.

“Pelo que sei e conheço do serviço, por muitos anos de trabalho desenvolvido em articulação com a Unidade, através das suas valências da consulta e do internamento, é um serviço que prima pela procura de respostas que se ajustem às diversas necessidades dos doentes”.

Além da “fundamental desintoxicação física”, contempla toda uma abordagem que vai ao encontro dos problemas ligados ao consumo de álcool.

“Esta não é uma doença qualquer. É uma doença com forte impacto no funcionamento físico e psicológico, compromete o modo de pensar e agir da pessoa doente e com isso todas as suas valências de vida”, salienta.

Daí que o internamento esteja estruturado em quatro semanas, com cuidados médicos, de enfermagem, psicológicos e de intervenção social.

“O programa tem vindo a fazer também várias adaptações às necessidades prementes de doentes que beneficiam de integrar Programas de Longa Duração, caso das Comunidades Terapêuticas.

Para o psicólogo, esta é a “grande valia” da unidade, oferece internamentos curtos a quem precisa de seguir para as Comunidades Terapêuticas e internamentos de quatro semanas para quem não esteja num estado tão agravado da doença.

Assim oferece “uma possibilidade de tratamento menos disruptiva para a vida do doente”: “uma coisa é estar internado sensivelmente um mês, outra é estar três, seis meses ou um ano, que são os tempos de tratamento nas comunidades terapêuticas”.

“Pessoas que ainda mantêm os seus trabalhos, as suas famílias, com vidas ainda minimamente estruturadas, têm assim acesso a um programa médico e psicoterapêutico especializado de relativa curta duração, que de outro modo só é acessível em centros privados com elevadíssimos custos”, sublinha.

LUSA/HN

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