Pedro Andrade Gomes
Coordenador do Serviço de Cirurgia da Cabeça e Pescoço do Instituto Português de Oncologia de Lisboa Francisco Gentil

Cancro da cabeça e pescoço: «é fundamental referenciar precocemente para centro especializado e multidisciplinar.»

25/08/2020 | Consultório

Os cancros da cabeça e pescoço (CCP) comportam um conjunto muito variado de patologias quer por via dos órgãos afetados (vias aerodigestivas, tiroide, glândulas salivares, olho, pele, ossos e outros tecidos), quer pelas características morfológicas e genéticas, quer pela resposta imunológica. O tratamento dos cancros do sistema nervoso central são abordados no contexto da neurocirurgia e estão excluídos deste agrupamento.

No seu conjunto, os CCP representam o sexto cancro mais frequente, responsável por cerca de 300 mil mortes anuais em todo o mundo. Em Portugal surgem cerca de 3.000 novos casos/ano. Os cancros das vias aerodigestivas têm como fatores predisponentes o tabaco, o álcool e certos vírus.

A agressividade e rapidez de evolução destes tumores pode variar muito. Contudo, há cancros, como os da cavidade oral, que, em poucas semanas, se podem tornar inoperáveis. No Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO Lisboa) temos verificado um incremento do número de casos mais avançados, o que torna os tratamentos mais complexos e morosos.

A prevenção é possível e pode retardar ou impedir o aparecimento do cancro ou mitigar as suas consequências. Cada individuo tem potencial para resistir às agressões do meio se adotar uma vida saudável e uma das ações que mais poderá contribuir para a prevenção primária é a educação para a saúde desde o início da idade escolar.

No CCP é, pois, muito importante valorizar sintomas que persistam mais de duas/três semanas, como ulcerações, dor, obstrução nasal, engasgamento, tumefações, rouquidão, dificuldades na deglutição e hemorragia. Nesta fase, se o grau de suspeição for grande, o doente deve ser desde logo encaminhado para um centro de referência da especialidade.

O tratamento dos CCP, em particular os mais avançados, é multidisciplinar e, em muitos casos, a par das abordagens cirúrgicas, os doentes têm de efetuar tratamentos de radioterapia, quimioterapia ou imunoterapia. Os especialistas em imagiologia, medicina nuclear, anatomia patológica e patologia clínica são determinantes para a melhor programação dos tratamentos. Estes doentes têm também de ser acompanhados por múltiplas especialidades (medicina interna, pneumologia, neurologia, cardiologia, imunohemoterápia, fisiatria, psiquiatria/psicologia e nutrição). Uma unidade de cuidados intensivos, treinada na abordagem destes doentes, uma consulta de dor e assistente social também são especialidades indissociáveis do tratamento.

Compreendendo as especificidades do CCP, já em 1968, e sob a direção do Prof. José Conde, o IPO Lisboa criou a Clínica de Tumores de Cabeça e Pescoço como serviço multidisciplinar, que agrega as valências necessárias à abordagem destes tumores.

O CCP avançado implica grandes deformidades e perdas de função. Por isso, uma das vertentes que tem vindo a ser desenvolvida é a da reconstrução e reabilitação funcional. Presentemente registam-se progressos na cirurgia e na radioterapia que permitem preservar estruturas e controlar riscos, tornando elegíveis para tratamento doentes com comorbilidades e de maior idade, que anteriormente eram rejeitados. As reconstruções com recurso a retalhos pediculados ou micro-anastomosados permitem reabilitações funcionais e estéticas que recuperam o doente para uma vida autónoma e socialmente ativa.

Em resumo, a abordagem do doente com CCP pode estratificar-se em quatro grandes patamares:

• Na comunidade, com o incremento da literacia em saúde e em cidadania. Os indivíduos devem ser ensinados a reconhecer sinais de alerta, a valoriza-los e a entender que uma abordagem precoce pode evitar danos futuros. O passo seguinte é capacita-los para exigirem resposta adequada junto das instituições. As políticas de saúde devem promover a transparência das decisões e processos, pugnando pela participação dos doentes e profissionais.

• Nos cuidados primários, sensibilizando os médicos de família para, diante de uma suspeita de cancro, referenciarem precocemente para instituições credenciadas.

• Nos cuidados hospitalares, definindo quais as entidades acreditadas para cada tipo de tratamento e, nestas, criar formas organizacionais que ajam como «vias verdes» para o tratamento do cancro.

• Após a abordagem hospitalar, garantindo a reinserção social e o acompanhamento médico de proximidade do doente, o que é determinante para a recuperação e para a melhoria da qualidade de vida.

As mensagens finais são simples, ainda que possam não ser cómodas ou de fácil persecução. Devemos pugnar por uma vida saudável, diagnóstico precoce de lesões suspeitas, exigir cuidados atempados em instituições acreditadas e capacitadas para um tratamento multidisciplinar integrado, assegurando a reintegração social e um acompanhamento digno nos cuidados primários, continuados ou paliativos.
Procurar prolongar o tempo e a qualidade de vida de vida de toda uma sociedade tem de ser uma opção coletiva e consciente, que tem custos Na utilização dos recursos, urge entender que o Serviço Nacional de Saúde existe para defender o interesse dos doentes e da sociedade e, para tal, é fundamental valorizar os profissionais de saúde, responsabilizando-os e promovendo culturas de mérito, financiar os resultados em saúde e banir o desperdício, assegurando uma gestão eficiente dos meios.

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