Mário André Macedo
Enfermeiro Especialista em Saúde Infantil

Aproxima-se o Inverno

10/09/2020 | Opinião | 1 comment

Faltam três semanas para o fim do verão. Setembro trará o recomeço das aulas, a mudança da estação para o outono e o início da época tradicional de gripe e restantes vírus respiratórios sazonais. Esta previsibilidade, não é fatalismo, é uma vantagem. Permite-nos planear antecipadamente, prever necessidades e alocar recursos onde são mais necessários.

A principal recomendação da OMS e dos especialistas passa por aumentar a cobertura vacinal da gripe. Portugal adquiriu 2 milhões de doses, num investimento de 13,6 milhões de euros, que representa um aumento de 500 mil doses em relação ao ano passado. A medida é na direção certa, mas com a intensidade insuficiente. Dois milhões de doses não são suficientes para garantir a cobertura vacinal dos grupos de risco, profissionais da saúde, bombeiros e forças de segurança. Relembrando que existem sempre cidadãos que, de forma legitima, não pertencendo a nenhum dos grupos prévios se vacinam e contribuem para a imunidade de grupo.

As medidas adotadas para controlar a Covid-19, como o distanciamento social, uso de máscaras e lavagem frequente das mãos, podem contribuir para controlar a evolução não só do influenza, como dos restantes vírus respiratórios sazonais. De facto, esta parece ser a realidade mais provável, tendo por base os relatos que nos chegam do hemisfério sul. Desde países com mais recursos, como Austrália e Nova Zelândia, a países com menos recursos como África do Sul ou Brasil, todos reportam dados semelhantes: uma enorme redução de casos confirmados de gripe e de restantes vírus respiratórios.

São notícias animadoras. Uma boa cobertura vacinal, em conjunto com planos de contingência bem executados pode significar um inverno com menos casos de doença respiratória viral, o que irá deixar o SNS liberto para assumir a luta contra a Covid-19 e a urgente recuperação da atividade programada. Convém relembrar, que os planos de contingência devem sempre ser validados não só pela ciência como também pelo bom senso.

A nossa saúde mental depende disso! Algumas medidas anunciadas para escolas ou casas de acolhimento, apesar de bem-intencionadas, são desproporcionais ao risco para o escalão etário. Privar crianças e adolescentes de socialização entre pares, criará marcas profundas na sua saúde mental, não trazendo nenhum ganho relevante na luta contra o avanço da pandemia.

A preparação para o inverno inclui, invariavelmente, a preparação para a segunda vaga de Covid-19. Alguns passos importantes foram dados, o aumento da capacidade de testes é inegável, assim como uma maior capacidade instalada de cuidados intensivos. Outras medidas ficaram por completar. As equipas de saúde pública precisam de recursos humanos para identificar e quebrar cadeias de transmissão. Nos cuidados intensivos, não basta ter o material e tecnologia, é preciso ter profissionais treinados para a utilizar, trata-se de serviços com curva de aprendizagem lenta. Uma boa gestão de recursos humanos teria precavido uma provável falta deste valioso recurso humano.

Com um planeamento adequado, pode ser possível um inverno suave para o sistema de saúde. Desta forma, poderemos lidar com os efeitos diretos e indiretos da pandemia, recuperar o que não foi efetuado pelos planos de contingência e retomar programas de intervenção na comunidade. Pela saúde de todos nós.

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