Luís Gaspar
Presidente da Mesa do Colégio da Especialidade de Enfermagem de Reabilitação da Ordem dos Enfermeiros

A Enfermagem de Reabilitação em pessoas com DPOC em contexto COVID-19 em Portugal

19/11/2020 | Opinião

Não andarei muito longe da verdade ao afirmar que a rotina diária da esmagadora maioria dos Portugueses é procurar avidamente noticias sobre o COVID-19 e a evolução da pandemia, mas ontem comemorou-se o dia mundial da Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. Vulgarmente denominada DPOC é atualmente a terceira causa de morte no mundo sendo que em Portugal aumentou 241% entre 2011 e 2017 sendo que em 2019 teve um aumento de 5,8%, estando atualmente inscritos nos Cuidados de Saúde Primários cerca de 138.000 pessoas com esta doença.

A DPOC tem um elevado impacto no quotidiano das pessoas que se traduz em falta de ar durante o esforço originando diminuição progressiva da atividade física, criando um ciclo vicioso que pode originar dependência no autocuidado, ou seja, no desempenho de atos tão simples quanto cuidar da sua higiene, vestir-se ou despir-se e andar, condicionando a dignidade da pessoa cujo quotidiano se encontra afetado pela limitação funcional nas suas atividades básicas.

A Reabilitação Respiratória é o tratamento não farmacológico recomendado para estas pessoas na fase estável da doença melhorando a falta de ar, aumentando a tolerância à atividade e consequentemente a independência no autocuidado traduzindo-se invariavelmente na melhoria da qualidade de vida. Em Portugal só cerca de 2% das pessoas com DPOC, cerca de 3000 por ano, têm acesso a programas de Reabilitação Respiratória.

Muito se tem falado acerca das pessoas com doença não COVID-19 e qual o impacto que a mobilização de recursos, ainda que legitima, para as pessoas com COVID-19 tem na sua saúde.

De facto, este surto pandémico, alterou, altera e vai continuar a alterar o dia a dia de todos nós. Para nós Enfermeiros, representa um desafio enorme. Mobilizados de locais de trabalho em prole dos doentes face à exigência presente, diretrizes diárias que provocam mudanças laborais constantes, falta de enfermeiros (6,7 enf/1000 hab, abaixo da média da UE que é de 8,4 enf/100 hab), falta de planeamento atempado faz-nos trabalhar no limite das nossas forças físicas e psicológicas.

Para estas pessoas com DPOC, as medidas associadas ao combate à pandemia associada à escassez de recursos humanos e materiais do SNS, limitaram ainda mais o acesso à reabilitação respiratória por risco aumentado de contágio e por encerramento temporário ou redução acentuada de tratamentos nos centros de reabilitação. 

Como sabemos os Enfermeiros estão na linha da frente no combate ao COVID-19. É publico, está na nossa matriz, sendo a nossa função a prestação de cuidados de enfermagem eficazes e seguros.

Do mesmo modo também os Enfermeiros de Reabilitação estão onde sempre estiveram, junto destas pessoas a prestar cuidados de enfermagem de reabilitação com o objetivo de reduzir a dificuldade respiratória, aumentar a tolerância ao esforço, prevenir complicações aliviando a ansiedade de forma a ajuda-las a retomar a sua independência funcional e regressarem à sua vida normal.

O contexto atual faz com que seja necessário suprir carências decorrentes do excesso de procura de cuidados de saúde para COVID-19. Percebo que nesta fase, todas as atenções estejam viradas para as Unidades de Cuidados Intensivos e para o contexto hospitalar. É natural. Não nos devemos, porém, esquecer que também existem outras pessoas com doenças crónicas, entre as quais a DPOC, que necessitam de cuidados de saúde, neste caso de Cuidados de Enfermagem de Reabilitação, nomeadamente a capacitação para o autocuidado através de exercícios respiratórios e de fortalecimento muscular.

Neste cenário emerge a telereabilitação como forma de contornar esta limitação de acesso aos cuidados de enfermagem de reabilitação.
O Ministério da Saúde, através da SPMS, desenvolveu a plataforma de teleconsulta RSE Live que começou a ser testada em Ovar em Abril e que permite a realização de teleconsultas em tempo real no SNS e na qual o profissional de saúde, à distância e recorrendo às novas tecnologias avalia a situação clinica, procede ao planeamento da prestação de cuidados permitindo desta forma melhorar a acessibilidade aos cuidados de saúde. Não percebo, contudo, qual a razão da demora no acesso generalizado a esta plataforma. Torna-se absolutamente fundamental que esteja de facto em funcionamento em todo o país por forma a realizar programas de reabilitação respiratória em contexto de cuidados de saúde primários (devidamente ajustados aos constrangimentos existentes mantendo sempre o foco na segurança do doente) a estas pessoas limitando o impacto do confinamento. Uma vez implantada, vem realçar ainda mais a importância dos Enfermeiros de Reabilitação já integrados nos cuidados de saúde primários no tratamento das pessoas com DPOC dando um contributo fundamental quando replicada no período pós-pandémico.

 

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