Nuno Alvim Gestor

Só as escolhas revelam o que somos

11/26/2020

[xyz-ips snippet=”Excerpto”]

Só as escolhas revelam o que somos

26/11/2020 | Opinião

Esta semana o parlamento e o Presidente da República renovaram o estado de emergência. Esta decisão conta com um largo apoio parlamentar. Ainda assim, esse apoio vai minguando, dentro e fora da Assembleia da República. Aproxima-se o inevitável momento da avaliação política das escolhas feitas durante a pandemia. Os nossos governantes não ficam bem na fotografia.

A gestão da pandemia deve refletir a pressão sobre o nosso sistema de saúde. Esta pressão resulta de uma equação simples: de um lado está a procura de cuidados pelos doentes; do outro está a oferta de cuidados pelos hospitais e sistema de saúde em geral. Se a procura excede a oferta de forma sustentada, o sistema colapsa. Haverá pessoas não atendidas, o estado médio de saúde piora, e haverá mais mortes evitáveis. É uma situação de desequilibro que se tem de corrigir. Justifica-se uma intervenção em larga escala.

A boa gestão recomendaria atuar dos dois lados da equação. No entanto, os nossos governantes concentraram-se no mais fácil. Restringiram a procura, não cuidando da oferta. Declarou-se o milagre português, e esqueceu-se a preparação.

O governo não cuidou da oferta, escolhendo não investir na capacidade de resposta do sistema de saúde. Se a doença é um facto sobre o qual ninguém tem responsabilidade direta, a capacidade hospitalar que temos é uma consequência de escolhas sobre a aplicação dos nossos recursos. O governo não usou o tempo que teve para aumentar capacidade do SNS.

O número de camas hospitalares não cresceu. Em março o número de camas de cuidados intermédios e intensivos no SNS era 1.853, em setembro era 1.819 (fonte). Em vez de aumentar, a capacidade de resposta diminui 2% durante a pandemia. Se considerarmos todas as camas (i.e. incluindo médicas, cirúrgicas, neutras) a diminuição é de 3%.

O número de médicos no sistema público também não cresceu. Em março era 30.297, em outubro era 29.455 (fonte). De novo, a capacidade de resposta diminui 3% durante a pandemia.

A negociação com os hospitais privados para aumentar a capacidade de tratamento também não aconteceu. Segundo as notícias que vão saindo, as administrações regionais de saúde do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo apenas começaram a negociar colaborações com os prestadores privados no princípio de novembro.

A ausência de investimento na capacidade do SNS não se explica por falta de tempo ou recursos. O governo optou por aplicar esforço noutras áreas. Por exemplo, após proclamar o milagre português, a cúpula do Estado investiu em trazer o futebol da Liga dos Campeões para Lisboa, o governo comprometeu pelo menos €1.200 milhões para aguentar a TAP, e estamos todos na iminência de enterrar dinheiro para que o Estado volte a ser dono de grande parte dos CTT. Dinheiro (ainda) não faltou.

As opções foram tomadas. Com certeza que é difícil governar nas circunstâncias atuais. No entanto, este governo escolheu apenas restringir a procura, limitando as nossas liberdades e a vida em sociedade. Se no curto -prazo (i.e. no primeiro confinamento) não tinha outra opção, passados 8 meses, poderia também ter expandido a oferta de cuidados de saúde. Isto dar-lhe-ia espaço para mitigar a dureza das medidas que nos têm sido impostas.

A seu tempo, o governo terá de se confrontar com as suas escolhas. Esperemos que haja uma oposição suficientemente robusta para fazer ver que sempre houve uma alternativa. As respostas dadas não são fatalidades e refletem as escolhas e prioridades de quem tem poder. O governo é aquilo que foi escolhendo.

Texto inicialmente publicado: ver AQUI

1 Comment

  1. José Gaspar

    Os nossos governantes não ficam bem na foto, mas a oposição não fica m,melhor era suposto termos uma oposição com ideias, tanto para actual situação como a do nosso futuro e o que tenho observado, é que a oposição faz oposição porque sim, é uma oposição que faz oposição pelo que vem nos orgãos de comunicação social seja a escrita ou a adiou-visual, até hoje não li nem ouvi uma proposta em que os eleitores acreditem, nem o que pretendem fazer e como, mas é simples a oposição sabe que nem precisa dizer nada nem prometer nada, promessas o vento têm as levado já a muitos anos, mas a oposição sabe que quando os eleitores se zangam com o partido que estiver no governo os eleitores para castigarem o governo vão dar de bandeja o governo há oposição, tem sido assim desde há dezenas de anos e assim irá continuar ninguém se iluda que vai mudar alguma coisa com a mudança do nome do ocupante da cadeira.

Submit a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

ÚLTIMAS

Esclerose Múltipla

Cristiana Lopes Martins, fisiatra nos hospitais de Portimão e Lagos (Unidade Local de Saúde do Algarve) e na Unidade Local de Saúde do Litoral Alentejano; Eduarda Afonso, fisiatra no hospital de Faro (Unidade Local de Saúde do Algarve)

Enfermeiros querem reunir com António Gandra d’Almeida

O Sindicato Nacional dos Enfermeiros (SNE) saudou esta quarta-feira a eleição de António Gandra d’Almeida como novo diretor executivo do Serviço Nacional de Saúde. Em declarações ao nosso jornal, o responsável afirmou que vai solicitar uma reunião com António Gandra d’Almeida e a nova equipa.

MAIS LIDAS

Share This
Verified by MonsterInsights