Entrevista: Prof. Fausto Amaro: “Nova pandemia veio aumentar as dificuldades”

12/01/2020
A prevenção, testagem e tratamento do VIH/SIDA “continuam a ser afetadas não só pela Covid-19 mas também pelo estigma social”, diz o sociólogo Fausto Amaro, professor catedrático da Atlântica

A prevenção, testagem e tratamento do VIH/SIDA “continuam a ser afetadas não só pela Covid-19 mas também pelo estigma social”, diz o sociólogo Fausto Amaro, professor catedrático da Atlântica – Instituto Universitário – e investigador do Centro de Administração e Políticas Públicas do ISCSP – Universidade de Lisboa.

HealthNews (HN) – De acordo com o Relatório “Infeção VIH e SIDA em Portugal 2020”, elaborado pelo INSA em colaboração com o Programa Nacional de Infeção VIH e SIDA da DGS, em 2019 foram diagnosticados 778  novos casos de infeção. Cumulativamente, encontravam-se registados 61.433 casos. Qual é a sua análise relativamente a estes números?
Prof. Fausto Amaro (FA) – O número de infeções pelo VIH tem vindo a diminuir em Portugal desde o ano 2000. Contudo, a taxa de infeção no ano de 2019 foi ainda de 7,6 casos por 100.000 habitantes o que coloca o nosso país entre os que têm taxas mais elevadas na União Europeia. É preciso ter em conta igualmente que existem grupos específicos, como a população prisional, onde com grande probabilidade a taxa será muito maior, como revelou um estudo realizado pelo ISCSP em 2005, o qual indicava que 9,5% dos reclusos de duas prisões estavam infetados com o VIH.

Atualmente, e de acordo com o referido relatório, continua a verificar-se a tendência para o número de novas infeções ser maior nos homens do que nas mulheres representando estas 30,7 % do total. Esta tendência tem-se verificado desde o início da epidemia, embora no início a percentagem de mulheres infetadas fosse menor (8,9% em 1985).

HN – Considera que até 2030, o nosso país estará em condições de atingir a meta traçada pela Organização Mundial da Saúde?
FA – Para que não ocorram novas infeções é necessário que as pessoas alterem o seu comportamento ou que se disponha de uma vacina. Torna-se por isso necessário aumentar a perceção do risco individual de infeção, que é essencial para desenvolver o comportamento preventivo. Na realidade, as pessoas em geral percecionam o VIH/SIDA como um grande risco para a sociedade, mas têm uma perceção de risco menor quando pensam em si próprias. Para aumentar a perceção de risco individual não é só necessária informação adequada e constante, mas também uma mudança de atitudes e embora o relatório agora publicado mostre que as taxas mais elevadas de infeção ocorrem nos grupos de idade entre os 20 e os 49 anos, não devemos deixar de considerar que a população mais velha, acima dos 50, continua a ter atividade sexual e que é necessário também aumentar a perceção do risco, sobretudo entre a população masculina.

Por outro lado, não devemos esquecer que a infeção do VIH/SIDA é um fenómeno à escala mundial e que por essa razão será de prever que continuarão os fluxos turísticos e migratórios, que aumentam a probabilidade de disseminar a infeção.

Finalmente, mesmo que se consiga uma prevenção eficaz, o nosso país terá ainda em 2030 pessoas que vivem com o VIH, para as quais é necessário continuar a providenciar cuidados de saúde e apoios sociais.

HN – Um relatório divulgado recentemente pelo Centro Europeu de Controlo da Doença assinala que mais de metade dos diagnósticos acontecem numa fase tardia da infeção. Quais as implicações para a qualidade de vida futura dos doentes?
FA – Embora ainda não haja cura para a SIDA, já existem terapêuticas que aumentam os anos de vida às pessoas infetadas e melhoram a sua qualidade de vida. Por isso é importante que o diagnóstico seja feito o mais cedo possível.

Para além do impacto negativo para o indivíduo, o diagnóstico tardio tem igualmente um impacto negativo para a sociedade, em virtude de pessoas infetadas não diagnosticadas poderem transmitir o VIH a outras pessoas aumentando, assim, o risco de infeção.

Por estas razões, deve ser incentivada a realização de testes do VIH para os indivíduos que tenham comportamentos de risco. Estes testes devem ser realizados em Centros de Testes que disponham de aconselhamento pré e pós teste, de modo a ajudar as pessoas a vencer situações de stress e a orientá-las não só em termos terapêuticos, mas também na adoção de comportamentos preventivos.

 

HN – Considera que a epidemia de Covid-19 está a ter consequências significativas ao nível do diagnóstico, tratamento e seguimento destes doentes no nosso país?
FA – É natural que a Covid-19 tenha algum impacto negativo na área do VIH/SIDA. A nova epidemia veio aumentar as dificuldades no acesso aos serviços para efeitos de testes e terapêuticos, independentemente de esses mesmos serviços terem realizado uma adaptação à situação criada pela Covid-19, dispensando, por exemplo, medicação para mais tempo e criando apoios a distância através da Internet. Para além disso, Portugal aderiu à Semana Europeia do teste 2020 que decorreu no final de novembro.

Mas a prevenção, a testagem e o tratamento do VIH/SIDA continuam a ser afetadas não só pela Covid-19, mas também pelo estigma social associado ao VIH/SIDA, o qual contribui para a discriminação e para a falta de adesão ao tratamento.

HN – Na sua opinião, e dado os estudos que realizou sobre o comportamento sexual dos portugueses e o VIH/SIDA, qual é o impacto da infeção nos doentes e que estratégias devem ser desenvolvidas para aumentar a sua resiliência face à doença, bem como a sua qualidade de vida?
FA – Para além dos aspetos médicos, o VIH/SIDA tem um impacto devastador no indivíduo, ao nível psicológico, familiar, social e económico. A pessoa sente-se desorientada, com sentimentos de culpa, e necessita de acompanhamento psicológico que a ajude a lidar consigo mesma e  principalmente com os familiares mais próximos, nomeadamente o cônjuge. Por exemplo, como comunicar aos familiares que está infetado? Como deve ser o seu comportamento? Por outro lado, o receio do estigma e da discriminação afeta as suas relações sociais e pode afetar o seu trabalho trazendo problemas económicos.

Perante os impactos negativos, as equipas de saúde ou as instituições de apoio, devem fazer uma abordagem integrada dos problemas sentidos pela pessoa, fornecendo informação sobre o VIH/SIDA, aconselhando como lidar com as situações pessoais e familiares, motivando para comportamentos preventivos para evitar a transmissão do VIH a outras pessoas, manter a adesão à terapêutica estabelecida e encaminhando para a área de apoio social quando for o caso.

Entrevista de Adelaide Oliveira

 

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