Dia 19 de janeiro. Assembleia da república; Plenário sobre política geral.

Excerto da Interpelação do deputado do CDS Telmo Correia ao Primeiro-ministro, António Costa, sobre a decisão de não se encerrarem as escolas.

Telmo Correia – Quantos alunos temos no país? Perto de dois milhões, mais coisa menos coisa. Além destes dois milhões de alunos, temos seguramente, sobretudo nos mais pequenos (novos) os pais que se têm que deslocar às escolas para os deixarem e depois para os irem buscar. Como é que o Senhor Primeiro Ministro quer ter um confinamento eficaz e rigoroso quando tem mais de dois milhões de pessoas a circular todos os dias. Não é possível!

Disse-nos há dias o Senhor Primeiro mistro que não há muitos contágios nas escolas. E disse-nos hoje que vão começar a testar as escolas amanhã. Então, pergunto eu, se vão apenas começar amanhã, como é que já sabe que não estão a haver contágios significativos nas escolas? Um dos especialistas que nós ouvimos, disse que a faixa etária entre os 13 e os 17 anos de idade pode ser muito complicada do ponto de vista de novas infeções.      Diz o Primeiro-ministro que não podemos sacrificar uma geração e a educação. Não posso estar mais de acordo! Agora, para não sacrificarmos um mês que seja de aulas, podemos estar a sacrificar vidas de outras gerações? Não faz sentido! Até porque tem outras soluções, como a de prolongar o ano escolar.

António Costa – Senhor deputado, o que eu lhe digo é o seguinte: isto é como quando vamos a conduzir. É fácil quem está ao lado opinar. Quem vai a conduzir tem o dever de saber ouvir, de estar atento aos sinais; de saber quando é que pode acelerar; quando é que tem que travar e quando tem que mudar a mudança; de sentido. É isso que eu procuro fazer todos os dias.

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Tenho que confessar que não posso estar mais de acordo com ambos. O primeiro, sabemo-lo hoje, estava certo na posição de que deveria imperar o princípio da precaução na questão do encerramento das escolas.

Até porque os números de casos declarados está bem longe da realidade. No agrupamento de escolas de Viseu, por exemplo, informada sobre suspeitas de casos nas escolas, a Delegada de Saúde ripostou com um “não posso fazer nada. Estou atolada em papéis. A Saúde Pública, esteve e continua a estar, neste contexto pandémico, na sombra.

António Costa, sabemo-lo de há muito, é um condutor “indeciso” espasmático. Anda há meses a ziguezaguear entre medidas, não chegando nunca a decidir se deve dirigir pela direita ou pela esquerda. Face à indecisão dos especialistas, vai conduzindo à toa, procurando escapar a possíveis obstáculos. O que era verdade esta manhã poderá deixar de o ser após o almoço sem evidência que alicerce a mudança de rumo.

É evidente que neste registo o desastre é inevitável. Mais de 200 mortes diárias e mais de 13500 infetados, também diariamente. Conseguimos a proeza de sermos hoje o pior país do mundo em termos de incidência de novos casos por milhão de habitantes e o segundo com maior mortalidade de toda a União Europeia.

Neste acampamento mal montado que nos saiu na rifa viver, perdeu-se o sentido de Estado. Do topo da hierarquia ao mais raso dos cabos. Vivemos – como vivemos durante séculos – “ao Deus Dará”. A ministra da saúde, não obstante o desastre que se abateu por indecisão política, mantém-se no cargo, o mesmo acontecendo com o resto do governo.

O desrespeito pelo cidadão é total. Não servimos para nada a não ser como depósitos da regurgitação mal-amada e incompetente da maioria dos servidores do Estado. Somos, todos nós, “carne para canhão” numa batalha em do nosso lado da linha só vemos pândegos dirigidos por outros pândegos ininteligíveis.

A gente não cumpre, estou convicto, não por falta de sentido cívico, mas por já não acreditar em quem a deveria dirigir.

E já há, até, tiques que pensávamos impossíveis depois de mais de 40 anos de democracia. Deixo um exemplo, claramente bolchevique.

Confrontado com a disponibilidade de as escolas privadas implementarem aulas não presenciais, o Ministro da Educação veio a correr arrumar o assunto informando que eram proibidas, num tom que deixou muitos com dúvidas sobre se o vírus também se propaga via Web. E ninguém disse nada. Resignámo-nos…

E o tipo mantém-se no cargo. De Marcelo, nem um pio.

Miguel Múrias Mauritti

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