Entrevista a Ana Farinha: “A anemia tem impacto no agravamento da doença renal crónica e de doenças cardiovasculares”

Estima-se que a Doença Renal Crónica afete uma em cada oito pessoas na Europa, das quais uma em cada cinco desenvolve anemia. No âmbito do Dia Mundial do Rim a nefrologista Centro hospitalar setúbal, Ana Farinha, sublinha que a anemia é uma complicação comum da DRC que se pode manifestar pelo cansaço, dificuldade em dormir, […]

Estima-se que a Doença Renal Crónica afete uma em cada oito pessoas na Europa, das quais uma em cada cinco desenvolve anemia. No âmbito do Dia Mundial do Rim a nefrologista Centro hospitalar setúbal, Ana Farinha, sublinha que a anemia é uma complicação comum da DRC que se pode manifestar pelo cansaço, dificuldade em dormir, falta de concentração e fadiga. “Para além de ter impacto na qualidade de vida, a anemia tem impacto no agravamento da própria doença renal e de outras doenças”.

A perda da função renal condiciona significativamente a qualidade de vida dos doentes. A nível nacional quais as causas de doença renal com maior prevalência?
A Doença Renal Crónica é causada por várias doenças. As doenças renais com maior prevalência são a diabetes e a hipertensão. Existem outras causas, mas estas são as que têm maior impacto na nossa população.

Considera estarmos perante um problema de Saúde Pública?
É um problema de Saúde Pública a partir do momento em que verificamos que estas doenças afetam mais de 20% da população.

Temos um estudo que foi publicado no ano passado que revela que a população portuguesa regista quase 21% de pessoas a sofrer de Doença Renal Crónica, em diferentes estadios, mas a sofrer de DRC.
Os portugueses estão sensibilizados este problema?

Creio que não. Aliás, muitos dos doentes nem sabem o que é a doença renal. Referem-se a esta patologia como dor nos rins, que muitas vezes até é uma confusão com as dores musculares e da coluna. É isso aquilo que os doentes acham que é a doença renal crónica, o que não é verdade.

Qual a relação entre a anemia e a doença renal crónica?
 A anemia é uma complicação da DRC. É uma complicação importante. Para além de ter impacto na qualidade de vida, a anemia tem impacto no agravamento da própria doença renal e de outras doenças, nomeadamente, as cardiovasculares.

De que forma a anemia pode agravar a DRC?
Esse mecanismo não está perfeitamente estabelecido. Não sabemos exatamente se o facto da doença renal ser mais grave propicia que a anemia seja mais frequente ou se é a própria anemia em si que agrava a progressão da doença. Isto porque nem todos os estudos mostraram os mesmos resultados. Alguns foram conflituosos uns com os outros em relação aos resultados.

No entanto, aquilo que sabemos é que existem algumas populações que são mais propensas a ter anemia apesar do estadio da doença ser menos avançado. Isto significa que apesar de terem melhor função renal têm anemias mais graves, como é o caso dos diabéticos.

Agora especificamente sobre a anemia, como se manifesta?

Tanto a doença renal crónica, como a anemia têm manifestações muito inespecíficas e que se vão instalando devagar ao longo do seu percurso. Muitas vezes os doentes não se apercebem das suas manifestações, sendo que as mais frequentes são: cansaço, dificuldade de concentração, dificuldade de dormir, fadiga. São manifestações que se vão instalando aos poucos e como não é de um dia para o outro, faz com que os doentes não valorizem estes sintomas e, muitas vezes, as pessoas se vão desculpando com outras causas, nomeadamente, com o excesso de trabalho e o stress.

Alguns doentes com anemia nem sempre apresentam sintomas… a ausência de sintomas coloca em causa o diagnóstico e o tratamento?
Sim. Se o doente não tiver conhecimento que sofre desta patologia e se não for seguido pelo seu médico, muitas vezes vai atribuindo estes sinais a outros fatores. Isto atrasa o diagnóstico e, consequentemente, a terapêutica.

Os Cuidados de Saúde Primários têm um papel a desempenhar na prevenção e diagnóstico?
Têm um papel importante no diagnóstico. Não só da doença renal, como também da anemia. O tratamento vai ter que passar pela especialidade de Nefrologia, uma vez que os tratamentos são de dispensa hospitalar.

Existe arsenal terapêutico eficaz para tratar esta condição? Quais as necessidades que consideram mais relevantes de serem supridas?

Existe bastante arsenal terapêutico que nos permite tratar a anemia. Como todos os medicamentos têm vantagens e desvantagens o que leva a que efetivamente, haja sempre uma oportunidade para melhorar. Um dos problemas destes medicamentos é serem de dispensa hospitalar, portanto implica que os doentes tenham acesso ao serviço de saúde e quando não é fácil (ou porque vivem longe ou porque o doente trabalha, terem de tirar um dia para de dirigir ao hospital). Neste momento, ainda não dispomos de fármacos de toma oral para tratamento da anemia da DRC.

Tendo em conta que hoje se assinala o Dia Mundial do Rim que mensagem gostaria de deixar?
Este ano o Dia Mundial do Rim é dedicado ao bem-estar das pessoas que vivem com doença renal e a mensagem que gostaria de deixar é que os doentes tenham esperança. É possível viver com doença renal e ter uma boa qualidade de vida. Nós nefrologistas trabalhamos para isso e é bom que os doentes nos transmitam o que é para eles a qualidade de vida para podermos ir ao encontro dessa mesma qualidade de vida.

Entrevista de Vaishaly Camões

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